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Fotos: Layane Santos e Julia Oliveira – Elas Fotografando

Nos últimos dias, os meios de comunicação têm noticiado os protestos nos Estados Unidos contra o assassinato de George Floyd, um homem negro americano. Durante vários dias, pessoas negras estão saindo às ruas em franco combate contra o racismo institucional que levou à óbito mais um homem negro. George foi assassinado por um policial branco americano que o sufocou até a morte diante das câmeras. O assassinato de George é mais um caso do modo como pessoas negras são assassinadas todos os dias em vários países. Em 2019, no Brasil, o músico Evaldo Rosa dos Santos foi assassinado com mais de 80 tiros. No mesmo ano, Ághata Vitória Sales Felix, de 08 anos, foi assassinada com um tiro em uma operação policial no Rio de Janeiro. Até setembro, ela era a quinta criança assassinada em operações policiais. Em 2020, antes do assassinato de George, o adolescente negro João Pedro foi assassinado em uma cidade do Estado do Rio de Janeiro. A mão do racismo está presente em todos estes casos. Seja ela implícita porque no processo histórico brasileiro, assim como nos projetos políticos, pessoas negras são postas em diversas margens territoriais e simbólicas; ou explícita porque a mão que atira é fruto de uma lógica colonial que hierarquiza as relações entre quem atira e quem morre. 

Neste mesmo mês, em São Paulo, em um bairro de classe alta, a polícia foi chamada por causa de uma denúncia de violência doméstica praticada por um homem branco daquele lugar. A maneira como este homem recebeu a polícia deu mostras de como a colonialidade está presente nos gestos e nas práticas discursivas. O homem – que faço questão de não nomeá-lo para que seja apenas mais um dentre tantos agressores – desacata os policiais com palavrões, intimidações e constantes demarcações de território pautadas em seu privilégio de raça e classe. Sem constrangimento algum, aciona seu capital social para ameaçar os policiais. Na frente de sua mansão, diz: Você pode ser macho na periferia, mas aqui você é um b* [palavrão]. Aqui é Alphaville, mano”; Eu ganho R$ 300 mil por mês”, “você é um m* [palavrão] de um PM que ganha R$ 1 mil”;“Eu vou te chutar na cara”, “tenho uns 50 caras pra enfrentar você”. O vídeo e as atitudes do agressor revelam muito sobre o modo hierárquico das relações entre classe, raça e gênero se dão no país. Em total posição de servidão, coube aos policiais ouvir todo tipo de desrespeito sobre suas características físicas, econômicas, orientação sexual, territoriais. O policial performa uma tranquilidade e resta a ele, ao final, em uma tentativa de evitar o conflito e promover uma ação mais ostensiva, levantar os dois polegares em sinal resignação. 

Ao compararmos estas atitudes com os gestos desferidos contra as pessoas negras já mencionadas neste texto, vemos que a conclusão óbvia, histórica e exaustivamente discutida e combatida por movimentos negros e de direitos humanos, é a de que o Estado está a serviço de lugares e populações alphavílicas e as populações negras representam uma ameaça que deve ser contida a todo custo. Eu poderia aqui ampliar este ponto às populações mais pobres. No entanto, a grande maioria das\dos negras\os do mundo vive em situação de pobreza. Além disso, já está comprovado que pessoas brancas pobres têm mais oportunidades na construção de seus percursos subjetivos, por exemplo.

Tudo isso já foi, como disse, muito concluído por muitos de nós. Mas eu e muitos também acreditamos que, lamentavelmente, tais situações continuarão ocorrendo porque as estruturas são racistas. Por isso, o ponto de nossas reflexões recai na importância de ver que todas estas situações racistas são tristemente sintomáticas do papel histórico e atual da branquitude na promoção e na manutenção do racismo. Sendo assim, é mais do que chegada a hora de pessoas brancas se depararem seriamente com seus racismos em diversas frentes tão diversas quanto as modalidades de racismos. 

Imagem: Layane Santos e Julia Oliveira – Elas Fotografando

Após ler Memórias da Plantação: episódios de racismos cotidiano de Grada Kilomba e textos de outras autorias negras e de construir percepções pessoais sobre como o racismo é operado por pessoas brancas, creio que aqueles brancos que se colocam como antirracistas, diante de assassinatos como o de George Floyd, devem estudar o que é o racismo, como este opera e como são operadores e mantenedores desta prática estruturante. Estas pessoas devem respeitar a produção de conhecimento, teórica e prática, de pessoas negras, percebendo os modos como invalidam estes conhecimentos. Cotidianamente, é preciso descolonizar, promovendo formas de descolonizar suas mentes, reconhecendo e assumindo seus privilégios para construir entendimentos sobre o quanto que estes são impeditivos naturalizados para pessoas fora do espectro da branquidade. Compreender para agir contra o racismo é dar importância aos relatos de micro e macroagressões. É construir espaços verdadeiramente igualitários. É dizer NÃO à ausência de pessoas negras e pessoas de povos originários e, em paralelo, propor outras práticas. É ter trabalho para pensar sobre os próprios gestos racistas. Por último, é construir frentes epistemológicas sobre seus racismos, implicando-se de mod ocrítico, a todo momento,para pensar nos procesos de construção e perpetuação do racismo e, como consequência, elaborar prácticas antirracistas.

De fato, gostaria de ver muitos trabalhos de pessoas brancas nos quais elas pesquisam sobre como operam para a manutenção do racismo. Isto, ao que me parece, é uma das formas de assumir um lugar de fala sem capturar espaços de pessoas que não têm os mesmos privilégios.Vejo um entusiasmo da academia branca com intelectuais negros e negras. Muitos leem  Franz Fanon, bell hooks, Grada Kilomba, Achile Mbembe e outros, com afinco e dedicação. Produzem textos, teses, livros, falas com estes caminhos epistemológicos. Acho louvável e importante este movimento. Mas é preciso que intelectuais brancos e comprometidos com o combate aos racismos comecem a construir um giro epistemológico pelo qual possam se implicar no processo racista. Quando vejo que Memórias da plantação demorou 10 anos para ser traduzido para a Língua portuguesa, que Ensinando a transgredir, de bell hooks, demorou 26 anos para ser traduzido para o mesmo idioma e que, na década de 80, Lélia Gonzalez já era leitora dos textos de Franz Fanon, por exemplo, penso que pessoas negras utilizaram muito de suas forças para reexistirem ao cubo branco colonizante. 

Quando leio cada um\uma destes\as autores\as sinto dor emocional e física porque é algo conhecido e experienciado das mais diversas formas.  Isto é muito doloroso. Porém, não me sinto só porque o que sinto é legitimado e me proporciona compreender como o racismo funciona. O que nos ajuda a nos libertar por nós mesmos.  Se mesmo com dor e sem privilégios, fomos capazes de reexistir, quebrando diariamente mais partes do cubo branco, é urgente que intelectuais brancos antirracistas e privilegiados também façam um percurso em suas trajetórias racistas e olhem para esta estrutura com bastante implicação. Caso isto gere uma enorme dor, saiba que esta não é um décimo do que passamos todos os dias.

Não adianta se proclamar antirracista se, na prática há uma captura de epistemologias negras. Se as academias continuam hegemonicamente brancas. Se os espaços nos eventos são majoritariamente ocupados por brancos. Se, ao se depararem com uma intelectual negra, continuarem tratando-a como se ela não pertencesse àquele espaço. Se continuam convidando pessoas negras, mas não validam, de fato, os conhecimentos delas. Se desconfiam ou põem em dúvida o que dizem. Se se utilizam da produção intelectual sem dar os devidos créditos e nomes. Se continuam colocando pessoas brancas para falarem em lugar de, ou chamando pessoas negras como se isto fosse um favor ou uma forma de exotização. Se não contribuem para o desenvolvimento acadêmico delas. Se asusam para obterem informações. Se nos tratam como objetos de pesquisa.

Quando Grada Kilomba explica seu método de pesquisa no livro já mencionado neste texto, ela diz que “ser uma pessoa “de dentro” produz uma base, valiosa em pesquisas centradas em sujeitos.”A meu ver, ser intelectual branco antirracista não é chorar de tristeza ou quase culpa porque se deparou com nossas narrativas de sofrimento, ou se defender dizendo que sempre considerou a cultura negra linda. Ser antirracista é, a partir disso, ser capaz de mobilizar todas as suas forças para admitir, compreender e combater o racismo de seu lugar de fala racista. 

A última imagem que me mobilizou para escrever este texto é a de pessoas brancas nos EUA fazendo um escudo para que policiais não atacassem pessoas negras durante os protestos contra o assassinato de George Floyd. Um intelectual que quer se construir como combatente na luta contra o racismo deve se colocar no front da batalha, sem protagonizá-la. Em vez de se sentir confortável em seus espaços, também precisa aprender sobre si mesmo e seu racismo desde epistemes negras e de pessoas dos povos originários. 

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Contribuciones inacabadas para construirse como antirracista

Imagem: Layane Santos e Julia Oliveira de Elas Fotografando
Imagem: Layane Santos e Julia Oliveira – Elas Fotografando

Traducción: Fabiana de Pinho

En los últimos días, los medios de comunicación han informado acerca de las protestas en los Estados Unidos contra el asesinato de George Floyd, un hombre negro estadounidense. A lo largo de varios días, personas negras están saliendo a las calles en franca lucha contra el racismo institucional que llevó a la muerte a un hombre negro más. George fue asesinado por un policía blanco estadounidense que lo ahogó hasta la muerte delante de las cámaras. El asesinato George es un caso más del modo em que personas negras son asesinadas todos los días en varios países. En 2019, en Brasil, el musico Evaldo Rosa dos Santos fue asesinado con más de 80 disparos. En el mismo año, Ághata Vitória Sales Felix, de 8 años, fue asesinada con un disparo en una operación policial en Rio de Janeiro. Hasta septiembre, ella era la quinta niña asesinada en operaciones policiales. En 2020, antes del asesinato de George, el adolescente negro João Pedro fue asesinado en una ciudad del Estado do Rio de Janeiro. 

La mano del racismo está presente en todos estos casos. Sea implícita, porque en el proceso histórico brasileño, así como en los proyectos políticos, lãs personas negras son puestas en diversas márgenes territoriales y simbólicas; o sea explícita, porque la mano que dispara es el fruto de una lógica colonial que jerarquiza las relaciones entre quien dispara y quien muere. 

Este mismo mes, en São Paulo, en un barrio de clase alta, llamaron a la policía debido a un aviso de violencia domestica practicada por un hombre blanco del lugar. El modo como este hombre recibió a la policía dio muestras de como la colonialidad está presente en los gestos y en las prácticas discursivas. El hombre –que insisto en no nombrar para que sea solo uno de los muchos agresores- desafía a la policía con groserías, intimidaciones y constantes demarcaciones territoriales pautadas en su privilegio de raza y clase. Sin ninguna vergüenza, acciona su capital social para amenazar a la policía. Frente a su mansión, dice: “Puedes ser un hombre en la periferia, pero aquí es un b* [grosería]. Aquí es Alphaville, hermano; Yo gano R$300 mil al mes; eres un m* [grosería] de un PM (Policía Militar) que gana R$1 mil”;”le daré una patada en la cara”, “tengo 50 hombres para enfrentarte”. El video y las actitudes del agresor revelan mucho sobre la forma jerárquica de las relaciones entre clase, raza y género en el país. En posición de servidumbre total, la policía tuvo que escuchar todo tipo de falta de respeto sobre sus características físicas, económicas, orientación sexual y territoriales. El policía actúa con tranquilidad y al final, en un intento de evitar conflictos y promover una acción más ostensible, levanta ambos pulgares con resignación. 

Al comparar estas actitudes con los gestos diferidos contra las personas negras ya mencionadas en este texto, vemos que la conclusión obvia, histórica y exhaustivamente discutida y combatida por movimientos negros y de derechos humanos, es que el Estado está al servicio de lugares y poblaciones “alphavilícas” y las poblaciones negras representan una amenaza que debe estar contenida a toda costa. Podría añadir aquí a las poblaciones más pobres. Sin embargo, la gran mayoría de los negros y negras en el mundo vive en la pobreza. Además, ya está comprobado que los blancos pobres tienen más oportunidades de construir sus caminos subjetivos, entre otras cosas. 

A estas conclusiones ya hemos llegado muchos de nosotros. Pero yo y otras muchas creemos también que, desafortunadamente, tales situaciones continuarán ocurriendo porque las estructuras son racistas. Por lo tanto, el punto de nuestras reflexiones radica en la importancia de ver que todas estas situaciones racistas son tristemente sintomáticas del papel histórico y actual de la blanquitud en la promoción y el mantenimiento del racismo. Por lo tanto, ya es hora de que los blancos enfrenten su racismo con seriedad en varios frentes tan diversos como diversas son las modalidades del racismo. 

Fotografía: Layane Santos e Julia Oliveira – Elas Fotografando

Después de leer Recuerdos de Plantaciones: episodios de racismo cotidiano (Traducción libre; PlantationMemories: Episodes of EverydayRacism en la publicación original) de Grada Kilomba y textos de otros autores negros, y de construir percepciones personales sobre cómo el racismo es operado por los\las blancos\as, creo que los\las blancos\as que se hacen pasar por antirracistas deberían estudiar qué es el racismo, cómo funciona, cómo son los operadores y sostenedores de esta práctica estructurante. Estas personas deben respetar la producción de conocimiento, teórica y práctica, de personas negras y de los pueblos originarios, dándose cuenta de las formas en que invalidan estos conocimientos. Cotidianamente, es necesario descolonizar y promover formas de descolonizar sus mentes, asumiendo sus privilegios para construir entendimientos sobre hasta qué punto se trata de impedimentos naturalizados para personas fuera del espectro de la blanquitud. Comprender cómo actuar contra el racismo es dar importancia a los informes de micro y macro agresiones. Es construir espacios verdaderamente igualitarios. Es decir NO a la ausencia de personas negras y personas de los pueblos originarios y, en paralelo, proponer otras prácticas. Es darse El trabajo de pensar en los propios gestos racistas. Finalmente, es construir frentes epistemológicos sobre tu racismo, involucrándote, críticamente, en todo momento, para pensar en los procesos de construcción y perpetuación del racismo y, como consecuencia de ello, elaborar prácticas antirracistas.

De hecho, me gustaría mucho ver trabajos académicos de personas blancas en que investiguen cómo operan para no mantener el racismo. Esto, me parece, es una forma de asumir un lugar de discurso sin capturar espacios de personas que no tienen los mismos privilegios. Veo un entusiasmo de la academia blanca con intelectuales negros y negras. Muchos leen a Franz Fanon, bell hooks, Grada Kilomba, Achille Mbembe y otros, con ahínco y dedicación. Producen textos, tesis, libros, discursos con este camino epistemológico. Este movimiento me parece encomiable e importante. Pero es necesario que los intelectuales blancos y comprometidos con la lucha contra el racismo comiencen a construir un giro epistemológico por el cual puedan compreender las maneras como están involucrados en el proceso racista. Cuando veo que Plantation Memories tardó más de 10 años en ser traducido al portugués, que Enseñando a Transgredir (Teaching to Transgress: Education as thepractice of freedom en la publicación original) tardó 26 años para ser traducido al mismo idioma y que, en la década de 1980, Lélia Gonzalez ya era lectora de los textos de Franz Fanon, creo que los negros y negras usaron mucha de su fuerza para reexistir al cubo blanco colonizador.

Cuando leo cada un/a de estos/as autores/as siento dolor emocional y físico porque es algo conocido y experimentado de muchas maneras diferentes. Esto es muy doloroso. Sin embargo, no me siento sola, porque lo que siento es legítimo y me permite entender cómo funciona el racismo. Lo que nos ayuda a liberarnos por nosotros. Si, incluso con dolor y sin privilegios, pudimos reexistir, rompiendo diariamente más partes del cubo blanco, es urgente que los intelectuales blancos antirracistas y privilegiados también emprendan un viaje en sus trayectorias racistas y miren esta estructura con mucha implicación. Si esto genera un dolor enorme, sepa que esto no es una décima parte de lo que hemos pasado todos los días. 

No sirve de nada, creo, proclamarse antirracista si en la práctica hay una captura de lãs epistemologías negras. Si los espacios en los eventos son mayoritariamente ocupados por blancos. Si, cuando encuentra a una intelectual negra, continúan tratándola como si no perteneciera a aquel espacio. Si continúan invitando a personas negras pero, de hecho, no validan sus conocimientos. Si sospechan o cuestionan lo que dicen. Si usan la producción intelectual sin dar los debidos créditos y nombres. Si continúan poniendo a los\las blancos\as a hablar en lugar de, o llamar a los\las negros\as como si fuera un favor. Si no contribuyen a su desarrollo académico. Si los usan para obtener informaciones. Si nos tratan como objetos de investigación. Cuando Grada Kilomba explica su método de búsqueda en el libro mencionado en este texto, ella dice que “ser una persona ‘desde dentro’ produce una base valiosa en la investigación centrada en sujetos.” En mi opinión, ser antirracista para los intelectuales blancos no es llorar de tristeza o casi culpa porque se encontraron con nuestras narraciones de sufrimiento o defenderse porque siempre consideraron hermosa la cultura negra. Ser antirracista es, a partir de eso, movilizar todas sus fuerzas para admitir, comprender y combatir el racismo, desde tu lugar de discurso racista. La última imagen que me movilizó para escribir este texto es la de los\las blancos\as haciendo un escudo para las personas negras durante las protestas contra el asesinato de George Floyd. Un intelectual que quiere desarrollarse como combatiente en la lucha contra el racismo debe ponerse en el front de la batalla, sin protagonizarla. En lugar de sentirse cómodo en sus espacios, debe aprender sobre sí mismo y su racismo desde las epistemes negras e indígenas.

One thought on “Contribuições inacabadas para construir-se como antirracista”

  1. O texto aborda com profundidade as relações entre racismo, anti-racismo, lugar de fala e racismo estrutural.
    Demarca as posições de privilégio e segregação operadas socialmente através do racismo.
    O caminho é longo, e requer, além do ativismo, muita leitura, conhecimento e auto conhecimento.

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