Imagem: Alice Aguilera

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Em 1989 eu vivia na favela do Macuco, Jardim Zaíra e cidade de Mauá, município que com outros 6 compõe uma parte da região metropolitana de São Paulo conhecida por ser o berço do Partido dos Trabalhadores, da Central Única dos Trabalhadores e das maiores greves operárias que já aconteceram no Brasil. Eu era ainda criança e só sabia da política aquilo que ouvia os adultos dizerem no breve espaço de tempo antes que nos expulsassem, dizendo que não era conversa para nós. Nem pra nós, crianças, nem para as mulheres, já que minha mãe ficava quase sempre preparando frituras que acompanhassem a conversa e a cachaça dos homens – outros pedreiros, funileiros e mecânicos como meu pai. 

Em 1989, na cidade de São Paulo, centro ao redor do qual cidades como a minha giram como mariposas, se elegeu Luiza Erundina, como prefeita, numa eleição histórica que escolheu uma mulher nordestina (1) para o cargo. Foi eleita contra a vontade de Lula e do campo majoritário do PT, que preferia um outro candidato, muito mais moderado na época. 

O mundo era outro em 1989 e embora eu não me lembre de grandes acontecimentos (até meus 17 anos nunca tivemos telefone, nem internet e nem computador) hoje sei que caia um muro, produzindo reverberações que chegariam até nós, atrasadas mas chegariam. Enquanto elas não chegavam, as greves e ocupações de terra criaram força popular suficiente para eleger uma representante de trajetória compartilhada com os representados, desobedecendo a própria estrutura partidária.

Nas eleições seguintes, a mesma São Paulo elegeu como seu prefeito um homem chamado Paulo Maluf, que não se parecia em nada com os pobres que aqui habitam e são maioria. O que teria acontecido durante 4 anos para que uma cidade mudasse bruscamente seu espírito? As eleições são semelhantes à ponta de um Iceberg: elas indicam (por vezes de modo distorcido) movimentações muito maiores e mais profundas que não são tão facilmente visíveis como o número de votos. 

  1. O Estado

A primeira questão a encarar para pensar nas eleições é a questão do estado. Para além de quem ocupa as cadeiras do poder, existe uma estrutura constituída com base na ideia de que é possível a existência de uma instituição que esteja acima dos interesses das diferentes partes e que, de seu lugar, superior e neutro, consiga agir como juiz e benfeitor, garantindo o equilíbrio, a harmonia e as melhores decisões e arranjos sociais. O estado – em tese – não seria expressão nem de um lado e nem de outro, não seria afiliado nem de uma opinião e nem de outra, ele seria uma forma neutra, imparcial e justa. 

Há mais de um século, revolucionários têm denunciado esta ideia acima como uma farsa que oculta o fato de que o estado opera para a manutenção do poder político nas mesmas mãos que concentram o poder econômico. Há bastante tempo também o pensamento crítico tem desmascarado essa ideia de possível neutralidade que se associa diretamente ao pressuposto universal da modernidade que jogou a maior parte da humanidade no apagamento. 

A ideia universal de homem é, na realidade, a descrição do homem branco, heterossexual e colonizador eleita à categoria de existência superior e neutra. A utilização dessa idea para explicar o que é um ser humano  lançou na sub-humanidade todas as mulheres, todas as vidas não brancas, todas as vidas colonizadas e não heterossexuais. O mesmo acontece com a ideia de uma história universal, que sempre foi, na prática, a história dos conquistadores imperialistas, lançando no apagamento todos os mundos que existiam simultaneamente e que foram sendo destruídos pela sanha colonial, patriarcal e capitalista.

Seria então possível que o Estado, ideal de instituição construída a partir dessa pretensão  de universalidade neutra, pudesse servir à nossa emancipação? Esta pergunta não é nova e parece ter animado lutas que tentaram tomar e reformar o estado, transformando sua existência objetiva. Essa tentativa, que tenho a impressão de ter nascido onde a ideia de Estado nasceu, foi matéria prima para processos revolucionários desde a Rússia até… a Nicarágua? Sim, parece que assim como houve uma transposição colonizadora da ideia de estado para cá, para os povos colonizados, também houve uma transposição da crítica a ele formulada como tentativa de tomá-lo “de volta”.

A centralidade dada a esta tentativa tem papel importante na marginalização e apagamento de outras possibilidades de organização do poder, comunitária, não necessariamente representativa, existentes nas histórias de muitos povos (embora apagadas na história universal).  

  1. Os partidos e certa tradição ocidental das lutas

Como a palavra denuncía, partido é a organização dos interesses e projetos de uma parte. Não do todo, não de todos, apenas de uma parte. E lá venho eu com outra constatação antiga. Na teoria produzida pelas lutas que tentaram tomar o estado (seja para reformá-lo ou seja para destruí-lo) um partido não deveria existir apenas nos momentos de eleição. Como organização dos interesses de uma parte, ele deveria existir de modo permanente e poderia ocupar o estado através de eleições ou através da insurreição pelas armas.

O estado – neutro – seria então ocupado por uma parte, por um partido, por um projeto que expressasse os desejos da maior quantidade de pessoas, suas necessidades, sonhos e projetos. Essa era a ideia que justificava a necessidade de um partido de trabalhadores, por exemplo, já que os demais partidos seriam dos patrões, ou seja, expressavam os interesses da outra parte e não daquela a que pertencemos nós, maioria da população.

Ao longo dos anos, no entanto, com muita dor, sofrimento, desilusão, encarceramento, agrotóxico, genocídio, queimadas, feminicídio, fracking e leis anti-terror, nós descobrimos que o nome de um partido não necessariamente diz o que ele realmente representa. Os partidos e projetos foram, assim, cedendo lugar a pessoas, personalidades, vedetes eleitorais nascidas ou requentadas a cada dois anos. 

  1. As eleições

Tomando por base as falsas ideias ocidentais que divulgaram o estado de direitos como sendo a forma de organização política mais avançada de uma sociedade – porque seria neutra, imparcial e justa – também nos aproximamos da falsa ideia de que as eleições são o mecanismo que garante a qualquer um o direito de ser representante; ou a ideia de que os eleitos sejam representação efetiva dos representados. 

Ao longo dos anos descobrimos que os milhões gastos em campanhas eleitorais financiadas pelos ricos, demonstravam que não era verdade que a qualquer um está garantido o direito a votar e ser votado em eleições. Já desde a Grécia, mulheres e escravos não participavam de instituições democráticas; mas falemos de hoje.

No Brasil, as mulheres nunca foram mais do que 15% entre as eleitas ao parlamento, mesmo com o aumento de mulheres candidatas – ocorrido depois que uma lei de 2009 passou a obrigar os partidos a terem um percentual de candidaturas femininas. Historicamente, esquerdas e direitas sempre mantiveram homens como a espinha dorsal de suas estruturas partidárias. Mas não apenas homens, já que descartamos a ideia de homem universal lá em cima: homens brancos. Segundo dados do TSE, nas eleições de 2016 mais 70% dos candidatos a prefeito eram autodeclarados brancos. Homens, brancos, ricos e heterossexuais seguiram arvorando-se o papel de representantes do poder de representadas negras e pobres, inexistentes ou apagadas das estruturas partidárias ou sindicais, seja como figuras públicas ou como participantes de espaços de decisão. Aliás, isso se deu e se dá também nos movimentos sociais, é triste dizer mas é preciso.  

A colonialidade do poder e suas estruturas atravessa todo este país há séculos, na configuração do estado, do regime democrático, do direito, da representação e até daquilo que se reconhece como oposição à ordem estabelecida. 

A colonização se reproduz internamente ao chamado espaço nacional e vivemos vários países dentro do mesmo país e a maior parte deles foi e é extremamente empobrecida pela parte pequena que adotou um modo de vida que só pode existir sugando o suor de milhões de pobres. As relações entre centro e periferia, pra gente periférica como eu, não deixam esquecer disso.

A colonialidade se reproduz no estado constituído de representantes que não se parecem em nada com os representados, que não nos conhecem e que não tomam decisões pressionados pelas mesmas agonias que nós (comer, pagar o aluguel, manter os filhos vivos e manter-se vivas).

Ela se reproduz sempre que não entendemos que só nós mesmas nos representamos e que o nosso projeto ou o nosso programa revolucionário é construído no cotidiano, compartilhado nas práticas e pessoas que salvam as nossas vidas e a dos nossos todos os dias. Esse é o começo de qualquer conversa com quem não trai a própria comunidade.

Eleições 2020 – Pistas sobre independência de classe no campo da representação?

Por tudo o que eu disse acima, já podem intuir que não acredito no estado, esta forma de organização do poder, que talvez seja boa em alguma parte do mundo mas que aqui, em 500 anos, ao que me consta, nunca foi. Podem imaginar também que eu não esteja engajada em construir qualquer legenda. Não acho que as eleições irão resolver as nossas vidas e também não acho que elas devem ser onde gastamos a maior parte da nossa energia e nem onde apostamos as nossas fichas. 

O mundo está colapsando, os animais estão sendo mortos, os rios estão gritando, as florestas sendo incendiadas pelo agronegócio, os povos da terra sendo assassinados e os jovens das periferias sendo presos. Mulheres e crianças estão sendo moídas numa máquina demoníaca que engole vida e cospe dinheiro.  Precisamos arrancar este déspota da cadeira presidencial antes que ele nos mate a todas e extermine nossa gente, a natureza e a nossa comunidade.

Eleições 2020 e as mulheres

Este ano eu vejo um contingente de candidatos, candidatas e candidates que vem de onde eu vim, que me conhecem, a quem eu conheço e que tomam decisões pressionados pelas mesmas agonias que eu (comer, pagar o aluguel, manter os filhos vivos e manter-se vivas). Vários se postulando em candidaturas coletivas, mas não só. A maior parte dessas pessoas não se identifica com as legendas por onde se candidatam: as utilizam, já que não podem ser candidatos autonomamente. São candidates à vereança, já que para os cargos executivos é ainda mais difícil questionar as estruturas coloniais do poder.  

Estas pessoas não representam os homens e mulheres afronidígenas, pobres e periféricas porque elas são mulheres afroindígenas, pobres e periféricas.  A discussão sobre quais decisões tomar pode (não é garantido) estar pressionada pela mesma preocupação: a de manter viva nossa comunidade.

É preciso, no entanto, ter cautela. Não basta viver na pele a experiência da opressão e da exploração: é preciso ter um lado definido na luta contra toda engrenagem que oprime e explora. 

Um exemplo disso são as candidaturas de mulheres declaradamente bolsonaristas – como uma das candidatas à prefeitura da cidade de São Paulo ou como a candidatura coletiva de mulheres trans bolsonaristas à prefeitura de Cariacica (cidade no estado do Espirito Santo). Infelizmente estas mulheres são utilizadas como instrumentos para fortalecer um projeto que vai seguir assassinando, espancando, oprimindo e violentando a maioria de nós.

O movimento de mulheres, o movimento de cultura popular e periférica e o movimento negro têm sido fundamentais para a educação política de gerações, sobretudo depois que as tradicionais organizações classistas passaram a enviar quase toda a sua energia para o campo eleitoral. Também houve uma avançada individualista que acompanhou a expansão neoliberal, é verdade. Mas houve disputa e o rap, nos 90, recuperou do apagamento a nossa cor e o nosso CEP. Foi questionado em seguida pelas lutas das mulheres e com elas recuperamos outro pedaço apagado de nós: nosso gênero. 

Há candidatos e candidatas, negros e negras, indígenas, afroindígenas, trans, mulheres, LGBTQI+, periféricos e periféricas, favelados e faveladas, camponeses, jovens e anciãs. Não acredito no Estado, não estou engajada em nenhuma legenda, mas acredito no compromisso de algumas pessoas. Estas pessoas vivem a vida real da maioria dos pobres desde que nasceram e sabem que se forem eleitas não resolverão coisa alguma sem que nosso povo e nossas comunidades se levantem. 

Nessas candidaturas há algum grau de insubordinação com a narrativa universal. Não querem mais entregar o seu poder a representantes brancos, ricos, cis e heteronormativos. Essa insubordinação precisa ser radicalizada: Precisamos construir a união orgânica das lutas coletivas e cotidianas, nas ruas, nos articular entre nós para produzir conflito e novas possibilidades políticas de ruptura com a velha história. Precisamos derrubar Bolsonaro. 

Que a gente saiba e possa construir o nosso Partido Panteras Negras, o nosso Quilombo de Palmares, a nossa Canudos, o nosso Autogoverno.

(1)  A paulistanía sempre foi preconceituosa com nordestinos. O machismo não é particular de São Paulo.

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Imagen: Alice Aguilera

Elecciones 2020: basta ser mujer? Consideraciones y contribuiciones del periodismo feminista de barrio

Por Helena Silvestre

En 1989 yo vivía en la favela Macuco, barrio Jardim Zaíra en la ciudad de Mauá, municipio que junto con otros 6 forma parte de una región metropolitana de São Paulo conocida por ser la cuna del Partido de los Trabajadores, de la Central Única de los Trabajadores y de las mas grandes huelgas obreras que ya sucedieron en Brasil. Yo era todavía niña y solo sabía de política lo que oía decir  los adultos en el breve espacio de tiempo antes de que nos alejasen, diciendo que no era una conversación para nosotras. Ni para nosotres, niñes, ni para mujeres, ya que mi madre siempre se encargó de las comidas que aconpañaran la conversación y la cachaza de los hombres, otros albañiles, hojalateros y mecánicos como mi padre.

En 1989, en la ciudad de São Paulo, metropole alrededor del cual ciudades como la mía giran como polillas, Luiza Erundina fue elegida alcaldesa, en unas elecciones históricas que eligieron a una mujer, del nordeste, para el cargo (1). Fue elegida en contra de la voluntad de Lula y del campo mayoritario del PT, que queria otro candidato, mucho más moderado en ese momento.

El mundo era diferente en 1989 y aunque no recuerdo hechos importantes (hasta los 17 años nunca tuvimos aceso a teléfono, ni internet ni computadora) hoy sé que se caería un muro, produciendo reverberaciones que nos llegarían tarde pero llegarian. Mientras no llegaron, las huelgas y las ocupaciones de tierras crearon suficiente fuerza popular para elegir una representante con trayectoria compartida con los representados, desobedeciendo la propia estructura del partido.

En las siguientes elecciones, la misma São Paulo eligió como alcalde a un hombre conservador llamado Paulo Maluf, que no se parecía en nada a los pobres que viven aquí y son mayoría. ¿Qué hubiera pasado durante 4 años para que una ciudad cambiara de espíritu abruptamente? Las elecciones son similares a la punta de un iceberg: indican (a veces de manera distorsionada) movimientos mucho más grandes y profundos que no son tan fácilmente visibles como el número de votos.

1. El Estado

La primera cuestión a considerar al pensar en elecciones es la cuestión del estado. Además de quienes ocupan los escaños del poder, existe una estructura basada en la idea de que es posible que una institución esté por encima de los intereses de los diferentes sectores y clases sociales y que, desde su lugar, superior y neutral, pueda actuar como juez y benefactor, velando por el equilibrio, la armonía y los mejores arreglos sociales. El estado – en teoría – no sería una expresión de un lado ni del otro, no estaría afiliado ni a una opinión ni a la otra, sería una forma neutral, imparcial y justa.

Durante más de un siglo, revolucionarios han denunciado esa idea como una farsa que oculta el hecho de que el estado opera para el mantenimiento del poder político en las mismas manos que concentran el poder económico. El pensamiento crítico también ha desenmascarado esta idea de neutralidad durante mucho tiempo,  idea directamente asociada con el supuesto universal de la modernidad que arrojó a la mayor parte de la humanidad en el apagamiento. 

La idea universal de hombre es, en realidad, la descripción del hombre blanco, heterosexual y colonizador elegido a la categoría de existencia superior y neutral. La utilización de esta idea para explicar qué es un ser humano arrojó a todas las mujeres, todas las vidas no blancas, todas las vidas colonizadas y no heterosexuales a la sub-humanidad. Lo mismo ocurre con la idea de una historia universal, que siempre ha sido, en la práctica, la historia de los conquistadores imperialistas, arrojando al olvido todos los mundos que existían simultáneamente y que fueran destruidos por la ambición colonial, patriarcal y capitalista.

¿Sería entonces posible que el Estado, un ideal construido a partir de la pretensión de universalidad neutral, pudiera servir a nuestra emancipación? Esta pregunta no es nueva y parece haber desatado luchas que intentaran tomar y reformar el Estado, transformando su existencia objetiva. Este intento (que tengo la impresión de haber nacido donde nació la idea de Estado) fué materia prima para procesos revolucionarios desde Rusia hasta… ¿Nicaragua? Sí, parece que así como aquí hubo una transposición colonizadora de la idea de Estado, para los pueblos colonizados, también hubo una transposición de la crítica formulada como un intento de “recuperar-lo”.

La centralidad conferida a este intento tiene un roll importante en la marginalización y borramiento de otras posibilidades de organización del poder, comunitaria, no necesariamente representativa, existente en las historias de muchos pueblos (aunque borrado de la historia universal).

2. Partidos y cierta tradición occidental de lucha

Como denuncia la palabra, un partido es la organización de los intereses y proyectos de una parte. No del todo, no de todos, solo de una parte. Y ahí vengo con otra vieja observación. En la teoría producida por las luchas que intentaron apoderarse del Estado (ya sea para reformarlo o para destruirlo), un partido no debe existir solo en los momentos de elección. Como organización de los intereses de una parte, el debería existir permanentemente y podría ocupar el estado mediante elecciones o mediante el levantamento por las armas.

El estado -neutral- sería entonces ocupado por una parte, por un partido, por un proyecto que expresara los deseos del mayor número de personas, sus necesidades, sueños y deseos. Esta fue la idea que justificó la necesidad de un partido obrero, por ejemplo, ya que los otros partidos pertenecerían a los patrones, es decir, expresaban los intereses de otra parte y no de aquella a que pertenecemos nosotres, la mayoría de la población.

Sin embargo, a lo largo de los años, con mucho dolor, sufrimiento, desilusión, encarcelamiento, pesticidas, genocidio, incêndios em los bosques, feminicidio, fracking y leyes antiterroristas, hemos descubierto que el nombre de un partido no necesariamente dice lo que el realmente representa. Las siglas y proyectos dieron paso a personas, personalidades, estrellas electorales nacidas o recalentadas cada dos años.

3. Las elecciones

Sobre la base de las falsas ideas occidentales que publicitaron el estado de los derechos como la forma más avanzada de organización política en una sociedad –porque sería neutral, imparcial y justo– también nos acercamos a la falsa idea de que las elecciones son el mecanismo que supuestamente garantiza a cualquiera el derecho a ser representante ó incluso de que los elegidos sean representación efectiva de los representados.

A lo largo de los años hemos descubierto que los millones gastados en campañas electorales, financiadas por los ricos, demostraron que no es cierto que a todes se le garantice igual derecho a votar y ser votado en las elecciones. Desde Grecia, las mujeres y los esclavos no participaban de las instituciones democráticas; pero hablemos de hoy.

En Brasil, las mujeres nunca superaron el 15% de las elegidas para el parlamento, incluso con el aumento de candidatas, que se produjo después de que una ley de 2009 comenzara a obligar a los partidos a tener un porcentaje de candidatas. Históricamente, izquierdas y derechas siempre han mantenido a los hombres como columna vertebral de sus estructuras partidistas. Pero no solo hombres, ya que descartamos la idea del hombre universal allá arriba: los hombres blancos. Según datos del TSE (2), en las elecciones de 2016 más del 70% de los candidatos a la alcaldía se autoproclamaron blancos (3). Hombres, blancos, ricos y heterosexuales siguieron desempeñando el papel de representantes del poder de representadas negras y pobres, inexistentes o borradas de las estructuras partidistas o sindicales, ya sea como figuras públicas o como participantes en los espacios de toma de decisiones. De hecho, pasó y también pasa en los movimientos sociales, es triste decirlo pero es necesario.

La colonialidad del poder y sus estructuras ha atravesado este país durante siglos, en la configuración del Estado, del régimen democrático, de la ley, de la representación e incluso de lo que se reconoce como oposición al orden establecido.

La colonización se reproduce internamente en el llamado espacio nacional, vivimos en varios países dentro de un mismo país y la mayor parte del estuvo y está sumamente empobrecida por la pequeña parte que adoptó una forma de vida que solo puede existir succionando el sudor de millones de pobres. Las relaciones entre centro y periferia, para personas periféricas como yo, no nos permite olvidar eso.

La colonialidad se reproduce en el estado, conformado por representantes que no se parecen en nada a los representados, que no nos conocen y que no toman decisiones bajo las mismas agonías que nosotres (comer, pagar el alquiler, mantener con vida a les niñes y mantenerse con vida).

Ella se reproduce siempre que no entendemos que solo nosotres representamos a nosotres mismes y que nuestro proyecto o nuestro programa revolucionario se construye a diario, compartido en las prácticas y personas que salvan nuestras vidas y la de nuestra gente todos los días. Este es el comienzo de cualquier conversación con quienes no traicionan a su propia comunidad.

4. Elecciones 2020 – ¿Pistas sobre la independencia de clase en el campo de la representación?

Por todo lo dicho arriba ya se puede intuir que yo no creo en el Estado, esta forma de organización del poder, que hasta puede ser buena en alguna parte del mundo, pero acá, en 500 años, que yo sepa, nunca lo fue. También pueden imaginar que no me dedico a construir ningun partido. No creo que las elecciones vayan a resolver nuestras vidas y no creo que deban ser donde gastamos la mayor parte de nuestra energía o donde apostamos todas nuestras fichas.

El mundo se colapsa, los animales asasinados, los ríos que gritan, los bosques son incendiados por la agroindustria, la gente de la tierra es asesinada y los jóvenes de las periferias son arrestados. Las mujeres y les niñes están siendo molidos en una máquina demoníaca que se traga la vida y escupe dinero. Debemos sacar a este déspota del asiento presidencial antes de que nos mate a todes y acabe con nuestra gente, nuestro pueblo, nuestra comunidad.

Elecciones 2020 y las mujeres

Este año veo un contingente de candidatos y candidatas que vienen de donde vengo, que me conocen, a quienes conozco y que toman decisiones bajo las mismas agonías que yo (comer, pagar el alquiler, mantener vivos a les niñes y mantenerme viva). Varios se postulan en candidaturas colectivas, pero no solo. La mayoría de estas personas no se identifican con los partidos por donde de postulan:  los utilizan, ya que no pueden ser candidates de forma independiente. Son candidates a consejales, ya que para los cargos ejecutivos como la alcaldia, es aún más difícil cuestionar las estructuras coloniales del poder.

Estas personas no representan a hombres y mujeres afro-indígenas, pobres y periféricos. Esas personas son mujeres afro-indígenas, pobres y periféricas. La discusión sobre qué decisiones tomar puede (no es garantizado) estar presionada por la misma preocupación: la de mantener viva nuestra comunidad.

Sin embargo, se necesita precaución. No basta con vivir en la piel la experiencia de la opresión y la explotación: es necesario tener un bando definido en la lucha contra todos los engranajes que oprimen y explotan.

Un ejemplo de ello son las candidaturas de mujeres declaradas bolsonaristas – como una de las candidatas a la alcaldía de la ciudad de São Paulo o como la candidatura colectiva de mujeres trans bolsonaristas a la prefectura de Cariacica (ciudad del estado de Espirito Santo). Lamentablemente, estas mujeres se utilizan como instrumentos para fortalecer un proyecto que seguirá asesinando, golpeando, oprimiendo y violando a la mayoría de nosotras.

El movimiento de mujeres, el movimiento de cultura popular y periférica y el movimiento negro han sido fundamentales para la educación política de generaciones, especialmente después de que las organizaciones tradicionales de clase comenzaron a enviar casi toda su energía al campo electoral. También hubo una avanzada del individualismo tras la expansión neoliberal, es cierto. Pero hubo una disputa y el rap, en los 90, recuperó nuestro color y nuestro lugar del olvido. Luego fue cuestionado por las luchas de las mujeres y con ellas recuperamos otra parte de nosotras que tenian borrado: nuestro género.

Hay candidatos masculinos y femeninos, indígenas, afro-indígenas, trans, mujeres, LGBTQI +, periféricos y periféricos, tugurios y tugurios, campesinos, jóvenes y viejos. No creo en el Estado, no estoy metida en ninguna sigla pero creo en el compromiso de algunas personas. Estas personas viven la vida real de la mayoría de los pobres desde que nacieron y saben que si son elegidos no van a resolver nada sin que nuestra gente y nuestras comunidades se levanten.

En estas candidaturas hay cierto grado de insubordinación con la narrativa universal. Ya no quieren ceder su poder a representantes blancos, ricos, cis y heteronormativos. Esta insubordinación necesita radicalizarse: Necesitamos construir la unión orgánica de luchas colectivas y cotidianas, en las calles, para articularnos entre nosotres para producir conflicto y nuevas posibilidades políticas para romper con la vieja historia. Necesitamos derrocar a Bolsonaro.Que seamos capaces de construir nuestro Partido Panteras Negras (4), nuestro Quilombo de Palmares (5), nuestra Canudos, nuestro Autogobierno.

(1) São Paulo siempre ha tenido prejuicios contra los migrantes del Nordeste. Ya el machismo no es exclusivo de São Paulo.

(2)  Tribunal Superior Electoral de Brasil

(3) https://www.politize.com.br/indice-de-negros-em-cargos-politicos-e-baixo/

(4) Black panter party, organización de la lucha negra y antiracista en Estados Unidos en los 80

(5) Comunidad formada por hombres y mujeres esclavizados fugitivos, en su apogeo constituida por 20 mil habitantes con gobierno y economía propios en el siglo XVII

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