Por Helena Silvestre

 Comecei a escrever este texto antes do primeiro turno das eleições presidenciais com o objetivo de compartilhar algumas impressões com amigues que em outros lugares do mundo desejavam notícias e alguma opinião de qual seriam os possíveis cenários dadas as condições políticas por aqui. Mas foi preciso cozinhar um pouco a fogo lento, escapar da psicose política instaurada e da avalanche de escândalos, notícias, tarefas e “explosões” chegando por todos os directs para respirar e pensar, para encadear pensamento tentando ir além da emulação exaustiva e da saturação pelo assédio eleitoral vindo de todos os lados, sem descanso e sem fôlego. 

Só agora me foi possível. 

Agora, depois de algum alívio, depois de ver Trump e Milei decepcionados, frustrados em seu plano de expansão do clube de déspotas. Por aqui, um bocado está a celebrar e sim, há algumas razões para isso. Mas elas não são maiores do que as fartas razões para se preocupar, se preparar e se auto organizar, sem esperar soluções de um governo que desde a campanha sinaliza ir cada vez mais à conciliação e à direita. 

 Primeiro turno: a esperança venceu o medo e vice-versa 

 O bolsonarismo, como já sabemos, é um movimento que se tornou independente da figura de Jair Bolsonaro e parece ser uma das expressões brasileiras mais marcantes de um fenômeno que o mundo todo observa e que se caracteriza pelo crescimento de uma ultra direita com bases populares, que se reivindica anti-sistema e que vem alternando poder com governos do chamado campo progressista. Apesar disso, nestas eleições, o clã Bolsonaro teve papel central, tanto pela quantidade de parlamentares que conseguiu eleger quanto pelo fato de que a herança política do ex-presidente foi repassada diretamente a seu filho, candidato e principal oponente de Lula. 

Este movimento de ultra direita populista cresce, sobretudo, alimentado pela desilusão da população com as promessas não cumpridas por governantes de esquerda, afinal, se quem sempre defendeu os trabalhadores faz tão pouco quando chega as estruturas de poder, já não sobra muita confiança de que estas estruturas sejam úteis para certas finalidades. 

Não surpreende, portanto, que este populismo de ultra direita se alterne no poder com governos progressistas ou que eleitores que votam na extrema direita em uma eleição possam votar em progressistas na eleição seguinte. Um certo pragmatismo desesperançado – da promessa civilizatória de um Estado de bem estar e direitos que bote freios ao capitalismo grotesco – parece tomar conta de parcelas grandes dos pobres, assim como alguns sentimentos de vingança ou mesmo de gosto por ver a própria desgraça permanente ser “socializada” ao atingir segmentos de classe que estiveram historicamente em melhores condições de usufruir deste estado, em melhores condições de vida. 

Sem acreditar muito que o estado democrático liberal possa resolver seus problemas através da pífia participação eleitoral a cada dois anos mas sem vislumbrar outras maneiras de solução além do estado e do mercado, esses sentimentos de 

descrença, desesperança, vingança e pragmatismo terminam se expressando cada vez mais em processos eleitorais. Apesar do risco que isso significa e dos danos que tem causado ao concretizar-se repetidamente a eleição democrática de figuras antidemocráticas, as esquerdas institucionais seguem nutrindo a ideia de que este é o único instrumento viável de mudança e, portanto, não podemos abrir mão dele de nenhuma maneira. O medo – antes mobilizado principalmente por setores políticos conservadores – passa a ser a principal argumentação também de progressistas que atuam com a ideia de que, se estamos ruins, alerta!, podemos piorar e muito. E aqui começa uma disputa de narrativas que o primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil fez emergir com muita nitidez. 

Como ler o que está acontecendo? O que significa que uma parte importante dos setores mais explorados e oprimidos da população estejam dispostos a votar em candidatos da extrema-direita, como o derrotado filho de Jair Bolsonaro e outras candidaturas completamente bizarras (como a antifeminista Julia Zanatta), assumindo posturas declaradamente racistas, misóginas, elitistas e homofóbicas? As interpretações destes dados da realidade implicaram em escolhas que nem se iniciaram e nem terminarão com o pleito. 

Pobre de direita 

Talvez, traço que melhor defina as interpretações hegemônicas do que está em curso no Brasil é de que a culpa é do outro. 

A ultra direita propaga ideias que parecem explicar todos os problemas enfrentados no país a partir da responsabilização de figuras – e políticas associadas a elas – que teriam desestabilizado a “vida como ela é” e assim, gays, lésbicas, pessoas trans e dissidentes de gênero surgem como responsáveis pelas desestruturação da família; pessoas negras e indígenas que usufruem políticas afirmativas de reparação são as responsáveis pelo desemprego de brancos pobres; setores da população que se beneficiam de auxílios governamentais são responsáveis pela desvalorização do trabalho; ladrões de celular são os responsáveis pela falta de segurança nas ruas e no transporte, etc. 

As esquerdas, a seu modo, também encontram seus culpados, seus “outros” a responsabilizar e foi assim que – para explicar os problemas que atravessamos como sociedade – os “pobres de direita” são responsabilizados pelo aprofundamento das desigualdades sociais; “burros que não sabem votar” são responsáveis pela ascensão de governantes de extrema direita; “ignorantes que não conhecem a história do país” são responsabilizados pelos riscos de voltarmos a uma ditadura militar; evangélicos são responsabilizados pelas péssimas políticas públicas implementadas por governos ultra conservadores, etc. 

Essa “outrização” da responsabilidade pelo que vivemos desvia a crítica da raiz do problema, da estrutura que produz tudo isso e mantém a situação se deteriorando. É uma explicação que sustenta a crença (quase insustentável) de que algo bom que funcionava precisa e pode ser recuperado (valores morais cristãos e mão dura para impôr respeito, de um lado, capacidade de interpretação crítica e consciência de classe, do outro), para que voltemos à normalidade. 

A questão é que nenhuma das versões desta explicação questiona se devemos mesmo recuperar o que existia; nenhuma delas se pergunta sobre o que é que estamos chamando de normal e se ele funcionava de fato bom para todes. Essa forma de explicar o mundo aponta para fora, para cima, para os lados mas nunca para dentro, nunca para si, e apela para a crença de que o que estamos vivendo é apenas um infeliz desvio do capitalismo-do-dia-a-dia que vivíamos antes da pandemia – como se o capitalismo não fosse uma desgraça antes disso e como se o ele fosse um sistema em que algum equilíbrio pudesse ser mantido sem a expansão contínua das fronteiras de destruição. 

Alice no país das maravilhas 

Muitas pessoas estavam surpresas e não conseguiam entender porque alguém – que não seja um agroboy rico que nunca trabalhou ou um miliciano – votaria em Flávio Bolsonaro. Possivelmente, em grande medida, essa surpresa relaciona-se com o fato de terem acreditado na ficção que construíram para justificar seu próprio voto. “Não é uma escolha difícil” foi uma mensagem bastante reproduzida na campanha, associada a ideias como “enquanto um levou os pobres para a faculdade o outro defende a milícia”. De fato, Flávio Bolsonaro é um candidato de conduta, no mínimo, asquerosa, refletindo bem o que tem sido o populismo de ultra direita crescente no mundo todo. Ver sua cara de pau na televisão e ouvir sua voz hipócrita contando mentiras no rádio foi mesmo bastante desagradável. No entanto, o problema é que o outro lado da história não é tão lindo quando a campanha eleitoral quis fazer parecer. 

Uma jovem parlamentar recém eleita dizia – em uma postagem feita em suas redes (anti)sociais – algo que pode ajudar a ilustrar o processo de acreditar na própria ficção: 

“E eu não estou dizendo que comício na rua, ir pra rua não é importante. Eu estou te falando que se você não tiver presença nas redes sociais, o mundo pode estar ótimo, a economia pode estar ótima, o poder de compra pode estar ótimo, mas se tiver alguém aqui na rede social falando que o mundo está uma bosta, as pessoas vão acreditar. […] Porque quem domina as redes sociais aqui, quem domina as narrativas, está dizendo que o mundo está uma merda. Então, por mais que a economia esteja boa, por mais que tudo esteja bom, as pessoas não conseguem entender essa realidade, de que o mundo realmente está bom, porque aqui quem domina as narrativas está dizendo que tá ruim.“ (1)

Não conheço a jovem, não se trata de uma crítica a ela – que apenas começa sua carreira de política profissional – mas sim de uma lógica de pensamento que vem crescendo e aumentando a incapacidade autocrítica das esquerdas institucionais, bem como minando a possibilidade de auto organização de quem mais precisa organizar-se. 

É fato que as narrativas são importantes, vivemos as experiências mas retiramos delas as lições que somos capazes de acordo com a história que compomos para nós mesmos sobre o que vivemos. Não ignoro a necessidade de disputas neste campo. No entanto, mesmo com toda a capacidade narrativa, a experiência ainda possui relevância na determinação de qual história contaremos. Afirmar que as pessoas nos pontos de ônibus não são capazes de compreender que “a economia está ótima, que o poder de compra está ótimo e que o mundo está realmente bom” porque estão repetindo as narrativas de quem domina as redes e ignorando a realidade é tão perigoso quanto arrogante. 

É verdade que o desemprego caiu nos últimos anos de governo Lula? Sim. Mas quais são os empregos que as pessoas possuem? Elas ganham o suficiente? Elas gastam 

quantas horas diárias de suas vidas deslocando-se em transportes públicos que foram privatizados e custam tão caro quanto às horas perdidas no trânsito por trabalhadoras exaustas? Os desempregados são poucos – apenas 5,9 milhões de pessoas no segundo trimestre de 2026. Os desalentados são poucos – apenas, 2,3 milhões de pessoas no mesmo período (2). Entre os milhões de trabalhadores, a taxa de informalidade foi de 37,5% (apenas 38,8 milhões de pessoas sem direitos trabalhistas, 1 em cada 10 jovens em Santa Catarina ou 7 em cada 10 no Maranhão)(3). Talvez, mas só talvez, faça sentido pensar se para estas milhões de pessoas o mundo está tão bom assim. Talvez faça sentido pensar em quem ficou do lado de fora do paraíso. 

Além disso, acreditar que basta aprender a se comportar nas redes para usufruir o que elas tem de melhor é como acreditar que basta ter bons candidatos eleitos para que o Estado capitalista colonialista se torne muito bom para nós, os explorados, os colonizados. É esquecer que as redes sociais tem dono, é esquecer que o Estado chegou aqui com as caravelas que colonizaram estas terras e que ele é uma máquina racializante e genocida. Recentemente, um jovem ativista com grande presença em redes sociais aqui no Brasil teve seus perfis derrubados pela Meta. Ele chegou a adoecer mentalmente porque toda sua intervenção política no mundo estava armada a partir de ferramentas que pertencem aos maiores bilionários do mundo, os donos das big techs. 

Não olhe para cima 

Apesar de “um mundo realmente bom”, vivemos um momento terrivelmente angustiante para boa parte das populações de todo o planeta e o Brasil não está imune. Presenciamos o que parece ser a queda dos restos que gerenciavam o capitalismo no pós segunda guerra. Falar em ONU depois de anos de genocídio ao povo palestino é quase uma piada. Seguir falando de desenvolvimento e progresso em meio ao cataclisma climático é como tapar os ouvidos em meio a um incêndio como se nada estivesse acontecendo. Os Estados Unidos, baluarte da democracia liberal no Ocidente, é governado por um troglodita democraticamente eleito e ameaça o mundo com guerras fiscais e militares, além de manter uma governança composta pelos tecno-bilionários mais poderosos do planeta. 

Não, o mundo não está realmente bom. 

No Brasil, o endividamento recorde das famílias – que chegou a 82% dos consumidores – foi explorado pelo playboy do PL (Partido Liberal) porque a situação é grave e produz angústia sobretudo entre os mais pobres (4). Isso se deve principalmente à alta taxa de juros, ao crescimento do uso do crédito rotativo, à pressão do custo de vida e ao avanço das apostas online (bets) sobre o orçamento doméstico. Com que se endividam? Com ítens básicos à sobrevivência como aluguel, serviços básicos (água, luz e gás), transporte e alimentos. 

Observamos uma constante piora nas condições de vida das classes trabalhadoras em todo o mundo e a insatisfação com isso, em muitos lugares, tem sido capturada pela extrema direita. «O Mal-Estar na Civilização», nascido de uma profunda crise global que tem nos arrastado a genocídios e guerras singularmente televisionadas, produz seus novos termos – como ansiedade climática. No Brasil, 74,3% das pessoas afirmam já ter vivenciado consequências diretas de desastres e quase 42% acredita que as mudanças climáticas impactam negativamente sua saúde mental (5). São questões que expõem a fragilidade diante das democracias liberais, como a que temos aqui, e que apontam para a falência do sistema capitalista que – sem ser derrubado – desmorona nas costas mais vulnerabilizadas. 

O progressismo, no entanto, realizou uma campanha eleitoral no primeiro turno que parecia embriagada com as próprias ilusões. Agarrando-se ferrenhamente aos valores desta democracia liberal – esta mesma, que foi informada pelo racismo (aqui ou nos Estados Unidos) e que convive muito bem com a banalidade do mal, com a violência contra mulheres e pessoas pobres – assumem uma posição reativa enquanto os populistas de direita aparecem como radicais dispostos a rifar o sistema. Isso não é um desvio do capitalismo, isso é o cerne do próprio sistema expondo suas contradições quando a maquiagem democrático burguesa já não se sustenta no antropoceno. 

Seguindo essa lógica, a campanha eleitoral de Lula no primeiro turno foi terrivelmente despolitizada, fantasiosa e arrogante. As inflexões feitas no processo foram perigosas e sintomáticas – como a proposta do candidato de redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, sinalizando aos eleitores mais conservadores. 

O raciocínio por trás disso é que, tornando-se cada vez mais conservador e oferecendo propostas cada vez mais parecidas com as da direita, quem sabe conseguiria capturar alguns votos mais? Sob o discurso de frear a extrema direita, as esquerdas começam a realizar aquilo que as direitas fariam. 

Segundo turno: A nossa rede social é a rua .

Desde 2018 tenho analisado as eleições concentrada no que mais me interessa: o aumento recorde, a cada pleito, do número de pessoas aptas a votar mas que abrem mão de participar da esvaziada performance democrática que nos é oferecida como cala boca a cada dois anos (6). 

Nessa ocasião – quando a esquerda desesperava-se dizendo que metade do Brasil era facista, que pobres de não sabem votar e que quem não votou era responsável pelo desastre – escrevi uma pequeno texto tentando dialogar sobre o fato de que não foi metade do Brasil que elegeu Bolsonaro pai: dos 147 milhões habilitados a votar, 20,3% não foram às urnas, contabilizando um total de quase 30 milhões de pessoas que deixaram de participar da festa da democracia por não reconhecerem-se nos convidados. É muita gente. 

Agora, no primeiro turno das eleições, um novo recorde: Mais de 33,4 milhões de eleitores deixaram de comparecer às urnas, o equivalente a 21,08% do eleitorado brasileiro, maior percentual registrado desde 1998 (TSE, 2026). Os números crescem de maneira estável, mas a estabilidade de uma hemorragia não muda o fato de ser uma hemorragia. 

E eis que no segundo turno, algumas coisas mudaram. 

Atos começaram a ser convocados por setores da juventude – inicialmente por fora das organizações diretamente envolvidas na campanha – e uma mobilização de rua passou 

a ganhar força. O discurso se dedicou menos a alimentar a falaciosa fantasia de um histórico de governos perfeitos por parte do PT e mais a dialogar sobre uma aliança contra os bolsonaros. Uma aliança entre gente muito diversa, gente que não defende as gestões Petistas, gente que se lembra da primeira reforma da previdência, em 2004, e do papel do Brasil na violência brutal da Minustah contra o povo do Haiti, iniciada no mesmo ano. Gente que se lembra de que as lutas por moradia foram convertidas em especulação imobiliária através de políticas de endividamento como o Minha Casa Minha Vida; gente que se lembra da lei que converteu protestos em terrorismo, aprovada por Dilma Roussef dias antes do impeachment ou que se lembra de agorinha, quando apesar de todos os relatórios contrários demonstrando o risco para a natureza e para os povos da floresta, o governo federal aprovou a exploração de petróleo na Foz do Rio Amazonas. 

O voto nunca me pareceu o espaço onde o que penso e sinto encontra lugar. Mas, mesmo assim – militante desde os 12 anos de idade, nascida e criada numa favela do mesmo ABC da greve que viu Lula ascender como líder político sindical – eu fui votar no segundo turno, votei contra Flávio Bolsonaro, votei acreditando que o sentimento de vitória nas eleições depois das mobilizações de rua deixariam margem para construir mais movimento, mais mobilização, para tomar mais e mais as ruas – que é o único terreno onde podemos obter alguma vitória consistente e o único lugar onde as lutas podem sair do controle. E é muito importante que as lutas saiam do controle já que revolta controlada e nos termos da ordem facilmente se transforma em facismo. 

Terceiro turno: quem não luta, tá morto 

No primeiro turno a soma de abstenções, votos brancos e votos nulos foi de 39.444.291 (cerca de 39,4 milhões) já no segundo turno foi de 34.662.806. A diferença foi de 4.781.485, quase 5 milhões de pessoas que, apesar de não acreditarem mais que o voto pode melhorar as nossas vidas, se moveram numa aliança momentânea contra o avanço da ultra direita. A diferença de votos entre Lula e playboy imbecil no segundo turno das Eleições Presidenciais foi de 4.430.191 milhões de votos. 

Não é preciso desenhar para explicar o que aconteceu. 

Há muita, mas muita gente que não fazia nada antes das eleições e que vai voltar a não fazer nada depois delas. Profissionais liberais, intelectuais ilustrados, trabalhadores qualificados que acreditam que fazer bem o seu serviço é o suficiente para um país melhor, gente que jura de pé junto que já dá sua melhor contribuição na sala de aula, no consultório, na redação ou no grupo de pesquisa. Protesto? Militância nas horas vagas? Atravessar a cidade para ter presença constante nas periferias e territórios disputados pela direita? Deixa isso para os pedreiros, faxineiras e trabalhadores de aplicativo fazerem. O trabalho deles não contribui para a ilustração do país, então é justo que tenham uma jornada a mais. 

Não sei se devemos esperar muito destes, tampouco daqueles que – tecnocratas, burocratas de esquerda ou militantes profissionais – tem na política institucional o seu ganha pão; menos ainda esperaria dos que agora estarão profissionalizados como militantes de direita sustentados pelas dezenas de mandatos que o PL de Flavio Bolsonaro conseguiu eleger, chegando em 2026 a uma das maiores bancadas no parlamento. 

Do próprio governo Lula também não se pode esperar muito; a sinalização à extrema direita feita desde o primeiro turno com o projeto de redução da maioridade penal num país que já é o terceiro maior encarcerador do mundo deixa explícito que sua perspectiva não será lá de muito enfrentamento. O fato de o PL, partido dos Bolsonaros ter uma bancada tão grande, contraditoriamente, favoreceu o governo de Lula na medida em 

que o centrão – para não ser engolido pela extrema direita – vai provavelmente se aliar ao governo para eleger a presidência da câmara federal e do senado. Tudo tende a caminhar mais e mais à direita para que, nas próximas eleições, a força eleitoral do próximo candidato ultra conservador seja uma terrível surpresa e tudo se repita como foi agora, com o medo como principal argumento a favor de um governo que nasceu dizendo-se dos trabalhadores. 

Então o que fazer durante estes quatro anos em que o governo vai seguir à direita? 

Encontrar com essas quase 5 milhões de pessoas, sim, essas que não foram votar no primeiro turno, que estão fartas dessa hipocrisia eleitoral que distrai as nossas energias do que é urgente e deve ser nutrido, esses milhões que talvez estejam dedicando seu tempo a construir possibilidades em menor escala, quase invisíveis, na micropolítica que habita territórios cotidianamente e não a cada dois anos. Teremos de nos organizar, de construir um campo alternativo que não se expressa nas eleições mas pode se expressar de outras maneiras, que não contemporiza com a ultra direita mas tampouco passa pano para governos de esquerda que saem de mãos dadas com patrões, banqueiros, industriais e agroburgueses assassinos de indígenas. 

Se para algo servem os próximos anos de governo Lula – sabendo que a direita virá com ainda mais força nas próximas eleições e sabendo que as esquerdas institucionais não terão candidatos em condição de mover o que Lula chegou a mobilizar – é para que nos organizemos, para além do Estado, para além das eleições, alinhando as nossas lutas com outras que explodem mundo afora apontando os limites deste sistema e sonhando com muito mais do que “eleger o menos pior”: nós merecemos viver muito mais que isso. 

Referências

(1) Vídeo publicado pela candidata Ana Elisa em sua rede social. Disponível em https://www.instagram.com/p/DeHuR8AOmX7/?utm_source=ig_embed&utm_campaign=embed_video_watch_ag ain acesso em 12/10/26 

(2) Fonte IBGE. Disponível em https://www.ibge.gov.br/explica/desemprego.php Acesso em 12/10/26 

(3) Fonte IBGE. Disponível em https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/48148-pnad-c ontinua-taxa-de-desocupacao-e-de-5-3-e-taxa-de-subutilizacao-e-de-13-1-no-trimestre-encerrado-em-agosto 

(4) Fonte: https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/08/06/endividamento-das-familias-bate-recorde-pelo-6o-mes-seguid o-e-chega-a-82percent-diz-cnc.ghtml Acessado em 12/10/2026 

(5) Relatório do Instituto Cactus. Disponível em https://institutocactus.org.br/ansiedade-climatica-dados-ineditos-mostram-impacto-das-mudancas-climaticas-na-s aude-mental-da-populacao-brasileira/ Acessado em 12/10/2026 

(6) ELEIÇÕES 2018: QUAL O FUTURO DESTE VELHO PRESENTE? Disponivel em https://www.revistaamazonas.com/2018/10/11/eleicoes-2018-qual-o-futuro-deste-velho-presente/ Acesso em 12/10/2026 

Primavera brasileña y otoño caliente en el norte: el clima electoral es el apocalipsis climático

Por Helena Silvestre

Tradução: Amanda Martinez

Empecé a escribir este texto antes de la primera vuelta de las elecciones presidenciales con el objetivo de compartir algunas impresiones con amigues que, en otros lugares del mundo, querían noticias y alguna opinión sobre cuáles serían los posibles escenarios dadas las condiciones políticas por aquí. Pero fue necesario cocinarlo un poco a fuego lento, escapar de la psicosis política instaurada y de la avalancha de escándalos, noticias, tareas y “explosiones” que llegaban por todos los mensajes directos, para respirar y pensar, para hilar el pensamiento intentando ir más allá de la emulación exhaustiva y de la saturación por el acoso electoral que venía de todos lados, sin descanso y sin aliento.

Solo ahora me fue posible.

Ahora, después de algún alivio, después de ver a Trump y a Milei decepcionados, frustrados en su plan de expansión del club de déspotas. Por aquí, mucha gente está celebrando y sí, hay algunas razones para ello. Pero no son mayores que las abundantes razones para preocuparse, prepararse y autoorganizarse, sin esperar soluciones de un gobierno que desde la campaña da señales de ir cada vez más hacia la conciliación y hacia la derecha.

El bolsonarismo, como ya sabemos, es un movimiento que se volvió independiente de la figura de Jair Bolsonaro y parece ser una de las expresiones brasileñas más marcadas de un fenómeno que el mundo entero observa y que se caracteriza por el crecimiento de una ultraderecha con bases populares, que se reivindica antisistema y que viene alternándose en el poder con gobiernos del llamado campo progresista. A pesar de ello, en estas elecciones, el clan Bolsonaro tuvo un papel central, tanto por la cantidad de parlamentarios que logró elegir como por el hecho de que la herencia política del expresidente fue transferida directamente a su hijo, candidato y principal oponente de Lula.

Este movimiento de ultraderecha populista crece, sobre todo, alimentado por la desilusión de la población con las promesas incumplidas por gobernantes de izquierda; al fin y al cabo, si quienes siempre defendieron a los trabajadores hacen tan poco cuando llegan a las estructuras de poder, ya no queda mucha confianza en que esas estructuras sirvan para ciertos fines.

No sorprende, por lo tanto, que este populismo de ultraderecha se alterne en el poder con gobiernos progresistas, ni que electores que votan por la extrema derecha en una elección puedan votar por progresistas en la siguiente. Un cierto pragmatismo desesperanzado –frente a la promesa civilizatoria de un Estado de bienestar y derechos que le ponga frenos al capitalismo grotesco– parece apoderarse de amplias franjas de los pobres, así como ciertos sentimientos de venganza o incluso de gusto por ver la propia desgracia permanente “socializada” al alcanzar a segmentos de clase que históricamente estuvieron en mejores condiciones de disfrutar de ese Estado, en mejores condiciones de vida.

Sin creer mucho que el Estado democrático liberal pueda resolver sus problemas a través de la pobre participación electoral cada dos años, pero sin vislumbrar otras formas de solución más allá del Estado y del mercado, esos sentimientos de descreimiento, desesperanza, venganza y pragmatismo terminan expresándose cada vez más en los procesos electorales. A pesar del riesgo que esto significa y de los daños que ha causado al concretarse repetidamente la elección democrática de figuras antidemocráticas, las izquierdas institucionales siguen alimentando la idea de que este es el único instrumento viable de cambio y que, por lo tanto, no podemos renunciar a él de ninguna manera. El miedo –antes movilizado principalmente por sectores políticos conservadores– pasa a ser el principal argumento también de progresistas que actúan con la idea de que, si estamos mal, ¡alerta!, podemos empeorar y mucho. Y aquí comienza una disputa de narrativas que la primera vuelta de las elecciones presidenciales en Brasil hizo emerger con mucha nitidez.

¿Cómo leer lo que está ocurriendo? ¿Qué significa que una parte importante de los sectores más explotados y oprimidos de la población esté dispuesta a votar por candidatos de la extrema derecha, como el derrotado hijo de Jair Bolsonaro y otras candidaturas completamente bizarras (como la antifeminista Julia Zanatta), que asumen posturas declaradamente racistas, misóginas, elitistas y homofóbicas? Las interpretaciones de estos datos de la realidad implicaron elecciones que ni comenzaron ni terminarán con los comicios.

Pobre de derecha

Quizás el rasgo que mejor define las interpretaciones hegemónicas de lo que está en curso en Brasil es que la culpa es del otro.

La ultraderecha propaga ideas que parecen explicar todos los problemas que enfrenta el país a partir de responsabilizar a ciertas figuras –y a las políticas asociadas a ellas– que habrían desestabilizado “la vida tal como es”. Así, gays, lesbianas, personas trans y disidentes de género aparecen como responsables de la desestructuración de la familia; las personas negras e indígenas que se benefician de políticas afirmativas de reparación son las responsables del desempleo de los blancos pobres; los sectores de la población que reciben ayudas gubernamentales son responsables de la desvalorización del trabajo; los ladrones de celulares son los responsables de la falta de seguridad en las calles y en el transporte, etc.

Las izquierdas, a su manera, también encuentran a sus culpables, a sus “otros” a quienes responsabilizar, y fue así como –para explicar los problemas que atravesamos como sociedad– los “pobres de derecha” son responsabilizados por la profundización de las desigualdades sociales; los “burros que no saben votar” son responsables del ascenso de gobernantes de extrema derecha; los “ignorantes que no conocen la historia del país” son responsabilizados por los riesgos de volver a una dictadura militar; los evangélicos son responsabilizados por las pésimas políticas públicas implementadas por gobiernos ultraconservadores, etc.

Esta “otrificación” de la responsabilidad por lo que vivimos desvía la crítica de la raíz del problema, de la estructura que produce todo esto y mantiene la situación deteriorándose. Es una explicación que sostiene la creencia (casi insostenible) de que algo bueno que funcionaba necesita y puede ser recuperado (valores morales cristianos y mano dura para imponer respeto, por un lado; capacidad de interpretación crítica y conciencia de clase, por el otro) para que volvamos a la normalidad.

La cuestión es que ninguna de las versiones de esta explicación cuestiona si realmente debemos recuperar lo que existía; ninguna de ellas se pregunta qué es lo que estamos llamando normal y si de hecho era bueno para todes. Esta forma de explicar el mundo apunta hacia afuera, hacia arriba, hacia los lados, pero nunca hacia adentro, nunca hacia sí misma, y apela a la creencia de que lo que estamos viviendo es apenas una desafortunada desviación del capitalismo-de-todos-los-días que vivíamos antes de la pandemia, como si el capitalismo no fuera una desgracia antes de eso y como si fuera un sistema en el que se pudiera mantener algún equilibrio sin la expansión continua de las fronteras de destrucción.

Alicia en el país de las maravillas

Mucha gente estaba sorprendida y no lograba entender por qué alguien –que no fuera un agroboy rico(1) que nunca trabajó o un miliciano– votaría por Flávio Bolsonaro. Posiblemente, en gran medida, esa sorpresa tiene que ver con que se creyeron la ficción que construyeron para justificar su propio voto. “No es una elección difícil” fue un mensaje muy reproducido en la campaña, asociado a ideas como “mientras uno llevó a los pobres a la universidad, el otro defiende a la milicia(2)”. De hecho, Flávio Bolsonaro es un candidato de conducta, como mínimo, asquerosa, que refleja bien lo que ha sido el populismo de ultraderecha creciente en todo el mundo. Ver su cara dura en la televisión y escuchar su voz hipócrita diciendo mentiras en la radio fue realmente bastante desagradable. Sin embargo, el problema es que el otro lado de la historia no es tan lindo como la campaña electoral quiso hacerlo parecer.

Una joven parlamentaria recién electa decía –en una publicación hecha en sus redes (anti)sociales– algo que puede ayudar a ilustrar este proceso de creerse la propia ficción:

“Y no estoy diciendo que el mitin en la calle, salir a la calle, no sea importante. Te estoy diciendo que si no tienes presencia en las redes sociales, el mundo puede estar excelente, la economía puede estar excelente, el poder adquisitivo puede estar excelente, pero si hay alguien aquí en la red social diciendo que el mundo es una porquería, la gente lo va a creer. […] Porque quien domina las redes sociales aquí, quien domina las narrativas, está diciendo que el mundo es una mierda. Entonces, por más que la economía esté bien, por más que todo esté bien, la gente no logra entender esa realidad, de que el mundo realmente está bien, porque aquí quien domina las narrativas está diciendo que está mal.” (3)

No conozco a la joven, no se trata de una crítica hacia ella –que apenas comienza su carrera de política profesional– sino a una lógica de pensamiento que viene creciendo y aumentando la incapacidad autocrítica de las izquierdas institucionales, además de minar la posibilidad de autoorganización de quienes más necesitan organizarse.

Es cierto que las narrativas son importantes: vivimos las experiencias, pero extraemos de ellas las lecciones que somos capaces de extraer según la historia que componemos para nosotros mismos sobre lo vivido. No ignoro la necesidad de disputar en este campo. Sin embargo, aun con toda la capacidad narrativa, la experiencia sigue teniendo relevancia en la determinación de qué historia contaremos. Afirmar que las personas en las paradas de autobús no son capaces de comprender que “la economía está excelente, que el poder adquisitivo está excelente y que el mundo realmente está bien” porque están repitiendo las narrativas de quienes dominan las redes e ignorando la realidad es tan peligroso como arrogante.

¿Es verdad que el desempleo bajó en los últimos años de gobierno de Lula? Sí. Pero ¿cuáles son los empleos que tienen las personas? ¿Ganan lo suficiente? ¿Cuántas horas diarias de sus vidas gastan desplazándose en transportes públicos que fueron privatizados y que cuestan tan caro como las horas perdidas en el tráfico por trabajadoras exhaustas? Los desempleados son pocos: apenas 5,9 millones de personas en el segundo trimestre de 2026. Los desalentados son pocos: apenas 2,3 millones de personas en el mismo período (4). Entre los millones de trabajadores, la tasa de informalidad fue del 37,5% (apenas 38,8 millones de personas sin derechos laborales; 1 de cada 10 jóvenes en Santa Catarina o 7 de cada 10 en Maranhão) (5). Quizás, pero solo quizás, tenga sentido pensar si para estos millones de personas el mundo está tan bien. Quizás tenga sentido pensar en quiénes se quedaron fuera del paraíso.

Además, creer que basta con aprender a comportarse en las redes para aprovechar lo mejor que tienen es como creer que basta con tener buenos candidatos electos para que el Estado capitalista colonialista se vuelva muy bueno para nosotros, los explotados, los colonizados. Es olvidar que las redes sociales tienen dueño, es olvidar que el Estado llegó aquí con las carabelas que colonizaron estas tierras y que es una máquina racializante y genocida. Recientemente, un joven activista con gran presencia en redes sociales aquí en Brasil vio sus perfiles eliminados por Meta. Llegó a enfermarse mentalmente porque toda su intervención política en el mundo estaba armada a partir de herramientas que pertenecen a los mayores multimillonarios del mundo, los dueños de las big tech.

No mires arriba

A pesar de “un mundo que realmente está bien”, vivimos un momento terriblemente angustiante para buena parte de las poblaciones de todo el planeta, y Brasil no es inmune. Presenciamos lo que parece ser la caída de los restos que gestionaban el capitalismo de la segunda posguerra. Hablar de la ONU después de años de genocidio contra el pueblo palestino es casi un chiste. Seguir hablando de desarrollo y progreso en medio del cataclismo climático es como taparse los oídos en medio de un incendio como si nada estuviera pasando. Estados Unidos, baluarte de la democracia liberal en Occidente, está gobernado por un troglodita democráticamente electo y amenaza al mundo con guerras fiscales y militares, además de mantener una gobernanza compuesta por los tecnomultimillonarios más poderosos del planeta.

No, el mundo no está realmente bien.

En Brasil, el endeudamiento récord de las familias –que llegó al 82% de los consumidores– fue explotado por el playboy del PL porque la situación es grave y produce angustia sobre todo entre los más pobres (6). Esto se debe principalmente a la alta tasa de interés, al crecimiento del uso del crédito rotativo, a la presión del costo de vida y al avance de las apuestas en línea (bets)(7) sobre el presupuesto doméstico. ¿En qué se endeudan? En artículos básicos para la supervivencia, como alquiler, servicios básicos (agua, luz y gas), transporte y alimentos.

Observamos un empeoramiento constante de las condiciones de vida de las clases trabajadoras en todo el mundo, y la insatisfacción con ello, en muchos lugares, ha sido capturada por la extrema derecha. El malestar en la cultura, nacido de una profunda crisis global que nos ha arrastrado a genocidios y guerras singularmente televisadas, produce sus nuevos términos, como la ansiedad climática. En Brasil, el 74,3% de las personas afirma haber vivido ya consecuencias directas de desastres y casi el 42% cree que el cambio climático impacta negativamente su salud mental (8). Son cuestiones que exponen la fragilidad frente a las democracias liberales, como la que tenemos aquí, y que apuntan a la quiebra del sistema capitalista que –sin ser derribado– se desmorona sobre las espaldas más vulnerabilizadas.

El progresismo, sin embargo, hizo en la primera vuelta una campaña electoral que parecía embriagada con sus propias ilusiones. Aferrándose férreamente a los valores de esta democracia liberal –esta misma, que fue moldeada por el racismo (aquí o en Estados Unidos) y que convive muy bien con la banalidad del mal, con la violencia contra las mujeres y las personas pobres–, asume una posición reactiva mientras los populistas de derecha aparecen como radicales dispuestos a rifar el sistema. Esto no es una desviación del capitalismo; es el núcleo del propio sistema exponiendo sus contradicciones cuando el maquillaje democrático-burgués ya no se sostiene en el antropoceno.

Siguiendo esta lógica, la campaña electoral de Lula en la primera vuelta fue terriblemente despolitizada, fantasiosa y arrogante. Las inflexiones hechas en el proceso fueron peligrosas y sintomáticas, como la propuesta del candidato de reducir la edad de responsabilidad penal de 18 a 16 años, en un guiño a los electores más conservadores.

El razonamiento detrás de esto es que, volviéndose cada vez más conservador y ofreciendo propuestas cada vez más parecidas a las de la derecha, ¿quién sabe si lograría captar algunos votos más? Bajo el discurso de frenar a la extrema derecha, las izquierdas empiezan a hacer lo que harían las derechas.

Segunda vuelta: Nuestra red social es la calle

Desde 2018 he analizado las elecciones concentrándome en lo que más me interesa: el aumento récord, en cada contienda, del número de personas habilitadas para votar pero que renuncian a participar en la vaciada performance democrática que se nos ofrece como un “cállate la boca” cada dos años (9).

En aquella ocasión –cuando la izquierda se desesperaba diciendo que la mitad de Brasil era fascista, que los pobres no saben votar y que quien no votó era responsable del desastre– escribí un pequeño texto intentando dialogar sobre el hecho de que no fue la mitad de Brasil la que eligió a Bolsonaro padre: de los 147 millones habilitados para votar, el 20,3% no acudió a las urnas, lo que suma casi 30 millones de personas que dejaron de participar en la fiesta de la democracia por no reconocerse en los invitados. Es mucha gente.

Ahora, en la primera vuelta de las elecciones, un nuevo récord: más de 33,4 millones de electores no acudieron a las urnas, el equivalente al 21,08% del electorado brasileño, el mayor porcentaje registrado desde 1998 (Tribunal Superior Electoral – TSE, 2026). Las cifras crecen de manera estable, pero la estabilidad de una hemorragia no cambia el hecho de que sea una hemorragia.

Y he aquí que en la segunda vuelta algunas cosas cambiaron.

Sectores de la juventud empezaron a convocar actos –inicialmente por fuera de las organizaciones directamente involucradas en la campaña– y una movilización callejera comenzó a cobrar fuerza. El discurso se dedicó menos a alimentar la falaz fantasía de una historia de gobiernos perfectos del PT (Partido de los Trabajadores) y más a dialogar sobre una alianza contra los Bolsonaro. Una alianza entre gente muy diversa, gente que no defiende las gestiones petistas, gente que recuerda la primera reforma de las pensiones, en 2004, y el papel de Brasil en la violencia brutal de la Minustah contra el pueblo de Haití, iniciada ese mismo año. Gente que recuerda que las luchas por la vivienda fueron convertidas en especulación inmobiliaria a través de políticas de endeudamiento como Minha Casa Minha Vida (10); gente que recuerda la ley que convirtió las protestas en terrorismo, aprobada por Dilma Rousseff días antes del impeachment, o que recuerda lo de hace poquito, cuando, a pesar de todos los informes contrarios que demostraban el riesgo para la naturaleza y para los pueblos del bosque, el gobierno federal aprobó la explotación de petróleo en la desembocadura del río Amazonas.

El voto nunca me pareció el espacio donde lo que pienso y siento encuentra lugar. Pero, aun así –militante desde los 12 años, nacida y criada en una favela del mismo ABC(11) de la huelga que vio a Lula ascender como líder político sindical–, fui a votar en la segunda vuelta. Voté contra Flávio Bolsonaro, voté creyendo que el sentimiento de victoria en las elecciones después de las movilizaciones callejeras dejaría margen para construir más movimiento, más movilización, para tomar cada vez más las calles, que son el único terreno donde podemos obtener alguna victoria consistente y el único lugar donde las luchas pueden salirse de control. Y es muy importante que las luchas se salgan de control, porque la revuelta controlada y en los términos del orden fácilmente se transforma en fascismo.

Tercera vuelta: quien no lucha está muerto

En la primera vuelta, la suma de abstenciones, votos en blanco y votos nulos fue de 39.444.291 (cerca de 39,4 millones); en la segunda vuelta fue de 34.662.806. La diferencia fue de 4.781.485, casi 5 millones de personas que, aunque ya no creen que el voto pueda mejorar nuestras vidas, se movieron en una alianza momentánea contra el avance de la ultraderecha. La diferencia de votos entre Lula y el playboy imbécil en la segunda vuelta de las elecciones presidenciales fue de 4.430.191 votos.

No hace falta dibujarlo para explicar lo que pasó.

Hay mucha, pero mucha gente que no hacía nada antes de las elecciones y que va a volver a no hacer nada después de ellas. Profesionales liberales, intelectuales ilustrados, trabajadores calificados que creen que hacer bien su trabajo es suficiente para un país mejor, gente que jura y perjura que ya da su mejor contribución en el aula, en el consultorio, en la redacción o en el grupo de investigación. ¿Protestar? ¿Militancia en los ratos libres? ¿Atravesar la ciudad para tener presencia constante en las periferias y territorios disputados por la derecha? Eso que lo hagan los albañiles, las trabajadoras de limpieza y los trabajadores de aplicaciones. Su trabajo no contribuye a la ilustración del país, así que es justo que tengan una jornada más.

No sé si debemos esperar mucho de estos, ni tampoco de aquellos que –tecnócratas, burócratas de izquierda o militantes profesionales– tienen en la política institucional su sustento; menos aún esperaría de quienes ahora estarán profesionalizados como militantes de derecha, sostenidos por las decenas de mandatos que el PL de Flávio Bolsonaro logró elegir, llegando en 2026 a una de las mayores bancadas del parlamento.

Del propio gobierno de Lula tampoco se puede esperar mucho; el guiño a la extrema derecha hecho desde la primera vuelta con el proyecto de reducción de la edad de responsabilidad penal, en un país que ya es el tercer mayor encarcelador del mundo, deja explícito que su perspectiva no será de mucho enfrentamiento. El hecho de que el PL, partido de los Bolsonaro, tenga una bancada tan grande, contradictoriamente, favoreció al gobierno de Lula, en la medida en que el centrão (12) –para no ser engullido por la extrema derecha– probablemente se aliará al gobierno para elegir la presidencia de la Cámara de Diputados y del Senado. Todo tiende a caminar cada vez más hacia la derecha para que, en las próximas elecciones, la fuerza electoral del próximo candidato ultraconservador sea una terrible sorpresa y todo se repita como ahora, con el miedo como principal argumento a favor de un gobierno que nació diciéndose de los trabajadores.

Entonces, ¿qué hacer durante estos cuatro años en que el gobierno va a seguir hacia la derecha?

Encontrarnos con esos casi 5 millones de personas, sí, esas que no fueron a votar en la primera vuelta, que están hartas de esta hipocresía electoral que distrae nuestras energías de lo que es urgente y debe ser nutrido; esos millones que quizás estén dedicando su tiempo a construir posibilidades a menor escala, casi invisibles, en la micropolítica que habita los territorios cotidianamente y no cada dos años. Tendremos que organizarnos, construir un campo alternativo que no se expresa en las elecciones pero que puede expresarse de otras maneras, que no contemporiza con la ultraderecha pero tampoco le pasa el trapo a gobiernos de izquierda que salen de la mano con patrones, banqueros, industriales y agroburgueses asesinos de indígenas.

Si para algo sirven los próximos años de gobierno de Lula –sabiendo que la derecha vendrá con aún más fuerza en las próximas elecciones y sabiendo que las izquierdas institucionales no tendrán candidatos en condiciones de movilizar lo que Lula llegó a movilizar– es para que nos organicemos, más allá del Estado, más allá de las elecciones, alineando nuestras luchas con otras que estallan por el mundo señalando los límites de este sistema y soñando con mucho más que “elegir al menos peor”: nosotros merecemos vivir mucho más que eso.

Referencias

(1) Agroboy: Término para los jóvenes ricos vinculados al agronegocio, asociados a la ostentación y a posturas de derecha.

(2) Milicia: En Brasil designa a grupos paramilitares, a menudo formados por policías y expolicías, que controlan territorios, sobre todo en Río de Janeiro.

(3) Video publicado por la candidata Ana Elisa en su rede social. Disponível em https://www.instagram.com/p/DeHuR8AOmX7/?utm_source=ig_embed&utm_campaign=embed_video_watch_ag ain acesso em 12/10/26 

(4) Fonte IBGE. Disponível em https://www.ibge.gov.br/explica/desemprego.php Acesso em 12/10/26 

(5) Fonte IBGE. Disponível em https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/48148-pnad-c ontinua-taxa-de-desocupacao-e-de-5-3-e-taxa-de-subutilizacao-e-de-13-1-no-trimestre-encerrado-em-agosto 

(6) Fonte: https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/08/06/endividamento-das-familias-bate-recorde-pelo-6o-mes-seguid o-e-chega-a-82percent-diz-cnc.ghtml Acessado em 12/10/2026 

(7) Bets: Así se conoce en Brasil a las plataformas de apuestas deportivas y juegos en línea. Se legalizaron y expandieron fuertemente en los últimos años.

(8) Informe del Instituto Cactus. Disponible en: https://institutocactus.org.br/ansiedade-climatica-dados-ineditos-mostram-impacto-das-mudancas-climaticas-na-s aude-mental-da-populacao-brasileira/ Acessado em 12/10/2026 

(9) ELEIÇÕES 2018: QUAL O FUTURO DESTE VELHO PRESENTE? Disponible en: https://www.revistaamazonas.com/2018/10/11/eleicoes-2018-qual-o-futuro-deste-velho-presente/ Acesso em 12/10/2026 

(10) Minha Casa Minha Vida: Programa federal de vivienda creado en 2009 durante el segundo gobierno de Lula. Financia la compra de vivienda con subsidios y crédito bancario.

(11) ABC: Región industrial del área metropolitana de São Paulo, cuna de las grandes huelgas metalúrgicas de fines de los años setenta, donde Lula surgió como líder sindical.

(12) Centrão: Bloque de partidos de centro y centroderecha del Congreso brasileño, sin ideología definida, que suele apoyar al gobierno de turno a cambio de cargos y recursos.

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