“Os indígenas têm o direito de serem atendidos no SUS. Nós, por sermos um povo diferente, um povo originário, não significa que não somos seres humanos”

Texto e foto: Ivana di Mauro

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O Acre existe.

Era isso o que dizia a primeira bandeira que avistei quando pisei naquela terra.

Paralisada de boca aberta, me lembrei das diversas vezes que ouvi e pronunciei tal piadinha de mau humor: “o Acre existe? rsrsrs”.

Bem, só fala isso que nunca viu e ouviu sobre o que guarda este território.

Eu não imaginava que ao chegar lá, me depararia com tamanha ignorância de minha parte e tanta riqueza dos povos da floresta. Desde Chico Mendes, até o movimento dos seringueiros, os Empates, a cultura e tradições indígenas, as medicinas de cura, as diversas histórias ocultadas do livro de História e, finalmente, a Revolução Acreana do século XIX.

Como poderia eu ser tão ignorante da história e cultura do meu próprio povo?

Mais uma vez me olhei no espelho e eles se estraçalharam na minha frente: o processo de descolonização mental não tem fim.

“O Acre existe” é uma afirmação não somente óbvia, mas política. Afirmar que o Acre existe significa romper com o etnocentrismo branco que coloca outras regiões, povos, culturas e etnias como motivo de chacota e inferiorização. “O Acre existe” é político, pois desafia o pre-conceito de que “não tem nada lá”, enquanto os centros urbanos são vangloriados pela sua sagrada economia, pelo capital, e pela sua suposta “civilização”. Será que é mesmo assim?

Na minha opinião, não. O preconceito e o pensamento ainda colonialista presente nesse tipo de chacota não apenas invisibiliza a história e a (re)existência de todo um povo – ou melhor, povos – mas também causa sérias consequências para aqueles que vivem na floresta. Acima de tudo, a prepotência etnocentrista nesse tipo de linguagem demonstra a incapacidade da sociedade ocidental branca em dialogar com a diversidade e abrir os horizontes, porque a verdade é que muito temos a aprender com os povos indígenas da Floresta.

No Estado brasileiro do Acre existem mais de 17 etnias indígenas. Tive a oportunidade de conhecer o povo Huni Kuî e Shanenawa. Fui muito bem recebida por onde passei, mas devo confessar que uma das aldeias me surpreendeu em especial. O nome dela é Aldeia Shane Kaya, a aldeia do verdadeiro pássaro azul, símbolo do povo Shanenawa. Composta por 21 famílias e 80 moradores, a aldeia é hoje liderada por mulheres. 

Nas linhas que seguem, transcrevo o que dizem a atual cacique da aldeia, Mukani Shanenawa, e sua irmã mais velha, Nawashahu, a primeira mulher cacique do povo Shanenawa.

IV: Você pode falar um pouco sobre a liderança feminina na Aldeia Shane Kaya?

NAWASHAHU: “Hoje, por eu ter sido a primeira Cacique mulher do povo Shanenawa, sou considerada uma Tuxawa feminina (a primeira, a raiz, a rainha), e dentro na nossa aldeia temos uma mulher que é presidenta da associação, outra que trabalha como assessora política, e também temos a nossa cacique. São quatro categorias de liderança feminina aqui dentro. [Além disso,] a coordenadora pedagógica também é mulher, ela toma conta da educação escolar indígena do povo Shanenawa, e também é minha irmã. Então nós praticamente estamos na liderança: as seis irmãs. Outra irmã minha é conselheira de saúde indígena local. E eu fico feliz, porque a gente tem desenvolvido bastante atividades e temos tido sucesso nos trabalhos. Mas aqui nós trabalhamos em parceria com os homens. Muitas pessoas dizem que a Shane Kaya é a aldeia das mulheres, mas não é só porque vivem muitas mulheres aqui, mas por conta de estarmos na parte representativa e os homens dando o apoio. Aqui trabalha homem e mulher. Tivemos três mulheres cacique, mas também três homens cacique”. 

MUKANI: “A aldeia aqui é liderada por mulheres, sempre com as mulheres na linha de frente. O empoderamento feminino da mulher indígena na Aldeia Shane Kaya está evoluindo a cada dia que passa, não dizendo que os homens aqui não trabalham, mas trabalham em parceria, para fortalecer as mulheres. Os homens aqui entraram em conscientização de que nós mulheres não servimos apenas para fazer trabalho doméstico, mas servimos também para usar o poder que nós temos de guerreiras, de pessoas vencedoras que vencem as batalhas que estão no nosso caminho. Somos mulheres firmes e fortes”. 

Irmã mais nova de seis mulheres – todas em cargo de liderança – Mukani assume há três anos o cacicado da aldeia Shane Kaya, junto ao seu sobrinho, Yawakumã, o vice-cacique. 

IV: Como é ser cacique na aqui na Shane Kaya?

MUKANI: “O cargo de cacique, digamos, é como se eu fosse a mãe de todos aqueles que moram aqui dentro, e o Yawakumã, o pai. Então é de grande importância a participação de todos da comunidade em tudo aquilo que fazemos aqui dentro, por mais que eu tenha a autonomia para tomar uma decisão sozinha, se eu quisesse. Mas o meu modelo de trabalho não é esse, mas de trabalhar em coletivo, para que todos da comunidade fiquem cientes daquilo que está acontecendo”.

IV: Como funciona a educação aqui na Aldeia Shane Kaya? 

MUKANI: “Sobre a questão da educação, ainda falta muito para melhorar. Não tem espaço suficiente para os alunos sentarem, não tem carteira suficiente, não tem um espaço de biblioteca, então ainda precisamos de uma escola mais equipada. Eu sou muito grata pela escola que temos, mas aqui o Estado construiu uma escola só com duas salas e um refeitório pequeno que nem cabe todo mundo. Agora, nós trabalhamos meio a meio. Cinquenta por cento é sobre a nossa cultura: sobre as histórias do povo Shanenawa (contadas para xs jovens pelo Pajé Shuayne, o tuxawa masculino do povo Shanenawa e pai de Mukani e Nawashahu), sobre nosso idioma, nossas pinturas corporais, nossos Kenes, nosso trabalho com miçangas, e o cuidado do plantio. Os outros cinquenta por cento é sobre a cultura não indígena, que está relacionada à leitura e à escrita, pra gente conhecer também quais são as leis que amparam os direitos dos povos indígenas”.

“Então hoje é impossível ficar sem estudar, sejam pessoas indígenas, não-indígenas, negros, afrodescendentes, a população de modo geral, todos os seres humanos precisam de uma boa escola para estarem interagido dentro das leis, por mais que muita das vezes elas não funcionem de forma correta, nós precisamos ter esse autoconhecimento. Precisamos de uma boa educação, a gente necessita de uma escola com mais qualidade, com material didático, e com mais espaço. Tudo isso a comunidade indígena da Aldeia Shane Kaya necessita”.

IV: Como foi participar da 1ª Marcha das Mulheres Indígenas? Qual foi a principal reivindicação naquele momento? 

MUKANI: “Minha irmã, conhecida como Edna Shanenawa, é assessora política da nossa aldeia e ela já conhece mais do movimento político não indígena, então ela busca recursos e parcerias pra aumentar a qualidade do nosso trabalho. Ano passado, fomos para a 1ª Marcha das Mulheres Indígenas em Brasília, o que foi de grande importância, porque foi a primeira vez que eu saí do Acre e foi uma grande experiência que eu adquiri lá. Tinha bastantes policiais por onde a gente ia passando, fomos impedidas de entrar na SESAI (Secretaria Especial de Saúde Indígena), mas as mulheres eram resistentes então os policiais que estavam lá não aguentaram a pressão porque nós fomos pra cima mesmo. Porque o que nós queremos pra saúde indígena é o melhoramento”.

“Nós fomos pra marcha ver se a gente conseguia também algo que venha beneficiar a nossa aldeia na questão da saúde, porque [aqui] há poucos medicamentos. Por mais que as pessoas não indígenas, por exemplo, aqui de Feijó, digam que não precisamos ir pra cidade em busca de um atendimento, porque temos 1 médico pra atender os 5 povos indígenas da região… Você acha que tem condições? Não tem, são poucos médicos. O agente de saúde veio pela última vez em outubro. A doença vai aguardar esse período? Não vai. E aí quando vamos buscar algum atendimento no hospital ou nos postos de saúde, é colocado dessa forma, que já há 1 médico à nossa disposição. Só que há uma falha das pessoas que representam a saúde: o indígena tem o direito de ser atendido no SUS também, porque nós somos contados no censo. Há uma falha enorme do sistema com a responsabilidade sobre a saúde indígena”. 

“Nós, por sermos um povo diferente, um povo originário, não significa que nós não somos seres humanos”.

IV: Por que você acha que existe o preconceito? 

MUKANI: “Olha, eu vou ser sempre indígena, vou ter sempre esse cabelo aqui ó, lisinho, aonde eu for. Nada nem ninguém vai mudar a minha característica. Agora, o que tem de ter é o RESPEITO. Eu respeitar a cultura de vocês e os brancos respeitarem a minha cultura como indígena. Só que às vezes eu me pergunto, o que adianta falar que nos respeitam, se quando eu usar alguma roupa ou objeto, vão me criticar? Falam a palavra respeito, mas não estão nos respeitando”. 

“O preconceito surge contra o povo indígena, primeiro pela nossa cultura ser diferente; segundo, porque se eu calço minha sandália e você calça um sapato de marca, ali já rola o preconceito. Se eu como minha comida tradicional e alguém come uma comida diferente, ali também já rola um preconceito. Em tudo que está envolvido o povo indígena, rola o preconceito. Mas aquele que vê que o indígena é ser humano como a si próprio, ele não está perdendo, ele só está ganhando. Eu vejo que no mundo, as pessoas do mundo inteiro precisam olhar pro seu próximo, de coração”.

IV: Quem são as mulheres que mais te inspiram hoje em dia?

MUKANI: “Na Marcha das Mulheres Indígenas eu conheci muitas mulheres que me inspiraram, mas eu me tornei fã da Soninha Guajajara, fora minha irmã, a Pekashaya (conhecida como Edna Shanenawa). Se hoje eu estou no cargo de cacique, é através dela, porque eu vejo a Peka como uma mulher com muita potencialidade, que não tem medo de enfrentar as dificuldades que surgem no caminho dela. Pra ela não existe dificuldade, pra ela só existe vitória. Então ela é a número 1 na minha vida em questão de trabalho e de tudo. Minha irmã e a Sonia Guajajara: eu espero que eu dia eu chegue à altura que elas estão”. 

“Por outro lado, eu ainda vejo muita fragilidade de algumas mulheres, minhas outras parentes, que têm a vontade de estar no movimento, mas o machismo é ainda muito forte. Então precisamos dizer: ‘Eu sou mulher, eu sou capaz de fazer aquilo que eu penso, capaz de fazer a mudança na minha casa, na minha aldeia, no meu povo, e construir aquilo que eu sonho em construir. Não deixe que o sonho fique só na mente, faça com que o sonho se torne realidade, porque só assim mudamos a visão de outros parentes que pensam que nós mulheres somos incapazes de fazer. Então quando receber um ‘não’ receba como um ‘sim’. Persista, porque todas nós somos mulheres, muito vencedoras e muito guerreiras’”.

“Eu tenho sempre comigo que nós mulheres quando iniciamos essa caminhada no movimento político, recebemos sempre um “não”, as portas sempre se fecham. Mas o recado que eu quero deixar pras pessoas é que receba esse “não” como um “sim”, seja sempre persistente porque se você recua no primeiro “não”, como você vai mostrar que você é uma mulher empoderada? Que você é capaz de fazer tudo aquilo que você sabe? Não guarde aquilo que você tem só pra sí, mostre que você é capaz de fazer tudo aquilo que você pensa de fazer, pro seu melhor, pro melhor da sua família, pra um futuro melhor daqueles que nos rodeiam, por mais que eles nos vejam como incapazes”.

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Diante de um contexto marcado por estruturas racistas, machistas, e que colocam o lucro acima da vida, é urgente repensar o que se entende por “civilização”. Que civilidade é essa que silencia vozes de mulheres insurgentes? Que assiste os números de violência contra as mulheres aumentarem? Que limita a participação das mulheres em cargos de liderança? A prepotência etnocentrista dos que fazem do Acre uma piada é o que, ao final, se transforma no verdadeiro motivo de chacota – ou melhor, motivo de vergonha.

Ao invés de inferiorizar os povos indígenas, ou mesmo romantizá-los, chegou a hora de aprendermos com o que as diferentes aldeias têm a nos ensinar. A organização social da Shane Kaya coloca em prática aquilo que nós feministas buscamos: uma sociedade que abra os espaços de liderança para que as diversas mulheres possam expressar seu potencial, sua força, sua sabedoria, e quem sabe transformar a sociedade apocalíptica que vivemos. Uma organização social que finalmente valorize de fato a vida, a interdependência, o cuidado, a coletividade, o respeito, e o empoderamento das mulheres.

Mukani também denuncia as diversas violências estruturais que enfrentam. Esse tal etnocentrismo que inferioriza o território acreano é o mesmo que sustenta o descaso do sistema com os povos indígenas da região. Não é fácil sobreviver em um país que te diz “não”, por ser mulher, por ser indígena. A aldeia sofre uma série de violências sistêmicas, como o escasso atendimento à saúde indígena, sua escola precária, e a falta de água potável no verão.

Onde está, nessas horas, o supostamente “civilizado” Estado democrático de direito para garantir o direito de todxs xs seres humanos à saúde e à água, especialmente em tempos de pandemia?

As mulheres não baixam a cabeça.

Em meio ao caos de uma estrutura racista, o Acre (re)existe.

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Entrevista realizada em janeiro/2020.

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 Entrevista a Mukani Shanenawa, cacique da Aldeia Shane Kaya

“Los pueblos indígenas tienen derecho a ser atendidos por el SUS[1]. Nosotros, por ser un pueblo diferente, un pueblo  originario, no significa que no seamos seres humanos «

Texto y foto: Ivana di Mauro

Traducción: Gabriela Rojas y Maria Jose Gordillo

‘El Acre existe’.

Proclamaba la primera bandera que avisté cuando pise aquella tierra.

Paralizada y boquiabierta, recordé las muchas veces que escuché e hice una broma de mal gusto: “¿Existe El Acre?, risas «.

Bien, esto simplemente habla de que nunca vi o escuché sobre aquello que este territorio custodia.

No imaginaba que al llegar allá, me enfrentaría con tanta ignorancia de mi parte y tanta riqueza de los pueblos del bosque. Desde Chico Mendes, hasta el movimiento de los recolectores de caucho, los Empates[2], la cultura y las tradiciones indígenas, las medicinas curativas, las diversas historias omitidas en los libros de Historia y, finalmente, la Revolución Acre del siglo XIX.

¿Cómo podía ser tan ignorante de la historia y la cultura de mi propia gente?

Una vez más me miré en el espejo y este se hizo pedazos frente a mí: el proceso de descolonización mental no tiene fin.

“El Acre existe” no es solamente una afirmación obvia, sino política. Afirmar que el Acre existe significa romper con el etnocentrismo blanco que coloca a otras regiones, pueblos, culturas y etnias como motivo de burla e inferioridad. «El Acre existe» es político, ya que desafía el preconcepto de que «no hay nada allí», mientras que los centros urbanos se jactan de su economía sagrada, del capital y de su supuesta «civilización». ¿Sera que es  así realmente?

En mi opinión, no. El prejuicio y el pensamiento todavía colonialista presente en este tipo de burlas no solo hace que la historia y la (re)existencia de todo un pueblo —más bien, pueblos– sea invisible, sino que también causan graves consecuencias para quienes viven en el bosque. Sobre todo, la arrogancia etnocéntrica en este tipo de lenguaje demuestra la incapacidad de la sociedad occidental blanca para dialogar con la diversidad y abrir sus horizontes, porque la verdad es que tenemos mucho que aprender de los pueblos indígenas del bosque.

En el estado brasileño de Acre, hay más de 17 etnias indígenas. Tuve la oportunidad de conocer a la gente de Huni Kuî y Shanenawa. Fuí muy bien recibida por donde pasé, sin embargo, debo confesar que me sorprendió uno de los pueblos en particular. Su nombre es la Aldea Shane Kaya, o la aldea del verdadero pájaro azul, símbolo del pueblo Shanenawa. Compuesto por 21 familias y 80 residentes, el pueblo ahora está liderado por mujeres.

En las siguientes líneas, transcribo mis conversaciones con la actual cacique de la aldea, Mukani Shanenawa, y su hermana mayor, Nawashahu, la primera mujer cacique del pueblo Shanenawa.

IV: ¿Puede hablar un poco sobre el liderazgo femenino en la Aldea Shane Kaya?

NAWASHAHU: “Hoy, como fui la primera mujer Cacique del pueblo Shanenawa, se me considera una mujer Tuxawa (la primera, la raíz, la reina), y dentro de nuestra aldea tenemos una mujer que es presidenta de la asociación, otra que trabaja como asesora política, y también tenemos a nuestra cacique. Aquí tenemos cuatro categorías de liderazgo femenino. [Además], La coordinadora pedagógica también es una mujer, se ocupa de la educación escolar indígena del pueblo Shanenawa y también es mi hermana. Así que estamos prácticamente a la cabeza: las seis hermanas. Otra hermana mía es una asesora local de salud indígena. Y estoy feliz, porque hemos desarrollado muchas actividades y hemos tenido éxito en el trabajo. Sin embargo, aquí trabajamos en asociación con los hombres. Mucha gente dice que Shane Kaya es el pueblo de las mujeres, pero no es solo porque muchas mujeres viven aquí, sino por cuenta de que estamos en la parte representativa y los hombres están dándonos apoyo. Aquí trabajan el hombre y la mujer. Tuvimos tres Caciques mujeres, y tres Caciques hombres”.

MUKANI: “La aldea aquí está liderada por mujeres, siempre las mujeres en la primera línea. El empoderamiento femenino de las mujeres indígenas en la aldea de Shane Kaya está evolucionando cada día que pasa, sin decir que los hombres aquí no trabajan, sino que trabajan en asociación, para fortalecer a las mujeres. Los hombres aquí se dieron cuenta de que las mujeres no solo estamos acostumbradas a hacer las tareas domésticas, sino también a usar el poder que tenemos de guerreras, de ser personas que ganan las batallas que se interponen en nuestro camino. Somos mujeres firmes y fuertes”.

La hermana menor de seis mujeres (todas en posiciones de liderazgo), Mukani, se ha hecho cargo del Cacicado de la aldea Shane Kaya durante tres años, junto con su sobrino, Yawakumã, el subdirector.

IV: ¿Cómo es ser Cacique aquí en Shane Kaya?

MUKANI:  “El puesto de cacique, digamos, es como si yo fuera la madre de todxs lxs que viven aquí, y Yawakumã, el padre. Por lo tanto, es de gran importancia la participación de todxs en la comunidad, por más que yo tenga la autonomía para tomar una decisión por mi cuenta, si quisiera. Pero ese no es mi modelo de trabajo, sino trabajar colectivamente, para que todxs en la comunidad estén al tanto de lo que está sucediendo”.

IV: ¿Cómo funciona la educación aquí en la Aldea Shane Kaya?

MUKANI: “Sobre el tema de la educación, todavía hay mucho por mejorar. No hay suficiente espacio para que lxs estudiantes se sienten, no hay fondos suficientes, no hay espacio en la biblioteca, por lo que aún necesitamos una escuela mejor equipada. Estoy muy agradecida por la escuela que tenemos, pero aquí el Estado ha construido una escuela con solo dos salones y una pequeña cafetería que no se adapta a todxs. Ahora, trabajamos mitad y mitad. El cincuenta por ciento es sobre nuestra cultura: sobre las historias del pueblo Shanenawa (contadas a lxs jóvenes por Pajé Shuayne, el tuxawa masculino del pueblo Shanenawa y padre de Mukani y Nawashahu), sobre nuestro idioma, nuestras pinturas corporales, nuestros Kenes, nuestros trabajo con cuentas y el cuidado de la plantación. El otro cincuenta por ciento se refiere a la cultura no indígena, que está relacionada con la lectura y la escritura, para que también podamos aprender sobre las leyes que apoyan los derechos de los pueblos indígenas”.

«Entonces, hoy es imposible quedarse sin estudiar, ya sean indígenas, no indígenas, negros, afrodescendientes, la población en general, todos los seres humanos necesitan una buena escuela para interactuar dentro de la ley, por más que muchas veces esta no funciona correctamente, necesitamos tener ese autoconocimiento. Necesitamos una buena educación, necesitamos una escuela con más calidad, con material didáctico y con más espacio. La comunidad indígena Shane Kaya necesita todo esto”.

IV: ¿Cómo fue participar en la 1ª Marcha de las Mujeres Indígenas? ¿Cuál fue la reivindicación principal en ese momento?

MUKANI: “Mi hermana, conocida como Edna Shanenawa, es asesora política en nuestro pueblo, y ella ya sabe más sobre el movimiento político no indígena, entonces ella busca recursos y asociaciones para aumentar la calidad de nuestro trabajo. El año pasado, fuimos a la Primera Marcha de las Mujeres Indígenas en Brasilia, lo cual fue de gran importancia, porque era la primera vez que salía de Acre y fue una gran experiencia la que adquirí allí. Habían bastantes policías por donde pasábamos, no pudimos ingresar al SESAI (Secretaría Especial para la Salud Indígena), pero las mujeres eran resistentes, entonces los policías que estaban allí no pudieron soportar la presión porque nosotras fuimos por ello. Porque lo que queremos es el mejoramiento de la salud indígena”.

“Nosotras fuimos a la marcha para ver si también podríamos obtener algo que beneficie a nuestra aldea en términos de salud, porque [aquí] hay pocos medicamentos. Por más que las personas no indígenas, por ejemplo, aquí en Feijó, digan que no necesitamos ir a la ciudad en busca de atención, porque tenemos 1 médico que atiende a los 5 pueblos indígenas de la región … ¿Crees que tienen condiciones? No tienen, hay pocos médicos. El trabajador de salud vino por última vez en octubre. ¿La enfermedad esperará ese período? No. Es ahí, que cuando vamos a buscar atención en el hospital o en los centros de salud, se presenta de esa forma, diciendo que ya hay un médico a nuestra disposición. Pero hay una falla en las personas que representan la salud: la persona indígena también tiene derecho a ser atendida en el SUS, porque estamos en el censo. Hay un gran defecto en el sistema responsable de la salud indígena”.

“Nosotrxs, por ser un pueblo diferentes, un pueblo  orginario, no significa que no seamos seres humanos».

IV: ¿Por qué cree que existen los prejuicios?

MUKANI: “Mirá, siempre seré indígena, siempre tendré este cabello aquí, mirá liso, donde sea que vaya. Nada ni nadie cambiará mi carácter. Ahora, lo que tienes que tener es RESPETO. Respeto tu cultura y los blancos respetan mi cultura como indígena. Pero a veces me pregunto, ¿cuál es el punto de decir que nos respetan, si cuando uso ropa u objetos, me criticarán? Dicen la palabra respeto, mas no nos están respetando ”.

“Los prejuicios surgen contra los pueblos indígenas, primero porque nuestra cultura es diferente; segundo, porque si me pongo las sandalias y tú usas un zapato de marca, el prejuicio rueda por allí. Si como mi comida tradicional y alguien come una comida diferente, también hay prejuicios allí. En todo lo que involucra a los pueblos indígenas, hay prejuicios. Mas aquella que ve que a la indígena como a un ser humano como ella misma, no está perdiendo, solo está ganando. Yo veo que en el mundo, las personas del mundo entero necesitan mirar a su prójimo, desde el corazón”.

IV: ¿Quiénes son las mujeres que más te inspiran hoy en día?

MUKANI: “En la Marcha de las mujeres indígenas conocí a muchas mujeres que me inspiraron, pero me hice fan de Soninha Guajajara, aparte de mi hermana, Pekashaya (conocida como Edna Shanenawa). Si hoy estoy en la posición de cacique, es a través de ella, porque veo a Peka como una mujer con un gran potencial, que no teme enfrentar las dificultades que surgen en su camino. Para ella no existe dificultad,  para ella solo existe victoria. Entonces ella es la número 1 en mi vida en términos de trabajo y todo. Mi hermana y Sonia Guajajara: espero que algún día llegue a la altura a la que ellas están”.

“Por otro lado, todavía veo mucha debilidad en algunas mujeres, mis otras parientes, que tienen el deseo de estar en el movimiento, pero el machismo sigue siendo muy fuerte. Entonces, tenemos que decir: ‘Soy una mujer, puedo hacer lo que pienso, puedo hacer el cambio en mi casa, en mi pueblo, en mi gente y construir lo que sueño construir. No dejes que el sueño se quede en tu mente, hazlo realidad, porque esa es la única forma en que cambiamos la opinión de otros familiares que piensan que las mujeres no podemos hacerlo. Entonces, cuando recibas un «no», recíbelo como un «sí». Persiste, porque somos todas mujeres, muy ganadoras y muy guerreras».

“Siempre tengo conmigo que las mujeres, cuando comenzamos este viaje en el movimiento político, siempre recibimos un «no», las puertas siempre se cierran. Pero el mensaje que quiero dejar para la gente es que recibas este «no» como un «sí», siempre sé persistente porque si te retractas con el primer «no», ¿cómo vas a demostrar que eres una mujer empoderada? ¿Que eres capaz de hacer todo lo que sabes? No guardes aquello que tienes solo para ti, demuestre que puede hacer todo lo que piensas hacer, por tu bienestar, por el bienestar de tu familia, por un futuro mejor para quienes nos rodean, por más de que nos vean como incapaces «.

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Ante un contexto marcado por estructuras racistas y sexistas, que ponen el beneficio por encima de la vida, es urgente repensar lo que se entiende por «civilización». ¿Qué civilización es esta que silencia las voces de las mujeres insurgentes? ¿Que mira cómo van aumentando los números de violencia contra las mujeres? ¿Qué limita la participación de mujeres en puestos de liderazgo? La arrogancia etnocéntrica de quienes hacen del Acre una burla es lo que, al final, se convierte en la verdadera razón de la burla, o más bien, la razón de la vergüenza.

En lugar de inferiorizar a los pueblos indígenas, o incluso romantizarlos, es hora de aprender de lo que los diferentes pueblos tienen que enseñarnos. La organización social de Shane Kaya pone en práctica lo que buscamos las feministas: una sociedad que abre espacios para el liderazgo para que diferentes mujeres puedan expresar su potencial, su fuerza, su sabiduría —y quién sabe— cómo transformar la sociedad apocalíptica en la que vivimos. Una organización social que finalmente valora la vida, la interdependencia, la atención, la colectividad, el respeto y el empoderamiento de las mujeres.

Mukani también denuncia la violencia estructural que enfrentan. Este etnocentrismo que hace que el territorio del Acre sea inferior es el mismo que sostiene el abandono del sistema para con los pueblos indígenas de la región. No es fácil sobrevivir en un país que dice «no», porque eres mujer, porque eres indígena. El pueblo sufre una serie de violencia sistémica, como el escaso servicio a la salud indígena, su escuela precaria y la falta de agua potable en el verano.

¿Dónde está en estos momentos el supuestamente «civilizado» Estado democrático de derecho, para garantizar el derecho de todos los seres humanos a la salud y al agua, especialmente en tiempos de pandemia?

Las mujeres no bajan la cabeza.

En medio del caos de una estructura racista, Acre (re)existe.

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entrevista realizada en Enero/2020.


[1] Sistema Único de Salud por sus siglas en portugués.

[2] Los Empates son manifestaciones de activismo político intermedio para la preservación de la selva amazónica por los recolectores de caucho.


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