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As flores de arnica já estão amassadas e prontas para se misturar com a cera de abelha e o óleo. Essa receita era usada pelas avós para golpes no corpo, aqueles causados ​​pelo excesso de trabalho, ou para colocá-lo nos joelhos após caminhar quilômetros para visitar alguém que estava doente e levar remédios. Curar, cuidar e alimentar são apenas algumas das atividades que muitas mulheres realizam há séculos para preservar a vida em suas comunidades. A medicina e a magia eram combinadas como rituais de vida e cura praticados principalmente por mulheres; porém, hoje nossa atenção não está na cura, mas na saúde de quem a pratica. A responsabilidade de preservar a vida de comunidades inteiras nem sempre foi uma opção, pois em muitos casos o patriarcado naturalizou essas atividades, fazendo com que as mulheres se responsabilizassem por dedicar toda a sua vida ao serviço dos “outros”.

A pressão no peito, a falta de ar e a angústia de buscar, levar e preparar os alimentos, e de assumir os cuidados emergenciais de saúde, são apenas alguns dos sintomas que se instalam no dia a dia de milhares de mulheres no mundo durante a pandemia de COVID-19. São sintomas principalmente vivenciados por mulheres racializadas, pobres e periféricas de diferentes territórios do planeta. Em uma crise sistêmica, com uma humanidade abalada pela doença, fome, opressão e injustiça de uns, em detrimento do bem-estar e da abundância de outros, milhares de mulheres são seriamente impactadas pela responsabilidade de cuidar dos seus com o trabalho remunerado, algumas cuidando dos grandes senhores e suas famílias, e do trabalho não pago e invisibilizado que se realiza em casa, na comunidade, na militância ou na rua.  

Imagem: Amanda Martínez E.

O postergamento de si, e às vezes a anulação da própria vida, têm sido grandes motores de estresse e depressão que se agravam neste período, mas não se iniciam nele. A normalização dos maus-tratos a mulheres negras, indígenas e não brancas, trazido durante a invasão colonial nas Américas, tem se encarregado de tentar aniquilar a vida dessas mulheres. Carrego uma história na minha memória de uma mulher que conheci no caminho. Ela conta como a “patroa” sempre falava sobre quão feia ela parecia. Ela falava sobre o cheiro desta mulher, cheiro de trabalho, e sobre sua aparência suja as custas da limpeza da casa da “sinhá”. Hoje é muito difícil para ela se ver no espelho. Trabalhou desde pequena, porque não tinha dinheiro para comprar produtos básicos. O amor por si mesma hoje tem uma grande cicatriz e a experiência se repete no período da pandemia, porque hoje ela escolhe entre comprar comida para seus filhos ou comprar um sabão.

Essa experiência me remete ao “famoso” ditado, e também título da obra de Ana Cláudia Lemos Pacheco: branca para casar, mulata para fuder e negra para trabalhar: escolhas afetivas e significados de solidão entre as mulheres negras de Salvador, Bahia. A solidão como motor gerador de depressão ocorre na violência e no ataque feroz à autoestima de mulheres periféricas não-brancas, que é agravado neste período de pandemia. Em seu trabalho com mulheres negras, ativistas e não ativistas em Salvador, Lemos constatou que traços fenotípicos, estéticos e capilares como elaborações de corporalidades mostram a discriminação racial vivenciada pelos corpos femininos negros em seu percurso social e afetivo. Na afetividade há também uma preferência racial que desperta esse afeto, colonial e violentamente imposto, que direciona essa construção do amor a corpos específicos, «dignos» de afeto e do apoio negado a outros grupos de mulheres que se (re)constroem e resistem através de redes afetivas e coletivos de mulheres que prezam o cuidado de umas pelas outras.

A pesquisa de Livia Alessandra Fialhos, a construção social das emoções: A vivência da tristeza entre mulheres de camadas populares, também nos mostra os impactos de como esses fatores afetivos têm causado distúrbios psicossociais nas mulheres, como isolamento, depressão e tristeza. O amor romântico e a visão da fragilidade não se aplicam às mulheres negras, indígenas, pobres e periféricas. Essas violências afetivas naturalizadas desempenham um papel fundamental no aumento da depressão e da tristeza que esse período pandêmico acarreta. Por outro lado, a ruptura com os modelos afetivos patriarcais tem unido muitas mulheres para lutar e se proteger em conjunto.

Violência contra as mulheres, a outra pandemia

Ao mesmo tempo em que milhares de pessoas no mundo morrem por causa da COVID-19, a violência de gênero aumenta durante esse período de “isolamento social”. A ONU deu a ela o nome de “pandemia das sombra”, onde mulheres foram assassinadas, espancadas e abusadas sexualmente em vários lugares do planeta.

De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, nos meses de janeiro e julho 648 mulheres foram assassinadas no Brasil [1]. Aqueles que sofreram violência doméstica tiveram dificuldade em relatar a agressão durante a quarentena. Na Libéria, houve um aumento de 50% nos casos de violência de gênero. No Quénia, segundo a imprensa local, cerca de 4 mil estudantes engravidaram devido ao encerramento de escolas, sendo estas gravidezes produto de abusos sexuais por parte da polícia e / ou familiares [2]. Na Inglaterra, quase três vezes mais mulheres foram mortas por homens durante o período de lockdown em março [3]. Na Nicarágua, um país de 6 milhões de habitantes e com um governo que oficialmente nunca declarou a quarentena diante da pandemia, registrou oficialmente 35 feminicídios de janeiro até junho de 2020, sendo maio o mês mais violento[4].

O feminicídio e a violência sexual têm se constituído como fatores de risco que deixam consequências físicas e psicossociais em suas vítimas. A pandemia foi responsável pelo confinamento físico dos agressores e suas vítimas, deixando mulheres violentadas que manifestam medos, distúrbios do sono, pesadelos, isolamento social, uso de drogas e, em alguns casos, tendências suicidas. A angústia se vive em conjunto, a partir de grupos de mulheres ativistas e organizadas que protegem essas vidas e denunciam a violência, bem como a angústia que a própria vítima vivência.

Um ar de esperança se respira transmitido por mulheres defensoras que se recusam a assumir o papel de super mulheres ao serviço de todos. Surge um apelo a parar, este apelo pode vir do corpo, que se recusa a continuar trabalhando, como o que vem de uma voz amiga que chama a reconhecer o estado de vulnerabilidade e tristeza em que se chora para se fortalecer e continuar andando. A aposta não é mais andar sozinha, mas sim tecer redes de lutas em conjunto, sendo uma luta com todas e para todas, sendo solidárias sem nos esquecermos de nós mesmas. Uma luta pela vida que caminha com o cuidado de si, destruindo as bases patriarcais e coloniais que maltratam nossos corpos e nossas mentes.


[1] MACHADO, Leonardo. Menos roubos e mais feminicídios: como a pandemia influenciou a violência no Brasil. BBC News Brasil. Disponível em: <https://www.terra.com.br/noticias/menos-roubos-e-mais-feminicidios-como-a-pandemia-influenciou-a-violencia-no brasil,e79d7caa1fb0ef16a20ff8221a8ce415t768al51.html>

[2] Violência contra mulheres: a outra pandemia. Terra notícias. Disponível em: <https://www.terra.com.br/noticias/violencia-contra-mulheres-a-outra-pandemia,c89329a006eae1c26ee00ed9a4f0cb30b8ol1t6f.html>

[3] OTT, Haley. 3 times more women killed by men than average during U.K. coronavirus lockdown, data show. CBS News. Disponível em: <https://www.cbsnews.com/news/domestic-violence-uk-coronavirus-lockdown-3-times-higher-than-average-data-shows/>

[4] Dados da Organização Católica pelo Direito a Decidir (CDD), ONG que contabiliza os dados de feminicídio e violência machista na Nicarágua ha mais de 10 anos.

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Imagen: Amanda Martínez E.

Salud mental, Mujer y Periferia: algunas reflexiones durante la pandemia de covid-19

Por Amanda Martínez E.

Las flores de árnica ya están machucadas y listas para mezclarlas con la cera de abeja y el aceite. Esta receta la usaban las abuelas para los golpes en el cuerpo, aquellos producidos por el exceso de trabajo, o para colocarla en las rodillas después de caminar por kilómetros para visitar a algún enfermo y llevarle medicina. La cura, el cuidado y la alimentación son apenas algunas actividades que muchas mujeres han realizado por siglos para preservar la vida en sus comunidades. La medicina y la magia se conjugaron como rituales de vida y sanación practicado principalmente por mujeres; sin embargo, hoy nuestra atención no está en la cura sino en la salud de quien la practica. La responsabilidad de preservar la vida de comunidades enteras no siempre ha sido una opción, pues en muchos casos el patriarcado naturalizó estas actividades, responsabilizando a las mujeres a dedicar sus vidas enteras al servicio de “los otros”.

La presión en el pecho, la falta de aire y la angustia de conseguir, llevar y preparar alimentos, y asumir los cuidados de emergencia en la salud, han sido apenas unos síntomas que se han instaurado en la cotidianidad de miles de mujeres en el mundo durante la pandemia del COVID-19, principalmente en las mujeres racializadas, pobres y periféricas de distintos territorios del planeta. En una crisis sistémica, con una humanidad sacudida por la enfermedad, el hambre, la opresión e injusticia de unos, en función del bienestar y la abundancia de otros, existen miles de mujeres seriamente impactadas por la responsabilidad de proteger a los suyos con trabajo remunerado, mientras cuidan a los grandes señores y sus familias, y el trabajo no remunerado e invisibilizado por siglos.

Imagen: Amanda Martínez E.

La postergación de sí mismas, y a veces la anulación de la propia vida han sido grandes motores de estrés y depresión que se agudizan en este periodo, pero no inician en el, pues la normalización del maltrato a mujeres negras, indígenas y no blancas,  y el proyecto colonial en las Américas se han encargado de intentar aniquilar la vida de estas mujeres. Llevo un relato en la memoria de una mujer que encontré en el camino. Ella cuenta como su patrona  siempre habló de cuán fea ella se veía. Hablaba de su olor, olor de trabajo, y de su aspecto sucio a costas de la limpieza de su casa. Hoy en día a ella le cuesta mucho trabajo verse en el espejo. Trabajó desde joven, pues no tenía dinero para comprar productos básicos. El amor por si misma hoy tiene una gran cicatriz y la vivencia se repite en el periodo de la pandemia, pues hoy se escoge entre comprar comida para sus hijos o comprar un jabón.

Esta experiencia me lleva al famoso dictado, y también título del trabajo de Ana Claudia Lemos Pacheco: “blanca para casarse, mulata para coger y negra para trabajar: opciones afectivas y significados de la soledad entre mujeres negras en Salvador, Bahia”. La soledad como motor que genera depresión se produce en la violencia y el ataque feroz a la autoestima de mujeres periféricas, que se agudiza todavía más en este periodo de pandemia. En su trabajo con mujeres negras, activistas y no activistas en Salvador, Lemos encontró que los trazos fenotípicos, la estética y el cabello como elaboraciones de corporalidades se desdoblaba en la discriminación racial vivida por los cuerpos femeninos negros en su camino social y afectivo. En la afectividad también existe una preferencia racial que despierta este afecto, colonial y violentamente impuesto, que direcciona esta construcción del amor a cuerpos específicos, “dignos” del cariño y el apoyo negado a otros grupos de mujeres que (re)construyen estos afectos en colectivos y redes de cuidados donde velan unas por las otras.

La investigación de Livia Alessandra Fialhos,  La construcción social de las emociones: La experiencia de la tristeza entre mujeres de clases populares, también nos muestras impactos de cómo estos factores de orden afectiva han provocado disturbios psicosociales en mujeres como el aislamiento, la depresión y la tristeza. El amor romántico y la visión de fragilidad no se aplica para mujeres negras, indígenas, pobres y periféricas. Estas violencias afectivas naturalizadas juegan un papel fundamental en el incremento de la depresión y la tristeza que trae consigo este periodo pandémico. Por otro lado, la ruptura con modelos afectivos patriarcales ha unido a muchas mujeres a luchar y protegerse a sí mismas.

La violencia contra las mujeres, una segunda pandemia

De la misma manera en que mueren miles de personas en el mundo por COVID-19, la violencia de género aumenta durante este periodo de “aislamiento social”. La ONU le otorgó el nombre de la pandemia de las sombras, donde se han asesinado, golpeado y abusado sexualmente a mujeres en varios lugares del planeta.

Según el Foro Brasileño de Seguridad Pública, en los meses de Enero y Julio fueron asesinadas en Brasil 648 mujeres[1]. Aquellas que sufrieron violencia doméstica tuvieron dificultad para denunciar a su agresor durante la cuarentena. En Liberia hubo un aumento de 50% en los casos de la violencia de género. En Quenia, según medios locales, alrededor de 4 mil estudiantes quedaron embarazadas debido al cierre de las escuelas siendo estos embarazos producto de abuso sexual por parte de policías y/o familiares [2]. En Inglaterra, casi tres veces más mujeres fueron asesinadas por hombres durante el periodo de lockdown en el mes de Marzo [3]. En Nicaragua, un país de 6 millones de habitantes y con un gobierno que oficialmente nunca declaró cuarentena frente a la pandemia, se contabilizaron 35 feminicidios de enero hasta el mes de junio de 2019, siendo el mes de mayo el más violento [4].

El feminicidio y la violencia sexual se han constituido como factores de riesgo que dejan secuelas físicas y psico-sociales en sus víctimas. La pandemia se encargó de reunir físicamente a los agresores y sus víctimas dejando mujeres violentadas que manifiestan miedos, trastornos del sueño, pesadillas, aislamiento social y en algunos casos tendencias suicidas. La angustia se vive en conjunto, desde los grupos de mujeres activistas y organizadas que protegen estas vidas y denuncian la violencia, cuanto la angustia que vive la propia víctima. 

Un aire de esperanza se respira a partir de mujeres defensoras que se niegan a asumir el papel de supermujeres al servicio de todos. Surge un llamado a parar, desde aquel llamado que viene del cuerpo que se niega a continuar trabajando, como aquel que viene de una voz amiga que llama a reconocer el estado vulnerable y de tristeza donde se llora para generar fuerzas y seguir caminando. La apuesta ya no está en el andar sola, sino en el tejer luchas en conjunto, siendo una lucha con todas y para todas, siendo solidarias sin olvidarnos de nosotras mismas. Una lucha por la vida que camine con el cuidado de sí, destruyendo las bases patriarcales y coloniales que maltratan nuestros cuerpos y nuestras mentes.  


[1] MACHADO, Leonardo. Menos roubos e mais feminicídios: como a pandemia influenciou a violência no Brasil. BBC News Brasil. Disponível em: <https://www.terra.com.br/noticias/menos-roubos-e-mais-feminicidios-como-a-pandemia-influenciou-a-violencia-no brasil,e79d7caa1fb0ef16a20ff8221a8ce415t768al51.html>

[2] Violência contra mulheres: a outra pandemia. Terra notícias. Disponível em: <https://www.terra.com.br/noticias/violencia-contra-mulheres-a-outra-pandemia,c89329a006eae1c26ee00ed9a4f0cb30b8ol1t6f.html>

[3] OTT, Haley. 3 times more women killed by men than average during U.K. coronavirus lockdown, data show. CBS News. Disponível em: <https://www.cbsnews.com/news/domestic-violence-uk-coronavirus-lockdown-3-times-higher-than-average-data-shows/>

[4] Datos de la Organización Católica por el Derecho a Decidir (CDD), ONG que contabiliza los datos de violencia machista y feminicídio en Nicaragua hace más de 10 años.

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