Fotografía: Emilia Silbertein

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Tatiana Nascimento nasceu em 1981 em Brasília, onde reside atualmente. É formada em Letras pela UnB (Universidade de Brasília) e fez doutorado em Estudos da Tradução na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). A autora é poeta, slammer, cantora e compositora. Atua também nos campos editorial, educacional, cultural e audiovisual. 

O seu primeiro livro de 2016 titulado lundu, celebra também o nascimento da sua própria editora Padê editorial. lundu, (disponível para download no site da editora) foi uma das publicações selecionadas pelo Projeto Nacional Leia Mulheres na categoria «Melhores Livros de 2016». A coletânea foi também o “Livro do Mês” de maio de 2018 na edição do projeto «Lendo Mulheres Negras», em Salvador, e em dezembro de 2017 na edição de Brasília. 

Tatiana Nascimento publicou o seu segundo livro de poemas mil994 em 2018, e recentemente publicou 07 notas sobre o apocalipse, ou, poemas para o fim do mundo, pela editora carioca KZA1, cuírlombismo literário: poesia negra lgbtqi desorbitando o paradigma da dor, ensaio publicado pela n-1 editora, e um sopro de vida no meio da morte, publicado pela Macondo Editora.

Próximamente serão publicados alguns poemas da Tatiana Nascimento no livro Quilombo (Editado pela editora argentina Tinta Limón), uma antologia de autoria negra brasileira organizada pela pesquisadora Lucía Tennina, e também será publicada a tradução do último livro da autora pela editora Mandacarú.

Nesta entrevista dialogamos sobre a sua produção, sobre a sua editora, sobre a identidade lésbica, sobre a identidade negra, sobre feminismo, também sobre o mar, sobre o idioma espanhol, sobre os saraus e sobre a gestão coletiva.

L: lundu, é o seu primeiro livro, não é?

T: É quase o primeiro. Para lançar o lundu, eu fiz uma campanha de financiamento pra arrecadar dinheiro e imprimir lundu,. A retribuição dessa campanha era um livro, imprimi 40 cópias apenas e vendi 35 (era ano de meu aniversário de 35). O nome-completo dele era (um) esboço (de lundu), mas chamo de esboço apenas. É um livro com 35 poemas, bem menos comparado aos oitenta e tantos de lundu,; com exceção de dois (Exua, insulina), eu selecionei alguns poemas do próprio lundu, pro esboço, que é efetivamente meu primeiro livro, com essa tiragem muito pequenininha. Capa de papelão também, com gravura do Leo Freitas que ilustrou o seguinte (que chamo de “meu quase primeiro livro”).

L: E o livro abre com uma apresentação em forma de poema que é a idéia de “queerlombismo”. 

marabô achei (que) você, (estava numa) encruzilhada (devanei(gr)os desde meu cuíerlombismo)

Como você define essa  idéia?

T: Esse termo é uma jornada etimológica, tem a ver com a pesquisa de duas outras pessoas negras importantes para pensar a negritude no Brasil. Uma é a Beatriz Nascimento, uma historiadora, e outra é Abdias do Nascimento. A Beatriz Nascimento foi a primeira historiadora no Brasil a redefinir a idéia de “quilombo”. Tem uma idéia tradicional de quilombos como “agrupamentos de negros fugidos”, e a Beatriz Nascimento, como historiadora que é, de ativismo de etimologia preta inclusive, foi nas raízes de histórias do continente, explicou a expressão Kilombos, o que significavam em África e o que significaram no primeiro momento da colonização e da política escravagista, para finalmente analisar o que se tornaram no século XVIII, quando saem desse imaginário colonial que os define como “espaço de negros fugidos” para se tornar não mais uma instituição nem mais simplesmente um lugar de fuga, mas um sítio em que as pessoas faziam exercícios de liberdade no coração da escravatura. Essa é a idéia principal, que eu presto muita atenção. Depois, o Abdias do Nascimento escreveu um manifesto chamado “Quilombismo”, um projeto político para o povo brasileiro a partir de bases afro-negras; para todo o povo brasileiro baseado na afro-brasilidade e com objetivo a felicidade de todos os cidadãos. Aí, a idéia de pensar as produções literárias contemporâneas de pessoas pretas lgbtqi como “queerlombismo literário” tem a ver com ressemantizar esse conceito para defini-lo como próprio da dissidência sexual na diáspora, parte de nosso legado, da nossa herança e por isso projeção pro nosso futuro. Pensar dissidências sexuais e de gênero como parte intrínseca da cultura da diáspora negra no Brasil, pra mim, tem a ver com esse exercício de pensar felicidade coletiva e exercício de liberdade. E para isso eu retomei alguns relatos fundacionais dos povos iorubás, os chamados itans, que vieram com o trânsito pelo Atlântico ou se criaram no trânsito. Quer dizer, histórias prévias à colonização, ou concomitantes ao começo da diáspora; e que narram transexualidade de orixás, relações lésbicas ou gays entre elxs, dissidências várias aos padrões de gênero binários da ocidentalidade branquista. Com esse conceito, defendo o reconhecimento da dissidência sexual como própria da diáspora negra e aponto que na nossa produção intelectual, especialmente de poesia, que estudo sendo teoria mesmo, bebemos dessa fonte ancestral que pensa a conexão indissociável entre negritude e sapatonismo, viadisse, transexualidade, travestividade, para construir novos caminhos de futuro. É quebrar um pouco com como a literatura negra brasileira tem sido feita, pois o que é que é definido como literatura negra? Quais são os pressupostos dessa literatura? Além da pessoa ser negra, o que se espera dessas textualidades? Que textos são considerados como literatura negra? E aí a gente vai ver ao longo de 40 anos mais ou menos de produção mais concentrada, com mais autores e autoras sendo publicadas, que fala-se muito, ainda, de marcadores relacionados ao aspecto de opressão da colonialidade, então é muito retrato de dor, muitas palavras de denúncia, muitos textos de resistência. Só que aí o que eu estou pensando é que essa literatura mais contemporânea preta lgbtqi não está necessariamente falando sobre isso, não tem como espaço principal a dor, não tem como tema principal a denuncia, não tem como foco o outro: não é uma resposta à colonização. É um sistema de anúncio de mundos. E aí eu estou estudando algumas autoras, especialmente Katy Souto, que é aqui de Brasília, Kika Sena que é alagoana mas está morando aqui em Brasília, Nina Ferreira, de aqui de Brasília também, para olhar o que é que da poesia delas está saindo dos lugares comuns esperados à literatura negra e de que forma estão escrevendo outras coisas sobre a gente, nos dando complexidade narrativa. Como é que a poesia delas nos mostra a complexidade narrativa que a todos os povos é permitida? Por que é que da gente se espera que sempre escreva sobre dor, resistência, fortaleza e tal? E como é que a gente não está mais fazendo apenas isso. 

L: Eu percebi que no seu livro quando aparece a subjetividade preta da dor, parece como se fosse masculino. “Brasília 5.5”

brasília 5.5 

sujo demais 

novo demais 

escuro demais 

feridas demais na 

pele quase ultimato 

um corpo a mais 

no vagão errado 

no século errado 

no continente errado 

presença quase desacato 

incomoda demais a polícia 

as pessoas de bem 

o ar metropolitan chic a 

pressa 

do 

trem

Também naquele que diz “é preto/ e é por isso que todo dia ele morre mais cedo”:

é preto!” 

e é por isso que tododia ele morre mais cedo 

mesmo se for 

no meio da tarde 

no coração da cidade ou num buraco 

no gueto 

[a polícia alega alegre: “suspeito”] 

são 

9 horas & uns tantos m 

inóspitos espaços no silêncio 

entre a novela & quase hora da janta 

o caminho beco viela eu … 

num dá medo? 

faz nem 3 hora era pipa 

pique 

bola 

criança 

agora eu aperto o passo 

ligero 

num compasso diferente do que eu tô acostumada 

mas já tô acostumada 

a noite foi roubada da gente 

só que num é de assalto que eu tenho medo não viu 

só quem nunca me acostuma é o ritmo dessa cidade, 

      não 

o céu mesmo de noite nunca fica escurão 

ninguém dorme?

Por que essa masculinidade nesses casos? 

T: Talvez você esqueceu uma coisa bem importante. A maioria dos poemas é sobre mim, né? lundu, tem muitos poemas sobre como estou me sentindo, do que é que eu gosto, como vejo o que me cerca; nesses poemas a subjetividade é minha, portanto não é masculina: é lésbica preta. Talvez tenha uma minoria de poemas em que aparece uma masculinidade preta quando me refiro a genocídio negro, por exemplo, pois é uma política de morte que tem matado mais homens negros. Mas são uma minoria de poemas num universo de mais de 80. Achei bem interessante que os poemas que vc ressaltou sejam justamente esses obviamente entendidos como poemas de resistência negra. O “Brasília 5.5” foi feito depois de um dia em que entrei no metrô, no vagão das mulheres, e tinha um homem, um mendigo preto, muito pobre, muito sujo, e que estava machucado. As mulheres ficaram muito incomodadas com a presença dele mas ninguém falou nada, não pediram para ele sair do vagão. Aqui acontece normalmente que entra um varão, branco, no vagão das mulheres, e poucas são as que falam para sair, eu geralmente falo para sair; esse cara eu não falei para sair porque era um cara preto, pobre e machucado. Mas estatisticamente a maioria dos poemas vai falar sobre mim ou sobre mar, eu acho que tem um tema recorrente que é o mar, e também o mar entendido como ancestralidade negra, porque mar é Odoiá, Iemanjá, o espírito do mar, e aí também é uma subjetividade negra que não é masculina, mas conhecida como feminina pois considerada como a mãe de todas as cabeças. lundu, é um livro que é inteiro sobre negritude, porque ele inteiro foi escrito por mim. Aí talvez esses poemas que são de denúncia, obviamente de denúncia, têm personagens negros, mas devem ser só uns cinco poemas em que há um sujeito homem negro em 80 poemas, então eu acho que é uma minoria.

L: Absolutamente, mas por conta desse desequilíbrio foi que eu me perguntava por quê. Percebi, também, que tem uma presença que me afetou particularmente que é o idioma espanhol, 

fuíste al sur 

tivesse máquina do tempo que nem de espaço 

yo volvia hasta asunción dos mil doce, 

pra tomar um tererê e dormir com você 

(noite sem pesadelo, dessa vez). 

como tempo só avança, 

voy dormir solita 

o que é de boa, até, 

mas um tererê bem que ia bem nesse calorzão.

Isso tem a ver com uma questão pessoal ou com alguma referência literária?

T: Eu acho que tem a ver com a minha paixão pelo Perú, e com minha paixão pelo idioma, eu amo a sonoridade do espanhol. E isso se junta a um compromisso com a idéia de latinidade, o Brasil é muito alheio a essa idéia de latino. Mesmo que o espanhol seja a língua do colonizador, é a língua da maioria dos colonizados no continente, e não o português brasileiro, né? Mas tem mais a ver com sonoridade mesmo, é uma paixão fonética, eu escuto muita música afro-colombiana. Eu amo, aí então eu acabo escrevendo. A presença do y, especialmente, se refere a exercitar na escrita uma materialização da pronúncia dos conectivos oralmente, que não são “ê”, mas sim “i” mesmo. Só que o “y” tem esse duplo-charme/dupla-eficiência de ser latino y remeter à sonoridade.

L: E outra presença marcante no livro é a questão de gênero. Qual é o seu posicionamento em relação com o feminismo? Você parece se posicionar claramente como mulher, lésbica, negra, brasiliense, nesse sentido qual é a sua visão sobre o feminismo? 

T: Eu não me posiciono como mulher, eu me posiciono como lésbica, é a minha identidade de género. Já fui muito feminista, fui feminista por muitos anos, feminista de articulação, de estar em movimentos, de participar de coletividades feministas, me cansei um pouco mais ou menos quando eu tinha trinta anos (uns 8 anos atrás) das retóricas do feminismo estarem muito associadas à heterosexualidade, o feminismo de movimento sendo hétero. Ao mesmo tempo eu estava vinculada ao feminismo lésbico mas eu achava ele predominantemente branco, muitas pautas brancas, e eu me afastei muito do feminismo, saí das coletividades. Eu acho, também, que o feminismo é uma metodologia, não só um modo de vida, não precisa ter a ver com você participar de uma coletividade ou não, pode ter a ver com uma visão de mundo, com um olhar para o mundo (e se posicionar!). Aí eu me interesso muito com a discussão do transfeminismo, porque acho que ela redefine de forma muito poderosa a noção da mulheridade, de uma forma mais justa, de uma forma mais horizontal, de uma forma mais ambígua, de uma forma mais complexa, o que é esse sujeito do feminismo fora da cisgeneridade compulsória. Ainda leio muitas feministas negras, traduzi por muito tempo Audre Lorde, então li muita coisa dela, aprendi muito com o feminismo lésbico negro socialista dela, mas hoje não estou mais em coletividades, nem negras nem feministas. Entendo que muitas pessoas me consideram feminista mas eu não me considero feminista, porque eu acho que tem alguma coisa que é além da experiência, que é estar envolvida nas coletividades, em projetos coletivos feministas (pra pensar em termos de identidade, não de metodologia). Ainda tenho uma certa desconfiança da disponibilidade de feminismos mais hegemônicos, ou mais comuns, ou mais difundidos, tratarem raça, classe e sexualidade/género de forma séria. Ainda fico muito cansada das retóricas sobre violência serem as mais importantes, sobre violência contra as mulheres entendida como algo cis, hetero e conjugal. Por que o transfeminicídio não é um tema prioritário dentro do feminismo? Sem esquecer que a maioria de mulheres trans assassinadas é negra, o que essa não-prioridade nos diz sobre racismo E transfobia dentro desse feminismo mais difundido? É isso, enfim: uso o feminismo como ferramenta, é uma ferramenta de olhar, ferramenta de análise, ferramenta bibliográfica, mas não tem muito a ver com a minha prática, eu acho que a minha prático como ativista está mais ligada à dissidência sexual mesmo.

L: E o seu ativismo também é cultural, não é? Você tem uma editora, a Padê, organiza a mostra chamada Palavra Preta – Mostra Nacional de Negras Autoras, e, como você falou, faz teoria com a poesia também. Pode falar um pouco das suas ações culturais? 

T: Eu tenho muito acceso por causa da minha palavra, eu sei disso. Então sinto que posso usar isso pra abrir mais espaços para outras pessoas, porque eu tenho muito espaço e no meu espaço cabe muita gente. Então, eu gosto de coletivizar a nossa produção. Além disso, eu acho estratégico enquanto intelectual negra, intelectual lésbica, que a minha palavra não seja solitária. Eu acho que uma das grandes armadilhas do cistema de opressão é criar ídolos e, se a gente se rende a isso, facilmente nós somos apagáveis. A coletividade garante que a gente perdure, que a gente alcance mais, que a gente vá mais longe. Eu acredito muito nisso. E eu faço questão de compartilhar os espaços que tenho. Sou de uma família que é muito generosa, todo mundo compartilha tudo o que tem, quem tem mais dá para quem tem menos. É assim que eu faço as coisas, sempre fiz. Só que no ano passado percebi que isso me coloca num dilema: não tem alguém cuidando de mim, não tem alguém fazendo as minhas produções, e estar produzindo outras pessoas e não poder ter tempo para fazer as minhas produções se torna num autoapagamento dentro da coletividade. Então decidi que vou fazer todas as minhas coisas que estão paradas (lançar livros prontos, gravar um disco, aprender a tocar um instrumento para compor mais). E também entendendo o movimento: se eu sou porque nós somos, nós só somos porque eu sou. Então eu também preciso ser. Não tem nós sem eu, então preciso ser eu, estou aprendendo a ser eu. Acho a Mostra Palavra Preta bem massa, fizemos a quinta edição em São Paulo (pela primeira vez no sudeste, costumava ser no centro-oeste / Brasília, e a primeira foi no nordeste / Salvador). A mostra foi idealizada por Luedji Luna, co-fundada por ela e por mim. Segui na produção (ela focou na carreira, o que estou aprendendo a fazer também). Pela padê, terminando a coleção escrivivências, que é de livros de autoria LBT majoritariamente negra, e já tem 45 títulos lançados (em algum momento de 2019 todos estarão disponíveis para download gratuito na versão .pdf, além de também à venda na versão impressa, no portal www.literatura.lgbt). E depois disso finalizado, meus projetos pra 2019 incluem publicar uma edição bilingue, português-espanhol do meu primeiro livro de contos (“três tigres tortas”, que vai sair pela Martelo, de Goiânia, em agosto); dois ensaios (o “cuírlombismo literário: poesia negra lgbtqi desorbitando o paradigma da dor” já saiu, pela n-1 de são paulo; e vou lançar um outro pela Macondo, de Juiz de Fora); terminar meu romance, estou escrevendo um romance há anos que não consegui terminar ainda. Vou lançar dois livros novos de poesia e vou terminar a gravação de um disco com composições minhas, que tá em fase de produção, já com 5 canções arranjadas por Zé Balbino, de Salvador.

L: E a coleção “Escrivivências” é uma das muitas coleções que tem a Padê?

T: Temos três coleções. Uma de poesia, que se chama Odoyá, em homenagem a Iemanjá. Conseguimos lançar um livro da coleção de teatro, que é uma coleção específica para dramaturgia de teatro, textos sobre teatro, chamada Odara. E tem a escrivivências, que é uma coleção que não é definida por gênero literário como as outras, mas sim com o tipo de livro: livro cartonero, com capa feita de papelão. A maioria dos títulos é de poesia mas tem também teoria acadêmica, prosa, conto, relatos de viagem, dramaturgia. Acho que nossa próxima coleção vai ser a Onira, que é uma homenagem a Iansã, y é uma coleção de prosa, especificamente de contos. A padê, por ser uma editora de livros artesanais (que publica autoars negras / LGBTQIA+), tem um ritmo lento de feitura, com exceção da escrevivências – porque foi a primeir com financiamento externo; fomos selecionadas em edital do Fundo Elas de Desenvolvimento Social, uma financiadora feminista.

L: E em relação com este último ponto, tem alguma outra editora com esse perfil?

T: No Brasil? Não sei. Eu conheço a Zaglossus, na Austria, que é uma editora que eu gosto muito, e uma editora feita por uma sapatão não branca, a família dela é italiana e japonesa, e ela publica feminismo e literatura lgbt mas não é livro artesanal. Conheço editoras negras, hoje no Brasil tem muitas, se eu lembro posso pensar várias (Kuanza, de Cidinha da Silva; Malês; Auá; Ciclo Contínuo; Segundo Selo; Ogun’s Toques; Organismo…). Conheço editoras LGBTQI ou que publicam livros sobre gênero e diversidade sexual (Devires; O sexo da palavra; Hoo).

L: E pensando na questão artesanal, eu me pergunto, no seu livro tem um trabalho com os brancos, e com a letra, que é de máquina de escrever. Qual é a sua idéia de livro artesanal? por que essa concepção de objeto livro?

T: Então, em Buenos Aires você sabe que tem uma editora chamada Eloísa Cartonera né? Em 2015 eu ganhei um livro dessa editora, foi a primeira vez que eu vi um livro de papelão, nunca tinha visto. Foi no mesmo evento em que a Bárbara Esmênia (parceira com quem fundei a Padê) estava aqui em Brasília, eu tinha convidado ela para fazer uma performance. Eu ganhei esse livro e fiquei de cara com o livro de papelão, achei muito impressionante e falei “Véi a gente tem que montar uma editora assim para publicar um monte de sapatão!”. E ela falou, “pô, massa, eu animo”. E aí eu fiz o meu primeiro livro, que eu te falei, ele é um livro cartonero; ela fez o {penetra-fresta}, primeiro da Odoyá, que não é cartonero, e criamos essa coleção exuberante com capa-embrulho. Mas na cole-sã escrevivências voltei às raízes.

L: É mesmo. E a capa é de um desenho feito à mão, que nem os de Eloísa Cartonera?

T: Em esboço é uma gravura, do mesmo gravurista que ilustraria depois lundu,. É o narval, aquele bichinho do mar bem lindo que parece um golfinho-unicórnio. E assim a Padê começou, com o desejo de ser uma editora cartonera. Em algum momento esse desejo foi desvirtuado e virou essa deslumbrança de fazer um livro super extravagante.

L: E no seu livro lundu, qual é a sua concepção do espaço em branco? o livro começa com o branco, e a letra vai aparecendo. 

T: Então, o lundu, , a diagramação dele, é uma maré, é um movimento de maré. Começa com a maré baixa, sobe, e volta para a maré baixa. Então começa com poucas palavras, vai ficando com poemas enormes e os poemas vão diminuindo depois de novo. E a tipografia é a mesma da minha máquina de escrever. No ano 2012 eu tinha um zine datilografado, aí eu achei essa fonte digital e instalei no meu computador.

L: E qual é a sua relação com São Paulo e com a cena de São Paulo, porque a Bárbara Esmênia ela é de São Paulo, não é?

T: É que São Paulo acaba sendo a capital cultural da literatura independente no Brasil. Recebo muitos convites de trabalho desde São Paulo. A minha melhor amiga, Daisy Serena, mora lá, que é uma artista incrível também. É uma relação de trabalho mediada por afetos importantes, a que tenho com SP.

L: E qual é a sua idéia sobre a cena dos saraus?

T: Eu acho os saraus espaços de aprendizagem coletiva e de formação. Eu acho que tem uma pedagogia da poesia que os saraus fortalecem. Os saraus permitem a poesia ser muito pedagógica. Quando você lança o livro, às vezes você não recebe tanto retorno. Eu falo como me comporto nos saraus. Você vai no sarau e um cara fala um poema super machista, ele vai receber várias respostas, não só respostas poéticas. As pessoas vão se reeducando. Os saraus são esses espaços de coletividade sustentados pela palavra, em que a palavra é a principal plataforma, e são espaços de pedagogia mesmo. Eu sou bem “paulofreiriana”, a gente se educa em pares, todo tempo a gente está se educando. Paulo Freire/mamífero. E o sarau é um espaço para isso acontecer, coletivamente. Individualmente o sarau é um espaço para a pessoa que é poeta colocar à prova o seu trabalho, mas também liberar o texto pela palavra. De todas as poetas que eu acompanho, a palavra falada é primordial na construção da poesia delas, tanto porque vai sofrer alteração (na hora de falar você pode falar outra coisa, diferente do que tava escrito – isso acontece muito comigo), quanto por esse retorno, pelas críticas, o que é bem recebido, o que não é bem recebido; a pessoa vai montando a sua trajetória poética, a sua estética, a sua performance. Aí eu acho os saraus bem democráticos, porque qualquer pessoa pode falar qualquer coisa, você pode ler um poema de 5 páginas do Castro Alves, vai ter alguém que vai estar feliz com isso, vai ter alguém que vai aplaudir. Acho que são espaços bem democráticos de compartilhamento da palavra falada, não só de poesia, né? Tem sarau que tem mágica, tem sarau que tem beat-box. São espaços interessantes de compartilhamento artístico, em que a gente pode estar entre pares e receber críticas, elogiosas ou destrutivas, ou transformadoras, ou negativas, mas é um espaço em que a gente se abre para a crítica, pra palavra falada. E acho que o sarau é um lugar em que a palavra realiza a sua função social, que é comunicar para a coletividade. O livro pode ser lindo, maravilhoso, adoro o livro, mas o livro é a palavra morta (ou quase, que frase dramática). O sarau é a palavra viva. 

L: E você frequenta saraus? 

T: Eu frequento os saraus que faço. Pela Padê eu faço um sarau por mês, praticamente; no ano passado eu fiz uns 20 saraus. E frequento saraus negro e/ou lgbt, porque não tenho muita paciência para ficar em sarau misto ouvindo macho branco falar merda. Evito saraus que tem só poesia reclamando, também.

L: O que vc vai fazer o dia 8 de março?

T: De uns anos pra cá tenho me ligado menos no 08 de março, tenho preferido o 29 de agosto, dia da visibilidade lésbica [no Brasil].

A entrevista foi realizada no dia 8 de março de 2019 e publicada no dia da visibilidade lésbica na Argentina quase um ano depois.

Tatiana Nascimento: «Pensar en las disidencias sexuales y de género como parte intrínseca de la cultura de la diáspora negra en Brasil, para mí, tiene que ver con este ejercicio de pensar en la felicidad colectiva y el ejercicio de la libertad. «

Fotografía: Emilia Silbertein

Traducción de Pilar Emitxin

Tatiana Nascimento nació en 1981 en Brasilia, donde reside actualmente. Tiene una licenciatura en Letras de la UnB (Universidad de Brasilia) y un doctorado en Estudios de Traducción en la UFSC (Universidad Federal de Santa Catarina). La autora es poeta, slammer, cantora y compositora. Actúa también en los campos editorial, educativo, cultural y audiovisual.

Su primer libro de 2016 titulado lundu, también celebra el nacimiento de su propia editorial,  Padê editorial. lundu, (disponible para descargar en el sitio web de la editorial) fue una de las publicaciones seleccionadas por el Proyecto Nacional Read Women en la categoría «Mejores libros de 2016». La colección también fue el «Libro del mes» de mayo de 2018 en la edición del proyecto «Lendo Mulheres Negras», en Salvador, y en diciembre de 2017 en la edición de Brasilia.

Tatiana Nascimento publicó su segundo libro de poemas mil994 en 2018, y recientemente publicó 07 notas sobre o apocalipse, ou, poemas para o fim do mundo, de la editorial KZA1 de Río, cuírlombismo literário: poesia negra lgbtqi desorbitando o paradigma da dor, ensayo publicado por la n-1 editora, y um sopro de vida no meio da morte, publicado por Macondo Editora.

Próximamente, algunos poemas de Tatiana Nascimento se publicarán en el libro Quilombo, una antología de autoría negra brasileña organizada por la investigadora Lucía Tennina y editado por la editorial argentina Tinta Limón, y también se publicará la traducción del último libro de la autora por la editorial Mandacarú.

En esta entrevista hablamos sobre su producción, sobre su editorial, sobre la identidad lésbica, sobre la identidad negra, sobre el feminismo, también sobre el mar, sobre el idioma español, sobre los saraus y sobre la gestión colectiva.

L: Lundu, es tu primer libro, ¿no?

T: Es casi el primero. Para lanzar lundu, hice una campaña de financiación para recaudar dinero e imprimir lundu,. La retribución por esta campaña era un libro, imprimí solo 40 copias y vendí 35 (era mi cumpleaños número 35). Su nombre completo era (um) esboço (de lundu), pero yo lo llamo solo esbozo. Es un libro con 35 poemas, mucho menos en comparación con el lundu de ochenta y algo; con la excepción de dos (Exua, insulina), seleccioné algunos poemas del propio lundu, para el esbozo, que es efectivamente mi primer libro, con esta tirada muy pequeña. Tapa de cartón también, con un grabado de Leo Freitas que ilustró el siguiente (que llamo «mi casi primer libro»).

L: Y el libro comienza con una presentación en forma de poema que es la idea del «queerlombismo».

  • marabô pensé (que) vos, (estabas en una) encrucijada (devane(gr)os desde mi cuererlombismo)

¿Cómo definís esta idea?

T: Este término es un viaje etimológico, tiene que ver con la investigación de otras dos personas negras importantes para pensar en la negritud en Brasil. Una es Beatriz Nascimento, historiadora, y el otro es Abdias do Nascimento. Beatriz Nascimento fue la primera historiadora en Brasil en redefinir la idea de «quilombo». Existe una idea tradicional de los quilombos como «agrupación de negros fugitivos», y Beatriz Nascimento, como historiadora que es, del activismo etimológico negro inclusive, fue a las raíces de las historias del continente, explicó la expresión Kilombos, qué significaba en África y lo que querían decir en el primer momento de de la colonización y de la política esclavista, para analizar finalmente en qué se convirtieron en el siglo XVIII, cuando abandonaron este imaginario colonial que los define como un «espacio de negros fugitivos» para volverse ya no una institución o simplemente un lugar de fuga, sino un lugar donde las personas realizaban ejercicios de libertad en el corazón de la esclavitud. Esa es la idea principal, a la que presto mucha atención. Más tarde, Abdias do Nascimento escribió un manifiesto llamado «Quilombismo», un proyecto político para el pueblo brasileño basado en bases afro-negras; para todo el pueblo brasileño basado ​​en la afro-brasilidad y con el objetivo de la felicidad de todos los ciudadanos. Así, la idea de pensar en las producciones literarias contemporáneas de las personas negras lgbtqi como «queerlombismo literario» tiene que ver con el resemantizar ese concepto para definirlo como propio de la disidencia sexual en la diáspora, parte de nuestro legado, de nuestra herencia y, por lo tanto, de la proyección para nuestro futuro. Pensar en las disidencias sexuales y de género como parte intrínseca de la cultura de la diáspora negra en Brasil, para mí, tiene que ver con este ejercicio de pensar en la felicidad colectiva y el ejercicio de la libertad. Y para eso, retomé algunos relatos fundacionales de los pueblos yoruba, los llamados itanos, que vinieron con el tránsito a través del Atlántico o se crearon en el tránsito. Esto es, historias previas a la colonización, o concomitantes con el comienzo de la diáspora; y que narran la transexualidad de orixás, las relaciones lésbicas o gays entre ellxs, disidencias varias con respecto a los patrones binarios de género de la occidentalidad blanca. Con este concepto, defiendo el reconocimiento de la disidencia sexual como propia de la diáspora negra y señalo que en nuestra producción intelectual, especialmente de poesía, que la estudio como un teoría de hecho, bebemos de esta fuente ancestral que piensa en la conexión inseparable entre la negitud y el tortillerismo, el marica, la transexualidad, el travestismo, para construir nuevos caminos para el futuro. Es romper un poco con la forma en que se ha hecho la literatura negra brasileña, porque ¿qué se define como literatura negra? ¿Cuáles son los supuestos de esta literatura? Además de ser negro, ¿qué se espera de estas textualidades? ¿Qué textos se consideran literatura negra? Y así podemos ver que a lo largo de más de 40 años de producción más o menos concentrada, con más autoras y autores publicados, que se habla mucho, aún, de marcadores relacionados con el aspecto de la opresión de la colonialidad, entonces hay mucho retrato del dolor, muchas palabras de denuncia, muchos textos de resistencia. Pero lo que estoy pensando es que esta literatura negra lgbtqi más contemporánea no necesariamente habla de ello, no tiene al dolor como su espacio principal, no tiene como tema principal la denuncia, no se centra en el otro: no es una respuesta a la  colonización. Es un sistema de anuncio de mundos. Entonces estoy estudiando algunas autoras, especialmente Katy Souto, que es de Brasilia, Kika Sena, de Alagoas pero que también vive aquí en Brasilia, Nina Ferreira, de aquí de Brasilia también, para ver que su poesía se está saliendo de los lugares comunes que se esperan de la literatura negra y cómo se escriben otras cosas sobre nosotrxs, dándonos complejidad narrativa. ¿Cómo es que su poesía nos muestra la complejidad narrativa que se permite a todos los pueblos? ¿Por qué se espera que siempre escribamos sobre el dolor, la resistencia, la fuerza y ​​demás? ¿Y cómo es que ya no estamos haciendo exactamente eso?

L: Me di cuenta de que en tu libro, cuando aparece la subjetividad negra del dolor, aparece el sujeto masculino. «brasilia 5.5», por ejemplo

brasilia 5.5

demasiado sucio

demasiado joven

demasiado oscuro

demasiadas heridas en la

piel casi ultimátum

un cuerpo más

en el vagón equivocado

en el siglo equivocado

en el continente equivocado

presencia casi desacato

incomoda demasiado a la policía

a la gente de bien

al ambiente metropolitan chic a

prisa

del

tren

También en la primera parte de este poema:

¡es negro!

es por eso que todoslosdías muere más temprano

incluso si es

a media tarde

en el corazón de la ciudad o en un agujero

en el gueto

[la policía alega alegre: «sospechoso»]

son

las 9 horas & unos tantos m

inhóspitos espacios en el silencio

entre la telenovela y casi la hora de la cena

el camino callejón pasillo yo …

no tenés miedo?

hace ni 3 horas era cometa

corrida

pelota

infancia

ahora me aguanto y paso

rápido

a un ritmo diferente del que estoy acostumbrada

pero ya estoy acostumbrada

nos robaron la noche

pero no es a un asalto a lo que le temo no vi

solo que nunca me acostumbra el ritmo de esta ciudad,

      no

el cielo incluso de noche nunca está oscuro

nadie duerme?

¿Por qué esta masculinidad en estos casos?

T: Quizás olvidaste algo muy importante. La mayoría de los poemas son sobre mí, ¿verdad? lundu, tiene muchos poemas sobre cómo me siento, qué me gusta, cómo veo mi entorno; en esos poemas la subjetividad es mía, por lo que no es masculina: es una lesbiana negra. Quizás hay una minoría de poemas en los que aparece la masculinidad negra cuando me refiero al genocidio negro, por ejemplo, ya que es una política de muerte que viene matando a más hombres negros. Pero son una minoría de poemas en un universo de más de 80. Me pareció muy interesante que los poemas que vos destacaste son precisamente los que obviamente se entienden como poemas de resistencia negra. «brasilia 5.5» fue hecho después de un día en que subí al metro, en el vagón de mujeres, y había un hombre, un mendigo negro, muy pobre, muy sucio, y que estaba herido. Las mujeres estaban muy incómodas con su presencia, pero nadie dijo nada, no le pidieron que saliera del vagón. Aquí suele suceder que un hombre blanco entra al vagón de mujeres, y pocas son las que le dicen que salga, yo suelo decirle que salga; a este tipo no le dije que se fuera porque era negro, pobre y herido. Pero estadísticamente, la mayoría de los poemas van a hablar sobre mí o sobre el mar, creo que hay un tema recurrente que es el mar, y también el mar entendido como ancestralidad negra, porque el mar es Odoiá, Iemanjá, el espíritu del mar, y allí también. Es una subjetividad negra que no es masculina, sino conocida como femenina porque es considerada la madre de todas las cabezas. lundu, es un libro enteramente sobre la negritud, porque fue enteramente escrito por mí. Entonces, tal vez esos poemas que son de denuncia, obviamente de denuncia, tienen personajes negros, pero debe haber solo unos cinco poemas en los que hay un hombre negro en 80 poemas, así que creo que es una minoría.

L: Absolutamente, pero fue por este desequilibrio que me pregunté por qué. También me di cuenta de que tiene una presencia que me afectó particularmente, que es el idioma español, como este poema (las letras en itálicas están originalmente en español en el poema)

fuiste al sur

si tuviese la máquina del tiempo o del espacio

yo volvia hasta asunción dos mil doce, 

para tomar tener un tererê y dormir con vos

(noches sin pesadilla, esta vez).

como el tiempo solo avanza,

voy dormir solita

cosa que es buena, igual

pero sí que vendría bien un tererê con este calorazo.

¿Tiene esto que ver con una cuestión personal o con alguna referencia literaria?

T: Creo que tiene que ver con mi pasión por el Perú, y con mi pasión por el idioma, amo la sonoridad del español. Y esto se junta con un compromiso con la idea de latinidad, Brasil es muy ajeno a esta idea de latinx. Por más que el español sea el idioma del colonizador, es el idioma de la mayoría de las personas colonizadas en el continente, y no el portugués brasileño, ¿verdad? Pero tiene más que ver con la sonoridad, es una pasión fonética, escucho mucha música afrocolombiana. Me encanta, así que termino escribiendo. La presencia de la “y”, especialmente, se refiere al ejercicio al escribir de una materialización de la pronunciación de los conectores de forma oral, que no son «ê», sino «i». Solo que la «y» tiene este doble encanto / doble eficiencia de ser latino y referirse a la sonoridad.

L: Y en tu libro lundu, ¿cuál es tu concepción del espacio en blanco? el libro comienza con blanco y la letra va apareciendo.

T: Entonces, el lundu, su diseño, es una marea, es un movimiento de marea. Comienza con la marea baja, sube y vuelve a la marea baja. Entonces comienza con unas pocas palabras, sigue con grandes poemas y los poemas van disminuyendo después nuevamente. Y la tipografía es la misma que mi máquina de escribir. En 2012 tenía un fanzine dactilografiado, entonces busqué esa fuente en digital y la instalé en mi computadora.

L: Y otra presencia llamativa en el libro es la cuestión del género. ¿Cuál es tu posición en relación con el feminismo? Parece que te posicionás claramente como una mujer, lesbiana, negra, brasileña, en ese sentido, ¿cuál es tu visión sobre el feminismo?

T: No me posiciono como mujer, me posiciono como lesbiana, es mi identidad de género. Ya fui muy feminista, fui feminista durante muchos años, feminista de articulación, de estar en movimientos, de participar en colectivos feministas, me cansé un poco más o menos cuando tenía treinta (hace unos 8 años) de que la retórica del feminismo estuviera muy asociada a la heterosexualidad, de que el feminismo de movimientos fuera hétero. Al mismo tiempo, estaba vinculada al feminismo lésbico, pero lo encontré predominantemente blanco, muchas pautas blancas, y me alejé mucho del feminismo, dejé los colectivos. También creo que el feminismo es una metodología, no solo una forma de vida, no tiene que ver con tu participación en un colectivo o no, puede tener que ver con una visión del mundo, con una mirada al mundo (¡y con posicionarte!). Entonces me interesa mucho la discusión del transfeminismo, porque creo que redefine la noción de “mujeridad” de una manera muy poderosa, de una manera más justa, de una manera más horizontal, de una manera más ambigua, de una manera más compleja, lo que es el sujeto del feminismo por fuera de la cisgeneridad compulsiva. Todavía leo muchas feministas negras, traduje Audre Lorde durante mucho tiempo, luego leí mucho, aprendí mucho con el feminismo lésbico negro socialista de ella, pero hoy ya no estoy en colectivas, ni negras ni feministas. Entiendo que muchas personas me consideran feminista, pero yo no me considero feminista, porque creo que hay algo que está más allá de la experiencia, que es involucrarse en colectivos, en proyectos colectivos feministas (para pensar en términos de identidad, no de metodología). Todavía tengo cierta desconfianza de la disponibilidad de feminismos más hegemónicos, más comunes o más extendidos, para tratar de manera seria la raza, la clase y la sexualidad / género. Aún estoy muy cansada de la retórica sobre la violencia como lo más importante, sobre la violencia contra las mujeres entendida como algo cis, hétero y conyugal. ¿Por qué el transfeminicidio no es un tema prioritario dentro del feminismo? Sin olvidar que la mayoría de las mujeres trans asesinadas son negras, ¿qué nos dice esta no prioridad sobre el racismo y la transfobia dentro de este feminismo más difundido? Eso es todo, de todos modos: uso el feminismo como herramienta, es una herramienta de mirada, herramienta de análisis, herramienta bibliográfica, pero no tiene mucho que ver con mi práctica, creo que mi práctica como activista está más vinculada a la disidencia sexual.

L: Y tu activismo también es cultural, ¿no? Tienes una editora, Padê, organizas la muestra llamada Palavra Preta – Muestra Nacional de Autoras Negras, y, como dijiste, también haces teoría con poesía. ¿Puedes hablar un poco sobre tus acciones culturales?

T: Tengo mucho acceso por mi palabra, lo sé. Así que siento que puedo usar esto para abrir más espacios para otras personas, porque tengo mucho espacio y en mi espacio cabe mucha gente. Entonces, me gusta colectivizar nuestra producción. Además, creo que es estratégico como intelectual negra, intelectual lesbiana, que mi palabra no sea solitaria. Creo que una de las grandes trampas del cistema de opresión es crear ídolos y, si nos rendimos a eso, somos fácilmente borrables. La comunidad nos asegura que aguantemos, que logremos más, que vayamos más lejos. Yo creo mucho en eso. Y me aseguro de compartir los espacios que tengo. Soy de una familia que es muy generosa, todxs comparten todo lo que tienen, quien tiene más se lo da a los que tienen menos. Así es como hago las cosas, siempre lo he hecho. Pero el año pasado me di cuenta de que esto me pone en un dilema: no hay nadie que me cuide, no hay nadie haciendo mis producciones, y estar produciendo a otras personas y no poder tener tiempo para hacer mis producciones se convierte en un autoborramiento dentro de la comunidad. Entonces decidí que voy a hacer todas las cosas que tengo paradas (lanzar libros prefabricados, grabar un disco, aprender a tocar un instrumento para componer más). Y también entendiendo el movimiento: si soy porque somos, solo somos porque soy. Entonces también necesito ser. No hay nosotros sin yo, así que necesito ser yo, estoy aprendiendo a ser yo. Creo que la Mostra Palavra Preta es realmente genial, hicimos la quinta edición en São Paulo (por primera vez en el sureste, solía estar en el centro-oeste / Brasilia, y la primera fue en el noreste / Salvador). El espectáculo fue creado por Luedji Luna, cofundado por ella y por mí. Yo continué en la producción (y ella se centró en su carrera, cosa que también estoy aprendiendo a hacer). Por Padê, estamos finalizando la colección de escrivivências, que son libros de autoría LBT mayoritariamente negra, y que ya tiene 45 títulos lanzados (en algún momento de 2019, todos estarán disponibles para su descarga gratuita en la versión .pdf, además de venderse también en la versión impresa en el portal www.literatura.lgbt). Y después de eso, mis proyectos para 2019 incluyen la publicación de una edición bilingüe, portugués-español de mi primer libro de cuentos («Três Tigres Tortas», que Martelo, en Goiânia, publicará en agosto); dos ensayos (el “cuírlombismo literario: poesía negra lgbtqi desorbitando el paradigma del dolor” ya salieron, a través del n-1 en são paulo; y lanzaré otro a través de Macondo, en Juiz de Fora); terminar mi novela, llevo años escribiendo una novela que aún no he podido terminar. Voy a lanzar dos nuevos libros de poesía y voy a terminar de grabar un disco con mis propias composiciones, que está en la fase de producción, ya con 5 canciones arregladas por Zé Balbino, de Salvador.

L: ¿Y la colección “Escrivivências” es una de las muchas colecciones que tiene Padê?

T: Tenemos tres colecciones. Una de poesía, llamada Odoyá, en honor a Iemanjá. Logramos lanzar un libro de la colección de teatro, que es una colección específica para dramaturgia teatral, textos sobre teatro, llamada Odara. Y está Escrivivências, que es una colección que no está definida por género literario como las demás, sino por el tipo de libro: libro cartonero, con una tapa de cartón. La mayoría de los títulos son de poesía pero también tienen teoría académica, prosa, cuento, historias de viajes, dramaturgia. Creo que nuestra próxima colección será Onira, que es un tributo a Iansã, y es una colección de prosa, específicamente historias. Padê, como editora de libros artesanales (que publica autorxs negrxs / LGBTQIA +), tiene un ritmo lento de fabricación, con la excepción de los Escrivivências, porque fue el primero con fondos externos, nos seleccionaron en un anuncio del Fundo Elas de Desenvolvimento Social, una financiadora feminista.

L: Y en relación con este último punto, ¿hay algún otro editor con este perfil?

T: ¿En Brasil? No sé. Conozco a Zaglossus, en Austria, que es una editorial que me gusta mucho, y una editorial hecha por una torta no blanca, su familia es italiana y japonesa, y publica feminismo y literatura LGBT, pero no es libro artesanal. Conozco editoriales negras, hoy en Brasil hay muchas, si recuerdo, puedo pensar en varias (Kuanza, de Cidinha da Silva; Malês; Auá; Ciclo Continuo; Segundo Selo; Toques de Ogun; Organismo …). Conozco editoriales LGBTQI que publican libros sobre género y diversidad sexual (Devires; El sexo de la palabra; Hoo).

L: Y pensando en el tema de las manualidades, me pregunto, en tu libro tienes un trabajo con los blancos y con las letras, están en una tipografía como de máquina de escribir. ¿Cuál es tu idea de un libro hecho a mano? ¿Por qué este concepto de libro objeto?

T: Bueno, en Buenos Aires ya sabés que hay una editorial llamada Eloísa Cartonera, ¿verdad? En 2015 me regalaron un libro de esta editorial, era la primera vez que veía un libro de cartón, nunca lo había visto. Fue en el mismo evento que Bárbara Esmênia (la socia con quien fundé Padê) estaba aquí en Brasilia, la había invitado a hacer una performance. Me regalaron este libro y topé con el libro de cartón, lo encontré muy impresionante y dije «¡Mirá, tenemos que crear una editorial como esa para publicar a muchas tortas!». Y ella dijo: «Cierto, masa, me animo». Y luego hice mi primer libro, del que te hablé, es un libro cartonero; ella hizo la {penetra-fisura}, la primera de Odoyá, que no es cartonero, y creamos esta exuberante colección con envoltura. Pero en la colección escrevivências volví a las raíces.

L: ¿Y la portada está hecha a mano, como Eloísa Cartonera?

T: En esbozo es un grabado, del mismo grabador que luego ilustraría a lundu. Es el narval, ese insecto marino muy hermoso que se parece a un delfín unicornio. Y así comenzó Padê, con el deseo de ser una editorial cartonera. En algún momento ese deseo se distorsionó y se convirtió en este deslumbramiento de hacer un libro súper extravagante.

L: ¿Y cuál es su relación con São Paulo y con la escena de São Paulo, porque Bárbara Esmênia es de São Paulo, verdad?

T: Es que São Paulo termina siendo la capital cultural de la literatura independiente en Brasil. Recibo muchas invitaciones de trabajo de São Paulo. Mi mejor amiga, Daisy Serena, vive allí, que también es una artista increíble. Es una relación de trabajo mediada por importantes afectos, que tengo con SP.

L: ¿Y cuál es tu idea sobre la escena de las saraus?

T: Considero que los saraus son espacios de aprendizaje colectivo y formación. Creo que hay una pedagogía de la poesía que las saraus fortalecen. Las saraus permiten que la poesía sea muy pedagógica. Cuando publicás un libro, a veces no recibís tantos comentarios. Si vas a la sarau y un chico recita un poema súper machista, recibirá varias respuestas, no solo respuestas poéticas. Las personas se van reeducando. Las saraus son estos espacios de colectividad apoyados por la palabra, en los cuales la palabra es la plataforma principal, y son espacios de pedagogía. Soy muy «paulofreiriana», nos educamos entre pares, todo el tiempo nos estamos educando. Paulo Freire / mamífero. Y el sarau es un espacio para que esto suceda, colectivamente. Individualmente, el sarau es un espacio para que lx poeta ponga a prueba su trabajo, pero también para liberar el texto por la palabra. De todas las poetas que sigo, la palabra hablada es primordial en la construcción de su poesía, tanto porque sufrirá alteraciones (al momento de recitar podés decir algo diferente, diferente de lo que está escrito, esto me sucede mucho), como por esa devolución, por las críticas, lo que es bien recibido, lo que no es bien recibido; la persona va montando su trayectoria poética, su estética, su actuación. Entonces encuentro a los saraus muy democráticos, porque cualquiera puede decir cualquier cosa, podés leer un poema de 5 páginas de Castro Alves que habrá alguien que estará feliz con eso, habrá alguien que aplaudirá. Creo que son espacios muy democráticos para compartir la palabra hablada, no solo poesía, ¿verdad? Hay un sarau que tiene magia, hay un sarau que tiene beat-box. Son espacios interesantes para el intercambio artístico, en los que podemos estar entre pares y recibir críticas, elogiosas o destructivas, o transformadoras, o negativas, pero es un espacio en el que nos abrimos a la crítica, a la palabra hablada. Y creo que el sarau es un lugar donde la palabra cumple su función social, que es comunicarse con la colectividad. El libro puede ser hermoso, maravilloso, me encanta el libro, pero el libro es la palabra muerta (o casi, qué frase tan dramática). El sarau es la palabra viva.

L: ¿Y vas a los saraus?

T: Voy los saraus que hago. A través de Padê hago un sarau al mes, prácticamente; el año pasado hice unos 20. Y voy a saraus negros y / o lgbt, porque no tengo mucha paciencia para quedarme en una sarau mixto escuchando hablar a los hombres blancos. Evito también los saraus en los que solo hay poesías de reclamo.

L: ¿Qué vas a hacer hoy el 8 de marzo? (la entrevista tuvo lugar el 8 de marzo de 2019)

T: Desde hace algunos años me involucro menos con el 8 de marzo, prefiero el 29 de agosto, el día de la visibilidad lésbica [en Brasil].

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