Fotografía: Izabelle Pereira da Silva. Tratamento de imagem: Natalia Ract. Edição: Heloisa Yoshioka

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Nesses 33 anos habitando o corpo de mulher, 9 compartilho em ser mãe, e 3 em dose dupla.

«E o que isso tem a ver com autocuidado ancestral e sagrado?», você pode perguntar.

Mas não estou aqui para falar de sagrado feminino, pois em geral isso tem se tornado uma prática bem quadrada e rentável, sendo acessada por poucas mulheres. É inevitável ver o recorte social instalado quando, nas imagens de divulgação das práticas e oficinas, não há sequer uma mulher negra ou uma mulher com filho, por exemplo. Talvez esteja mesmo sendo acessado, hoje, de um lugar que beira o feminismo neoliberal.

A palavra ancestralidade advém de um substantivo feminino (a começar por aí) que carrega em si o significado do que vem antes, ou seja, de seus antecessores. Autocuidado a palavra já diz, o cuidado que a pessoa tem consigo.

Mas, na verdade, o autocuidado ancestral sagrado é o lugar do simples, das ervas do quintal, dos saberes passados de geração em geração, que dão voz e escuta às nossas mais velhas, muito sábias por sinal.

Muitos destes conhecimentos obtive através de minha mãe, que aprendeu com outras mulheres, sem nenhuma moeda de troca que não fosse o alívio de algum mal. 

Algo que não consigo entender é como a ancestralidade, a sacralidade e o autocuidado passaram pra um lado tão comercial e um curto espaço de tempo. 

Já parou pra pensar?

Resgatar nosso autocuidado-sagrado-ancestral é urgente.

Hoje falam de ginecologia natural, mas prefiro chamar de “ginecologia autônoma”. Há algumas manas que nomeiam como ginecologia política, na época da minha mãe ninguém sequer falava desses nomes!

Não há nome errado; no entanto, a minha preferência vai de encontro ao fato de que, baseado na autonomia, busco um processo meu, em que eu seja autodidata, embora eu divida minhas experiências e saberes com minhas parças ao longo do tempo.

Desde criança sou ligada as ervas. Era benzida pela preta mais velha do quintal, com galhinho de arruda e algumas vezes coentro, e que dizia que em mim tinha muito zôio gordo! Na madrugada, eu e minha mãe pegávamos capim santo na frente de casa pra tomar chá e dormir melhor.

A prática da ginecologia autônoma chegou até mim através do banho de assento; aprendi que ferver Aroeira e Barbatimão por uns 10 minutos ajudava a melhorar a coceira que perseguia a genitália de minha mãe e suas amigas. Depois que cresci muitas vezes me pegava sentada na bacia de alumínio com chá de camomila, pra acalmar, parar de coçar e ficar bem. 

Outro dia, minhas filhas chegaram em casa, e lá estava eu com as mesmas práticas, de maneira inteiramente intuitiva e empírica, dessa vez usando melaleuca na lavagem das calcinhas para melhorar a coceira e aumentar a imunidade; lavanda (alfazema) para dormirem melhor; e a camomila para relaxar.

Ginecologia autônoma? Sim.

Mas cuidado, sacralidade, amor e ancestralidade também!

Essa prática me traz à tona a leveza e a responsabilidade que devemos ter com a nossa igual (nossa irmã, mãe, filha, amiga e etc), entendendo seus processos, suas queixas e também suas respostas às plantas. Buscando nas emoções e comportamentos os indícios de melhora e piora dos nossos corpos, e com isso desenvolver a autonomia (responsável) de saber o que usar para curar o que precisa ser curado.

Segundo Patrick Bellelis, da Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) o termo ginecologia natural (como é mais difundido) não é um método reconhecido pela classe médica, pois seu uso não tem base científica. Isso nos leva a diversos questionamentos, pois sabemos que a indústria farmacêutica lucra muito com nossos corpos medicalizados e adoecidos. Por isso, não há como negar a grande adesão da ginecologia autônoma pelas milhares de mulheres que já estão cansadas de tomarem tantos remédios alopáticos e continuarem com as mesmas queixas.

Em contrapartida, a fitoterapia – ciência que utiliza das plantas para fazer medicamentos – foi implementada no ano de 2006 pelo SUS (Sistema Único de Saúde), através da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, algo que só foi possível com a ajuda dos conhecimentos empíricos da população. Dessa forma, tal política segue um caminho contrário ao da medicalização dos corpos e trás o conhecimento empírico de gerações sucessivas de uma população, para ser empregado como um potencial tratamento na cura dos males relacionados à saúde, especialmente em determinadas regiões do país, onde as pessoas têm seus quintais repletos de plantas medicinais.

E reitero complementando que, grande parte das medicações existentes no mercado não estariam nas prateleiras se nosso saber empírico, ancestral e sagrado (que cultivamos em nossos quintais/canteiros há anos) fossem resgatados.

Sendo assim, mesmo que divergente e sem reconhecimento para a classe médica, indústria e governo, a ginecologia autônoma abarca muitas frentes: a mulher que não quer seu corpo doente e medicalizado; a mulher que quer ser protagonista do seu próprio corpo; a mulher que quer aprender a se cuidar melhor e responsavelmente; a mulher que quer escolher seu parto e tê-lo respeitado, a mulher que quer cuidar dos seus filhos e ser apoiada tendo as mesmas oportunidades que as/os demais; e a mulher ingovernável (que é a que mais gosto!). Todas elas podem ser uma só, e o que todas nós queremos é respeito.

Respeito com nossos corpos, com nossas vidas e nossas escolhas!

De qualquer modo acredito que importante mesmo seja estudar (as plantas, as formas de aplicações, a própria alimentação), buscar conhecimentos para ter segurança ao usar e indicar algo, principalmente ervas para uso interno (para não correr o risco de alergias, por exemplo). E isso a gente aprende de diversas formas: de maneira autônoma e empírica, com os mais velhos e em livros, mas tudo de maneira honesta e responsável.

Esse escrito não é para falar “não vá ao médico”, mas sim para você ter consciência de ser assertiva na hora de procurar um/a, saber o que te incomoda e ter a perspicácia de questionar as condutas do/a profissional que lhe prestará atendimento. Um bom profissional segue o caminho com você, e não por você.

Autocuidado Sagrado Ancestral

Fotografía: Izabelle Pereira da Silva. Tratamiento de la imagen: Natalia Ract. Edición: Heloisa Yoshioka

Traducción al español por Fernanda Carvalho

En estos 33 años habitando el cuerpo de mujer, 9 comparto siendo madre, 3 en dosis doble.

“¿Y qué eso tiene que ver con autocuidado ancestral y sagrado?”, usted puede estar preguntándose.

La palabra ancestralidad viene de un substantivo femenino (empezando por ahí) que lleva en sí el significado de lo que viene antes, o sea, de sus antecesores. Autocuidado, la palabra ya dice, el cuidado que la persona tiene consigo.  

Pero no estoy acá para hablar de sagrado femenino, pues en general eso se ha convertido en una práctica bien cuadrada y rentable, siendo accedida por pocas mujeres. Es inevitable ver el recorte social instalado cuando, en las imágenes de divulgación de las prácticas y talleres, no hay ni siquiera una mujer negra o una mujer con hijo, por ejemplo. Tal vez esté siendo accedido, hoy, desde un lugar que bordea el feminismo neoliberal.     

Pero, en realidad, el autocuidado sagrado ancestral es un lugar simple, el de las hierbas del jardín, de los conocimientos pasados de generación en generación, que dan voz y escucha a nuestras viejas que nos han precedido, muy sabias a propósito.

Muchos de estos conocimientos tuve a través de mi madre, que aprendió con otras mujeres, sin ninguna moneda de cambio que no fuera el alivio de algún mal.

Algo que no puedo entender es cómo la ancestralidad, la sacralidad y el autocuidado pasó a un lado tan comercial y en tan poco tiempo.  

¿Ya paró para pensar?

Rescatar nuestro autocuidado-sagrado-ancestral es urgente.  

Hoy hablan de ginecología natural, pero nombrarla “ginecología autónoma”. ¡Hay algunas compañeras que la nombran como ginecología política. En la época de mi madre nadie ni siquiera hablaba de esos nombres!.  

No hay nombre equivocado; sin embargo, mi preferencia va en contra del hecho de que, basado en la autonomía, busco un proceso mío, en que yo sea autodidacta, aunque yo comparta mis experiencias y saberes con mis pares a lo largo del tiempo.

Desde niña estoy conectada a las hierbas. Fue bendecida por la negra vieja del patio con una ramita de ruda, algunas veces cilantro, diciendo que había mal de ojo sobre mí. A las madrugadas, yo y mi madre recogíamos hierba santa en frente de casa para tomar un té y dormir mejor.   

La práctica de la ginecología autónoma llegó hasta mí a través del baño de asiento; aprendí que hervir Aroeira y Barbatimão por unos 10 minutos ayudaba a mejorar el picazón que perseguía los genitales de mi madre y sus amigas. Después de que crecí, muchas veces me encontraba sentada en la cuenca de aluminio con té de manzanilla, para acalmar, para parar de rascarme y estar bien.

Otro día, mis hijas llegaron a casa y allí estaba yo con las mismas prácticas, de manera completamente intuitiva y empírica, esta vez usando melaleuca en el lavado de las bragas para mejorar la picazón y aumentar la inmunidad; lavanda para dormir mejor; y manzanilla para relajar.

¿Ginecología autónoma? Sí.

¡Pero cuidado, sacralidad, amor y ancestralidad también!

Esta práctica me trae a la luz la ligereza y la responsabilidad que debemos tener con nuestras iguales (hermana, madre, hija, amiga y etc), entendiendo sus procesos, sus quejas y también sus respuestas a las plantas. Buscando en las emociones y en los comportamientos los indicios de mejora y empeoramiento de nuestros cuerpos y, con ello, desarrollar la autonomía (responsable) de saber qué usar para curar lo que necesita ser curado.

Según Patrick Bellelis, de la Federación Brasilera de Ginecologia y Obstetrícia (FEBRASGO) el término ginecología natural (como es más difundido) no es un método reconocido por la clase médica, pues su uso no tiene base científica. Esto nos lleva a diversos cuestionamientos, pues sabemos que la industria farmacéutica se beneficia mucho con nuestros cuerpos medicalizados y enfermos.  Por eso, no hay como negar la gran adhesión de la ginecología autónoma por las miles de mujeres que están cansadas de tomar tantas medicinas alopáticas y continuar con las mismas quejas.

En cambio, la fitoterapia – ciencia que utiliza las plantas para hacer medicamentos – fue implementada en el año 2006 por el SUS (Sistema Único de Salud), a través de la Política Nacional de Prácticas Integrativas y Complementarias, algo que sólo fue posible con el aporte de los conocimientos empíricos de la población. De esa forma, tal política sigue un camino contrario al de la medicalización de los cuerpos y tras el conocimiento empírico de generaciones sucesivas de la población para ser empleado como un potencial tratamiento en la cura de los males relacionados a la salud, especialmente en determinadas regiones del país donde las personas tienen sus patios repletos de plantas medicinales.

Y reitero complementando que, gran parte de las medicinas existentes en el mercado no estarían en los estantes si nuestro saber empírico, ancestral y sagrado (que cultivamos en nuestros patios / jardines desde hace años) fueran rescatados.

Siendo así, aunque divergente y sin reconocimiento para la clase médica, industrial y el gobierno, la ginecología autónoma abarca muchos frentes: la mujer que no quiere su cuerpo enfermo y medicalizado; la mujer que quiere ser protagonista de su propio cuerpo; la mujer que quiere aprender a cuidarse mejor y responsablemente; la mujer que quiere elegir su parto y tenerlo respetado, la mujer que quiere cuidar de sus hijos y ser apoyada teniendo las mismas oportunidades que las demás; y la mujer ingobernable (que es la que más me gusta). Todas ellas pueden ser una sola y lo que todas queremos es respeto.

¡Respeto con nuestros cuerpos, con nuestras vidas y nuestras elecciones!

En cualquier caso, creo que es importante estudiar (las plantas, las formas de aplicaciones, la propia alimentación), buscar conocimientos para tener seguridad al usar e indicar algo, principalmente hierbas para uso interno (para no correr el riesgo de tener alergias, por ejemplo). Y eso la gente aprende de diversas maneras: de manera autónoma y empírica, con las mayores y en libros, pero todo de manera honesta y responsable.

Este escrito no es para decir «no vaya al médico», sino para que usted tenga conciencia de ser asertiva a la hora de buscar uno, saber lo que te molesta y tener la perspicacia de cuestionar las conductas del profesional que le prestará servicio. Un buen profesional sigue el camino con usted, y no por usted.

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