Foto: ELLA

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Quando Sônia Guajajara, principal liderança feminina indígena brasileira, subiu ao palco da aber-tura do 4º Encontro Latinoamericano de Feminismos (ELLA), realizado entre os dias 7 e 10 de de-zembro na cidade de La Plata, na Argentina, ela não subiu só. Com a força da sua ancestralida-de, ela convidou três companheiras indígenas do Brasil para estarem com ela e cedeu o microfo-ne a Célia Xakriabá, de Minas Gerais, para que ela puxasse um canto. “Cantamos, porque nós indígenas, quando vamos falar, pedimos primeiro a permissão da nossa Mãe Terra e dos nossos ancestrais”, explicou. De braços dados e com passos ritmados, elas formavam, juntas, uma sil-hueta única de corpos e cocares em movimento diante da imagem de Sônia projetada no telão.

“É com toda essa força e resistência, que a gente faz essa luta: caminhando, viajando, se movi-mentando. Para manter viva essa nossa cultura e a nossa diversidade. E por que a gente luta? Por que a gente caminha? Por que nós mulheres estamos sempre em movimento? Estamos sempre em movimento, porque a gente acredita muito que essa força junta vai, um dia, combater todas as formas de violência, vai combater todo o racismo que é destilado contra os nossos cor-pos, vai combater todo o machismo e vai combater todo o fascismo que tende a crescer no mundo inteiro. A gente luta, porque a gente acredita que é exatamente essa participação que vai transformar o mundo. Essa força das mulheres se conectando, América Latina junta. Nós indíge-nas estamos aqui para dar as mãos e somar força nessa luta, que a gente já faz há 518 anos”, conclamou Guajajara durante seu discurso.

Ovacionada pelo público, Sônia desceu do palco com um sorriso largo e atendeu, com muita simpatia e generosidade, uma a uma, as mulheres que formaram uma fila para tirar uma foto com ela. Nascida no território indígena Arariboia, no estado do Maranhão, formada em Letras e em Enfermagem, com especialização em Educação Especial, Sônia Guajajara é coordenadora exe-cutiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (ABIP) e tem voz no Conselho de Direitos Humanos da ONU, onde já levou denúncias às Conferências Mundiais do Clima (COP) e ao Par-lamento Europeu. Aos 44 anos, ao ter sido candidata a copresidenta na chapa com Guilherme Boulos pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) em 2018, ela se tornou a primeira mulher in-dígena a concorrer ao pleito presidencial no Brasil.

Durante sua participação no ELLA, em meio a gritos coletivos de “Vivas, vivas nos queremos” que ecoavam pelos gramados da Faculdade de Humanidades e Ciências da Educação da Uni-versidade Nacional de La Plata, conversamos sobre sua participação na política institucional, o contexto brasileiro e a luta histórica dos povos indígenas no Brasil.

 Rafa Vasconcellos
Foto: Rafa Vasconcellos

Sônia, você é a primeira mulher indígena a se candidatar à Presidência da República do Brasil, um fato histórico. Como foi esse processo de, depois de anos de militância, passar para essa esfera mais institucional da política?

Bom, na verdade, entrar numa disputa eleitoral, pra nós, foi um acréscimo à nossa luta. É um passo a mais, além do que a gente já faz. A gente sempre teve à frente da resistência, fazendo movimento, tanto para reivindicar respeito e cumprimento de direitos, como também para garan-tir nossa identidade, nosso modo de vida. E aí chegou o momento em que a gente percebeu que somente essa resistência não é suficiente para garantir tudo isso. A gente precisa estar nos es-paços de disputa para fazer essa incidência na política institucional, ter lideranças também nes-ses espaços, para poder estar nos lugares onde se tomam decisões, uma vez que a gente ainda é muito invisibilizado e ignorado, principalmente por essas estruturas convencionais. Muitas pes-soas olham pra gente ainda como alguém que não está preparado para assumir [os espaços de poder e a política institucional].

Então, a gente tomou essa decisão de entrar na disputa e se manter firme, claro, na luta pelo te-rritório e com as nossas bases organizadas fortalecidas. Embora os partidos políticos ainda não sejam o melhor instrumento para absorver e dar conta do que é a revolução feminista, é um es-paço necessário pra gente ocupar. E foi pensando nisso que, no Brasil, nesse ano de 2018, nós lançamos 130 candidaturas indígenas articuladas com o movimento indígena nacional. E, como
resultado dessa articulação, nós tivemos a vitória de duas mulheres indígenas: uma no Congres-so Nacional, Joenia Wapichana de Roraima, e Chirley Pankará, em São Paulo, que foi eleita pela bancada ativista para um mandato coletivo. Uma revolução também os mandatos coletivos, que tendem a crescer em todo o país.

A nossa luta maior ainda é pela garantia do território. E, hoje, o maior objeto de disputa no Brasil é a terra, porque são muitos os interesses: são as mineradoras, que querem explorar os minérios; são as madeireiras, que querem derrubar e desmatar todas as árvores; é o agronegócio, que quer o tempo todo destruir pra passar suas monoculturas; é a especulação imobiliária, que quer o tempo todo tirar as pessoas do meio do caminho para poder fazer seus prédios, resorts e con-domínios de luxo. Sem contar esse interesse, também, na exploração dos recursos hídricos, de explorar as águas dos rios para mineradoras e também para hidrelétricas. Então tudo isso, pra nós, é um território. Um território não é só um pedaço de terra, é tudo de riqueza que há ali den-tro. E sem contar que, pra nós, é essa força da ancestralidade, é o sagrado, é o que nos dá a vida.

Então não tem outro jeito de a gente garantir isso, se não for entrar para essa disputa, pra essa luta. E nós temos feito isso: entrado com muita força, porque a gente vai não é simplesmente porque quer status ou prestígio. A gente vai, porque a terra chama. Ela nos convida a defendê-la e a entrar num processo de ter um grito muito maior, de muito mais alcance, porque, se a gente continuar deixando esse modelo de desenvolvimento avançar, nós também estamos sendo coni-ventes com a nossa própria destruição. Quando a gente resolveu entrar, foi pensando em comba-ter, em romper com esse modelo de desenvolvimento econômico atual, para poder garantir os nossos modos de vida, garantir a nossa identidade e garantir a nossa existência enquanto povos indígenas.

Como você avalia os avanços e desafios para os movimentos sociais, principalmente no caso dos povos indígenas, durante o processo de transição democrática brasileira até o contexto atual?

Hoje, certeza que nós estamos vivendo uma nova transição. Com a redemocratização em 1988, a gente teve muita esperança, porque saiu daquele processo da ditadura sangrenta, violenta. Ali, os indígenas conseguiram se organizar e fazer uma incidência forte de participação, de aliança com outros movimentos e conseguiram que a Constituição Federal escrevesse dois artigos que garantissem os direitos indígenas. O direito territorial foi ali escrito, o reconhecimento da forma de organização social própria de cada povo, o respeito à cultura, o respeito à diversidade, o nosso reconhecimento enquanto povos. Com isso, a Constituição conseguiu limpar aquele entulho au-toritário da ditadura e trouxe uma cara nova, de garantir direitos sociais e coletivos. Claro que o fato de estar escrito ali os artigos 231 e 232, que tratam dos direitos dos povos indígenas, por si só, nunca iam ser implementados. Então, logo após a promulgação, em 1989, os povos indíge-nas se organizaram e criaram o Movimento Indígena Organizado e aí se criou as organizações macro regionais pra poder fazer essa luta pela implementação dos direitos conquistados. Nesses 15, 20 anos que se seguiram depois de 88, foi muito essa luta, mobilização e resistência pra se pressionar pelo cumprimento do direito conquistado.

No governo Lula, a gente conseguiu muito espaço de participação e de diálogo. Os povos indí-genas conseguiram dar um passo muito grande na conquista de políticas públicas e participação social. Mas a gente nao conseguiu, claro, ter todas as nossas demandas atendidas, como era esperado. A gente ajudou a eleger o governo do PT, o Lula, a Dilma, a gente acreditou muito. Mas as alianças que eles se dispuseram a fazer, as alianças que eles formaram durante todo seu mandato, impediram o avanço na demarcação das terras indígenas e contribuiu muito para a im-plantação de grandes empreendimentos que afetaram diretamente os povos indígenas. Com isso, não se considerou, por exemplo, a convenção 69, que é o que garante o direito de consulta, de consentimento. Isso foi desconsiderado. Então, por um lado, teve um avanço nas políticas públicas, no diálogo e na participação, mas, por outro, houve uma paralisação na demarcação das terras indígenas e também o avanço nos empreendimentos que desconsiderou os modos de vida. Mas a gente tava ali, no nosso direito de continuar pressionando, no nosso direito democrá-tico à nossa disposição pra seguir ali, pautando, reivindicando e, em algum momento, nossos territórios poderiam ser reconhecidos.

Aí, depois, veio o golpe. Embora a gente não estivesse totalmente satisfeito com o governo Dil-ma, a gente entendia que o golpe era uma situação muito drástica, muito pior. E a gente se colo-cou contra o impeachment, porque, para nós, isso era muito mais do que mudar e tirar um go-verno de uma presidenta eleita, era já uma tentativa de retirar direitos de toda população. E, na-quele momento, a gente já falava que a gente tinha muito medo de que esse golpe, em algum momento, pudesse virar um golpe legitimado pelo voto, porque a política do presidente eleito agora, de Bolsonaro, todo o seu programa, ele é uma continuidade de tudo que está hoje aí sen-do adotado no governo Temer. E a gente via claramente que era uma continuidade. Claro, ele foi eleito, mas você vê aí agora toda essa ameaça contra a população, contra as minorias, contra os mais vulneráveis. Então é um momento de transição. A gente viveu isso aí, que foi da ditadura para a democracia, depois da democracia para o golpe e, agora, para uma nova era, que se assi-nala fortemente para uma nova ditadura. Isso é muito grave.

De todos os anúncios do Bolsonaro, pelo menos seis do que ele prega diariamente têm a ver com a questão indígena, quando já, desde antes, ele dizia que não ia demarcar terras indígenas. Ele dizia claramente que índio não teria mais nenhum centímetro de terra demarcada. Ele tinha ameaçado tirar o Brasil do acordo de Paris, que é o maior acordo climático que o país assinou. Esse acordo reconhece o conhecimento tradicional dos povos indígenas, dos povos tradicionais e reconhece ainda que esse conhecimento, essa sabedoria milenar dos povos tem que ser valori-zada e somada ao conhecimento científico. E sem contar que o acordo de Paris traz metas da redução das emissões de gás carbônico que, no Brasil, seriam alcançadas com a redução do desmatamento. E o Brasil saindo do acordo de Paris, você vê aí que é um espaço aberto para um avanço do desmatamento. Então tem um efeito contrário. Ao invés de se reduzir desmatamento, vai se avançar.

Essa tentativa também de juntar o Ministério do Meio Ambiente com o Ministério da Agricultura é uma afronta diretamente aos povos indígenas e toda nossa luta. Quando ele fala que vai acabar com o ativismo no Brasil, com as ONGs que lutam por direitos humanos e direitos ambientais e, depois, quando ele diz que as terras indígenas podem ser vendidas, que os índios têm que ser como qualquer cidadão, é uma nova tentativa, como na década de 70, da ditadura, de integrar, de assimilar. É o assimilacionismo, o integracionismo dos povos, desconsiderando as culturas, desconsiderando a tradicionalidade.

Aí ele vai e coloca no Ministério da Agricultura, a Tereza Cristina, uma pessoa que foi a relatora da CPI da Funai, e que, no relatório, criminalizou todas as organizações que trabalham com povos indígenas e meio ambiente, como Cimi (Conselho Indigenista Missionário), como ISA (Instituto Socioambiental), como IEB (Instituto Internacional de Educação do Brasil), como a ABA (Asso-ciação Brasileira de Antropologia), CTI (Centro de Trabalho Indigenista). E condenou, ali, mais de trinta lideranças indígenas que lutam pela demarcação ou são lideranças de retomadas de territó-rios. Então essa tentativa era exatamente para a Funai ficar subordinada a essa pessoa, que está ali totalmente com o pensamento de destruir qualquer que seja a política indigenista.

Dentro do próprio governo, houve contradições, controvérsias dessas ideias, que não queriam de jeito nenhum essa fusão. E aí se cria esse Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos e traz, pra ele, a Fundação Nacional do Índio (Funai). E aí, mais uma vez, se coloca claramente a tentati-va de extinguir a Funai, porque se coloca esse órgão dentro de um ministério como esse, subor-dinado a uma ministra que também não tem nem um pouco de respeito e conhecimento à diver-sidade, aos povos, nem às mulheres, como é que ela vai entender? Então, pra nós, a Funai ali dentro é um departamento que vai ser subordinado aos interesses de uma pastora evangélica conservadora. Sendo que nós lutamos hoje fortemente contra esse avanço dos evangélicos con-servadores dentro das aldeias, porque, mais uma vez, é como se tivesse abrindo portas pra mais um genocídio dos povos indígenas, dessa vez praticado pela Igreja Evangélica conservadora. A pastora Damares tem no seu histórico todo um conceito sobre povos indígenas, que não aceita diversidade de cultura e tem várias iniciativas dela no Congresso Nacional de querer criminalizar os povos, de querer usar essas diferenças das culturas pra atender aos seus próprios interesses. Então isso é muito perigoso e nós vamos seguir lutando, pressionando para que a Funai perma-neça no Ministério da Justiça.

Imagem: Pilar Emitxin

Nesse cenário, como você vê as contribuições de séculos de luta dos povos indígenas, principalmente das mulheres indígenas brasileiras?

Olha, é olhar pra nós hoje. A nossa própria existência é a prova maior de todas as resistências. O que é a miscigenação no Brasil hoje? O que é essa mistura que muita gente desconsidera e fala quem é indígena e quem não é? Isso aí foi o estupro de muitas de nossas mulheres e de muitas de nossas adolescentes, que foram levadas de suas casas, das suas aldeias para atender aos senhores do café, aos senhores do cacau. Mas nós estamos aqui como resistência viva, e nós, povos indígenas, nós mulheres indígenas, somos a maior prova dessa resistência. Nós resistimos a 518 anos de violência, de extermínio, de colonialismo e de genocídio. O fascismo, que hoje tem esse nome, é o genocídio enfrentado pelos nossos povos.

Tudo levava a crer que no ano 2000 já não existia mais indígena. E, com toda nossa força e resis-tência, a gente não só sobreviveu, como triplicou o número da nossa população indígena e hoje a gente é quase 1 milhão. De 250 mil que a gente tinha na década de 1980, hoje somos 917 mil indígenas. A nossa persistência e a nossa força mostram isso, que a gente precisa enfrentar. A gente tem que enfrentar. A gente não pode, de forma alguma, desistir. E, claro, pra nós, não há outra forma de garantir a continuidade dessa existência a não ser a garantia do nosso território, porque é ele que garante o nosso modo de vida, a nossa identidade e toda nossa existência en-quanto povo.

É lamentável até perceber que as outras pessoas, não indígenas, não percebem isso e acabam desconectando toda sua luta também dessa luta da causa indígena, porque acha que não tem nada a ver. Mas sendo que, na verdade, essa luta que a gente tem feito, por entender que de-pende totalmente da Mãe Terra, ela não é um benefício só dos povos indígenas. Não é um resul-tado que vem só pra nós, mas sim pra toda humanidade. Então as pessoas precisam entender que apoiar a causa indígena, hoje, é apoiar a sua própria existência. Porque está ficando muito caro pra nós. Estamos perdendo muitas vidas e muitas de nossas lideranças. E, mesmo quem não é liderança, mas que está lá na terra todo dia, dependendo da água e daquele espaço pra subsistir, ele também acaba sendo uma liderança importante, porque, quando você compara as terras indígenas com qualquer outra terra pública, comprovadamente as terras indígenas são mais preservadas. Então, comprovadamente, nosso modo de vida contribui gratuitamente e natu-ralmente com todo planeta.

 

“La gente va a la lucha, porque la tierra llama”: entrevista con Sonia Guajajara, liderazgo femenino indígena brasileño

Foto: Rafa Vasconcellos
Foto: Rafa Vasconcellos

Cuando Sônia Guajajara, principal lideresa femenina indígena brasilera, subió al palco de apertura del 4° Encuentro Latinoamericano de Feminismos (ELLA), realizado entre los días 7 y 10 de diciembre, invitó a tres compañeras indígenas de Brasil para estar con ellas y cedió el micrófono a Célia Xakriabá, de Minas Gerais, para que ella cantara. “Cantamos, porque nosotr(x)s lxs indígenas, cuando vamos a hablar, primero pedimos permiso de nuestra Madre Tierra y de nuestrxs ancestrxs”, explicó. De brazos dados y con pasos rítmicos, formaban, juntas, una silueta única de cuerpos y cocares en movimiento ante la imagen de Sônia proyectada en la pantalla.

“Es con toda esa fuerza y resistencia, que la gente hace esta lucha: caminando, viajando, moviéndose. Para mantener viva esta, nuestra cultura y nuestra diversidad. ¿Y por qué la gente lucha? ¿Por qué la gente camina? ¿Por qué nosotras mujeres estamos siempre en movimiento? Estamos siempre en movimiento porque la gente cree mucho en que esa fuerza junta va un día, a combatir todas las formas de violencia, va a combatir todo el racismo que es destilado contra nuestros cuerpos, va a combatir todo el machismo y va a combatir todo el fascismo que tiende a crecer en el mundo entero. El pueblo lucha, porque el pueblo cree que es exactamente esta participación que va a transformar el mundo. Esa fuerza de las mujeres conectándose. América Latina junta. Nosotrxs lxs indígena estamos aquí para darnos las manos y sumar fuerza en esta lucha, que el pueblo lleva hace 518 años” dijo Guajajara durante su discurso.

Ovacionada por el público, Sônia bajó del palco con una sonrisa amplia y atendió, con mucha simpatía y generosidad, una a una, a las mujeres que formaron una fila para sacarse una foto con ella. Nacida en el territorio indígena Araboia, en el estado de Maranhao, formada en Letras y Enfermería, con especialización en Educación Especial, Sônia Guajajara es coordinadora ejecutiva de Articulación de Pueblos Indígenas de Brasil (ABIP) y tiene voz en el Consejo  de Derechos Humanos de la ONU, donde ya llevó denuncias a las Conferencias Mundiales del Clima (COP) y al Parlamento Europeo. A los 44 años, se ha convertido en candidata a la copresidencia en la placa con Guilherme Boulos por el Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) en 2018, ella se convirtió en la primera mujer indígena en participar de la disputa presidencial en Brasil.

Durante su participación en el ELLA, en medio de gritos colectivos de “Vivas, vivas nos queremos” que resonaban por los céspedes de la Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación de la Universidad Nacional de La Plata, ella conversó con Revista Amazonas sobre su participación en la política institucional, el contexto político brasileño y la lucha histórica de los pueblos indígenas en Brasil.

 Rafa Vasconcellos
Foto: Rafa Vasconcellos

 Sônia, usted es la primera mujer indígena en presentarse a la Presidencia de La República de Brasil, un hecho histórico. ¿Cómo fue ese proceso de, después de años de militancia, pasar a esa esfera más institucional de la política?

Bueno, de hecho, entrar en una disputa electoral, para nosotres, fue un crecimiento de nuestra lucha. Es un paso más, más allá de lo que la gente ya hace. Siempre estuvimos al frente de la resistencia, haciendo movimiento, tanto para reivindicar respeto y cumplimiento de derechos, como también para garantizar nuestra identidad, nuestro modo de vida. Y ahí llegó el momento en que percibimos que sólo esta resistencia no es suficiente para garantizar todo esto. Precisamos estar en los espacios de disputa para hacer esa incidencia en la política institucional, tener liderazgos también en esos espacios, para poder estar en los lugares donde se toman decisiones, en que el pueblo todavía es muy invisibilizado e ignorado, principalmente por esas estructuras convencionales. Muchas personas todavía nos miran como alguien que no está preparado para asumir (los espacios de poder y política institucional).

Entonces, tomamos esa decisión de entrar en la disputa y mantenernos firmes, claro, en la lucha por el territorio y con nuestras bases organizadas fortalecidas. Aunque los partidos políticos todavía no sean el mejor instrumento para absorber y dar cuenta de lo que es la revolución feminista, es un espacio necesario para ocupar. Y fue pensando en eso que, en Brasil, en  2018, lanzamos 130 candidaturas indígenas articuladas con el movimiento indígena nacional. Y, como resultado de esa articulación, tuvimos la victoria de dos mujeres indígenas: una en el Congreso Nacional, Joenia Wapichana de Roraima, y ​​Chirley Pankará, en São Paulo, que fue elegida por la bancada activista para un mandato colectivo. Una revolución es también los mandatos colectivos, que tienden a crecer en todo el país.

Nuestra mayor lucha aún es por la garantía del territorio. Y, hoy, el mayor objeto de disputa en Brasil es la tierra, porque son muchos los intereses: son las mineras, que quieren explotar los minerales; son las madereras, que quieren derribar y desmontar todos los árboles; es el agronegocio, que quiere todo el tiempo destruir para imponer sus monocultivos; es la especulación inmobiliaria, que quiere el todo el tiempo sacar a las personas de en medio para poder hacer sus edificios, resorts y condominios de lujo. Sin contar ese interés, también, en la explotación de los recursos hídricos, de explorar las aguas de los ríos para las mineras y también para las hidroeléctricas. Entonces todo eso, para nosotres, es un territorio. Un territorio no es sólo un pedazo de tierra, es un todo de riqueza que hay dentro. Y sin contar que, para nosotres, es esa fuerza de la ancestralidad, es lo sagrado, es lo que nos da la vida.

Entonces no hay otra manera de que garanticemos eso, si no es entrar a esa disputa, en esa lucha. Y nosotres hemos hecho esto: entrado con mucha fuerza, porque no vamos simplemente porque queremos status o prestigio. Vamos, porque la tierra llama. Ella nos invita a defenderla y entrar en un proceso de tener un grito mucho mayor, de mucho más alcance, porque si  seguimos dejando que este modelo de desarrollo avance, nosotres también estamos siendo conniventes con nuestra propia destrucción. Cuando resolvimos entrar, fue pensando en combatir, en romper con el modelo de desarrollo económico actual, para poder garantizar nuestros modos de vida, garantizar nuestra identidad y garantizar nuestra existencia como pueblos indígenas.

¿Cómo evalúa los avances y desafíos para los movimientos sociales, principalmente en el caso de los pueblos indígenas, durante el proceso de transición democrática brasileña hasta el contexto actual?

Hoy, seguro que estamos viviendo una nueva transición. Con la redemocratización en 1988, tuvimos mucha esperanza, porque se salió de aquel proceso de dictadura sangrienta, violenta. Allí, les indígenas lograron organizarse y hacer una fuerte incidencia de participación, de alianza con otros movimientos y lograron que la Constitución Federal escribiera dos artículos que garanticen los derechos indígenas. El derecho territorial fue allí escrito, el reconocimiento de la forma de organización social propia de cada pueblo, el respeto a la cultura, el respeto a la diversidad, el reconocimiento como pueblo. Con ello, la Constitución logró limpiar ese escombro autoritario de la dictadura y trajo una cara nueva, de garantizar derechos sociales y colectivos. Por supuesto, el hecho de estar escrito allí los artículos 231 y 232, que tratan sobre los derechos de los pueblos indígenas, por sí mismos, nunca iban a ser implementados. Entonces, luego de la promulgación, en 1989, los pueblos indígenas se organizaron y crearon el Movimiento Indígena Organizado y allí se crearon las organizaciones macro regionales para poder hacer esa lucha por la implementación de los derechos conquistados. Estos 15, 20 años que siguieron después del 88, fueron mucho esa lucha, movilización y resistencia para presionar por el cumplimiento del derecho conquistado.

En el gobierno de Lula, conseguimos mucho espacio de participación y de diálogo. Los pueblos indígenas han logrado dar un paso muy grande en la conquista de políticas públicas y participación social. Pero no logramos, por supuesto, tener todas nuestras demandas atendidas, como era esperado. Ayudamos a elegir al gobierno del PT, Lula, Dilma, les creímos mucho. Pero las alianzas que se dispusieron a hacer, las alianzas que formaron a lo largo de todo su mandato, impidieron el avance en la demarcación de las tierras indígenas y contribuyeron mucho para la implantación de grandes emprendimientos que afectaron directamente a los pueblos indígenas. Con esto, no se consideró, por ejemplo, el Convenio 69, que es el que garantiza el derecho de consulta, de consentimiento. Eso fue desconsiderado. Entonces, por un lado, hubo un avance en las políticas públicas, en el diálogo y la participación, pero, por otro, se ha detenido la demarcación de las tierras indígenas y también el avance en los emprendimientos que desconsideró los modos de la vida. Pero estábamos ahí, en nuestro derecho de continuar presionando, en nuestro derecho democrático a nuestra determinación de seguir allí, pautando, reivindicando que en algún momento, nuestros territorios podrían ser reconocidos.

Entonces vino el golpe. Aunque no estábamos totalmente satisfeches con el gobierno de Dilma, entendíamos que el golpe era una situación muy drástica, mucho peor. Y nos opusimos al impeachment, porque para nosotres era mucho más que cambiar y sacar un gobierno de una presidenta electa, era ya un intento de retirar derechos de toda la población. Y, en aquel entonces, ya hablábamos de que la gente tenía mucho miedo de que ese golpe, en algún en el momento, pudiera convertirse en un golpe legitimado por el voto, porque la política del presidente electo ahora, de Bolsonaro, todo su programa, él, es una continuidad de todo lo que está hoy ahí siendo adoptado en el gobierno Temer. Y veíamos claramente que era una continuidad. Por supuesto, fue elegido, pero ves allí toda esta amenaza contra la población, contra las minorías, contra les más vulnerables. Entonces es un momento de transición. Vivimos eso, que fue de la dictadura a la democracia, después de la democracia al golpe y, ahora, hacia una nueva era, que se dirige fuertemente para una nueva dictadura. Es muy grave.

De todos los anuncios de Bolsonaro, por lo menos seis de lo que él predica diariamente tienen que ver con la cuestión indígena, cuando ya, desde antes, él decía que no iba a demarcar tierras indígenas. Decía claramente que el indio no tendría más ni un centímetro de tierra demarcada. Había amenazado con sacar a Brasil del acuerdo de París, que es el mayor acuerdo climático que el país ha firmado. Este acuerdo reconoce el conocimiento tradicional de los pueblos indígenas, de los pueblos tradicionales y reconoce que ese conocimiento, esa sabiduría milenaria de los pueblos tiene que ser valorada y sumada al conocimiento científico. Y sin contar que el acuerdo de París trae metas de reducción de las emisiones de gas carbónico que, en Brasil, se alcanzarían con la reducción de la deforestación. Y, Brasil saliendo del acuerdo de París, ves allí que es un campo abierto para un avance de la deforestación. Entonces tiene un efecto contrario. En lugar de reducir la deforestación, se va a avanzar.

Este intento también de unir al Ministerio de Medio Ambiente con el Ministerio de Agricultura es una provocación directa a los pueblos indígenas y toda nuestra lucha. Cuando él dice que va a terminar con el activismo en Brasil, con las ONG que luchan por derechos humanos y derechos ambientales y, después, cuando dice que las tierras indígenas pueden ser vendidas, que los indios tienen que ser como cualquier ciudadano, es un nuevo intento, como en la década de los 70, de la dictadura, de integrar, de asimilar. Es el asimilacionismo, el integracionismo de los pueblos, desconsiderando las culturas, desconsiderando la tradicionalidad.

A continuación, va y coloca en el Ministerio de Agricultura a Tereza Cristina, una persona que fue la relatora de CPI de la Funai, y que, en el informe, criminalizó a todas las organizaciones que trabajan con pueblos indígenas y medio ambiente, como Cimi (Consejo Indigenista Misionero), como ISA (Instituto Socioambiental), como IEB (Instituto Internacional de Educación de Brasil), como la ABA (Asociación Brasil de Antropología), CTI (Centro de Trabajo Indigenista). Y condenó, allí, más de treinta liderazgos indígenas que luchan por la demarcación o son líderes de recuperación de territorios. Entonces ese intento era exactamente para subordinar la Funai a esa persona, que está allí con el pensamiento de destruir cualquier política indigenista.

Dentro del propio gobierno, hubo contradicciones, controversia con esas ideas, que no querían ninguna fusión. Así se crea ese Ministerio de la Mujer, Familia y Derechos Humanos y viene con la Fundación Nacional del Indio (Funai). Y, una vez más, se instaura claramente el intento de extinguir a la Funai, porque se coloca ese órgano dentro de un ministerio como ese, subordinado a una ministra que tampoco tiene ni un poco de respeto y conocimiento a la diversidad, a los pueblos, ni a las mujeres, ¿cómo va a entender? Entonces, para nosotres, la Funai allí dentro es un departamento que va a ser subordinado a los intereses de una pastora evangélica conservadora. Siendo que luchamos hoy fuertemente contra ese avance de los evangélicos conservadores dentro de las aldeas, porque, una vez más, es como si se hubieran abierto las puertas para un genocidio más de los pueblos indígenas, esta vez practicado por la Iglesia Evangélica conservadora. La pastora Damares tiene en su historia todo un concepto sobre pueblos indígenas, que no acepta diversidad de cultura y tiene varias iniciativas de ella en el Congreso Nacional para intentar criminalizar los pueblos, para intentar usar esas diferencias de las culturas para atender a sus propios intereses. Entonces eso es muy peligroso y vamos a seguir luchando, presionando para que la Funai permanezca en el Ministerio de Justicia.

Imagem: Pilar Emitxin

 

 En ese escenario, ¿cómo usted ve las contribuciones de siglos de lucha de los pueblos indígenas, principalmente de las mujeres indígenas brasileñas?

Mira, es mirar para nosotres hoy. Nuestra propia existencia es la prueba más grande de todas las resistencias. ¿Qué es el mestizaje en Brasil hoy? ¿Qué es esa mezcla que mucha gente desconsidera y decide quién es indígena y quién no es? Esa fue la violación de muchas de nuestras mujeres y de muchas de nuestras adolescentes, que fueron llevadas de sus casas, de sus aldeas para atender a los señores del café, a los señores del cacao. Pero nosotras estamos aquí como resistencia viva, y nosotres, pueblos indígenas, las mujeres indígenas, somos la mayor prueba de esa resistencia. Resistimos a 518 años de violencia, de exterminio, de colonialismo y de genocidio. El fascismo, que hoy tiene ese nombre, es el genocidio enfrentado por nuestros pueblos.

Todo llevaba a creer que en el año 2000 ya no existía más lo indígena. Y, con toda nuestra fuerza y ​​resistencia, no sólo sobrevivimos, sino que triplicó el número de nuestra población indígena y hoy somos casi un millón. De 250 mil que teníamos en la década de 1980, hoy somos 917 mil indígenas. Nuestra persistencia y nuestra fuerza demuestra eso, que tenemos que enfrentar.  Lo tenemos que enfrentar. No podemos, en modo alguno, desistir. Y, por supuesto, para nosotres, no hay otra forma de garantizar la continuidad de nuestra existencia a no ser la garantía de nuestro territorio, porque es él quien garantiza nuestro modo de vida, nuestra identidad y toda nuestra existencia como pueblo.

Es lamentable ver que las otras personas, no indígenas, no perciben eso y acaban desconectando toda su lucha de la causa indígena, porque cree que no tiene nada que ver. Pero siendo que, en realidad, esa lucha que hemos dado, por entender que dependemos totalmente de la Madre Tierra, no es un beneficio sólo de los pueblos indígenas. No es un resultado que viene sólo para nosotres, sino para toda la humanidad. Entonces el pueblo necesita entender que apoyar la causa indígena, hoy, es apoyar su propia existencia. Porque nos está saliendo muy caro. Estamos perdiendo muchas vidas y muches de nuestres líderes. E, incluso quien no es líder, pero que está allí en la tierra cada día, dependiendo del agua y de aquel espacio para subsistir, también termina siendo un liderazgo importante, porque, cuando comparas las tierras indígenas con cualquier otra tierra pública, decidida las tierras indígenas son más conservadas. Entonces, decididamente, nuestro modo de vida contribuye gratuitamente y naturalmente con todo el planeta.

 

Jornalista e socióloga brasileira. Doutoranda em Ciências Sociais pela Universidad de Buenos Aires e pesquisadora convidada do Instituto de Estudos da América Latina da UBA, com foco nas áreas de estudos de gênero e movimentos sociais

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