Ir al artículo en español

Suzi Soares é produtora cultural, professora e referência central da cultura das periferias de São Paulo, um dos territórios mais importantes de convulsão cultural nas periferias da América Latina. Juntamente com o seu companheiro de vida, o poeta Binho, é cocriadora do Sarau do Binho, um encontro frequente com o microfone aberto para declamar poesias e realizar outras performances onde nasceram muitos e muitas artistas de grande peso hoje, e é co-organizadora de um número importante de ações culturais relacionadas com Sarau, como a caminhada cultural pela América Latina chamada Donde Miras; um sebo Brechoteca; a Bicicloteca, uma biblioteca itinerante que distribui livros nos bairros periféricos; o projeto Postesía, que consiste em intervir nas placas dos políticos com poesia; o selo editorial Sarau do Binho e a atividade anual Não Matarás nenhum brasileiro, que consiste na distribuição de livros nos pontos de ônibus. Desde 2015, é também organizadora de uma das feiras literárias independentes de grande peso do Brasil, a Felizs, Feira Literária da Zona Sul, encontro que dura duas semanas e onde artistas de renome internacional são postos em diálogo com artistas das periferias do Brasil sob um lema anual diversificado. Suzi também tem o papel de ser um suporte emocional para artistas que lutam contra a corrente ao não responder à ordem de servir e, nma pandemia, esse papel foi intensificado com suas ações autogestionadas para ajudar na distribuição de sacolinhas de comida para seus vizinhos e com campanhas para arrecadar dinheiro para artistas em situações vulneráveis. Nazaret Casto e Lucía Tennina conversavam com ela no meio da pandemia e decidiram compartilhar seus conhecimentos para os leitores da Revista Amazonas.

Amazonas: Gostaríamos de começar ouvindo sobre a sua trajetória pessoal, como é que vc ficou envolvida com o movimento cultural da zona sul 

Suzi Soares: A minha história com esse movimento cultural começou de um susto, por forças ocultas, porque eu era só uma administradora do bar do Binho, praticamente era cozinheira do bar, eu cuidava da comida, de atender o balcão, então no início eu ficava como espectadora da parte cultural, mas sempre acompanhando as maluquices que o Binho inventava. Eu sempre de cara falava que não ia dar certo, que era muita doideira, mas aí no final eu já estava participando e organizando as maluquices dele. A gente teve o bar de lanches praticamente 20 anos. Depois que fecha o bar, eu me vi obrigada a buscar alternativas de sobrevivência financeira, porque nós não tínhamos nenhum outro recurso, e como eu sou uma pessoa da prática, falei “então a gente precisa fazer alguma coisa”. E como foi muito divulgada a história do fechamento do bar na época, porque foi por questões políticas, muitas pessoas se solidarizaram com a gente e aí a gente começou a levar o sarau para instituições que levassem um cachê para a gente se apresentar, porque até então a gente nunca teve essa pretensão de ganhar dinheiro com o sarau, a gente não considerava um trabalho, era o nosso hobby, a nossa distração, e depois disso passa a ser também o nosso trabalho. No meio desse caminho, nesses 20 anos, foram surgindo várias coisas que a gente foi fazendo juntos, que o Binho foi inventando junto com outras pessoas, como Expedición Donde Miras, distribuição de livros, o Não matarás nenhum brasileiro. No bar a gente pagava para as pessoas lerem, porque muita gente falava “eu não gosto de ler”, então “vou pagar para ver se não gosta de ler”, aí a pessoa tinha que ler o livro e no dia do sarau fazia um resumo do livro que ela tinha lido e naquele mesmo dia a gente fazia uma vaquinha entre as pessoas que estavam ali, rifava alguma coisa e esse dinheiro ia para essa pessoa que leu o livro. Teve também a história da Postesia, que o Binho saía recolhendo as placas dos políticos dos postes, aí passava uma tinta, escrevia um poema e depois devolvia pro poste. 

A.: Nesse tempo todo você começou sendo a estrutura desde os bastidores, mas foi ganhando visibilidade. Quando foi que a figura da Suzi foi ganhando visibilidade na zona sul? 

S.: Então, durante muito tempo eu fui a esposa de, mas eu me culpo um pouco por isso também, porque muitas vezes as pessoas queriam me colocar como protagonista e eu meio que esquivava. Aí às vezes as pessoas ligavam, “eu queria falar com o responsável do sarau” e eu já passava a bola para o Binho, eu não me colocava nesse lugar de responsável, de organizadora, eu nunca achava que eu tinha o que falar, sabe? E eu também não gosto muito de ficar aparecendo em entrevistas, em telas, em vídeos, então eu meio que fugia até dessa função. Mas com o passar do tempo, o papel que eu fui desempenhando como produtora, eu deixei de ser a esposa de para virar a produtora do sarau do Binho e aí já tomei um outro papel, porque quando uma pessoa queria falar algumas coisas não adiantava falar com o Binho. Isso foi fazendo com que minha fala aparecesse mais e eu fui aceitando que eu também represento esse grupo, esse trabalho, eu estou nessa história desde que começou. Não é só o Binho que pode contar essa história, eu também posso. Mas às vezes ainda eu fujo, por exemplo a gente organiza a Felizs, que é a Feira Literária da Zona Sul, e no ano passado não tem nenhuma fala minha, porque eu também penso “puxa, todo ano eu vou falar? Todo mundo já conhece essa a minha história aí, ne? ”. Então acho importante também ouvir o que as outras pessoas têm a dizer. Se puder ir alguém no meu lugar, eu prefiro. Porque as vezes eu acho que não tenho muito para falar, eu não sou muito de me aprofundar nas temáticas, a minha experiência de vida é do que eu vivo mesmo. Não é que eu seja uma pessoa ignorante ou inculta, eu estudei, fiz uma faculdade, eu gosto de ler, mas eu sou muito da prática, do dia a dia, da minha vida em casa, dessa coisa da solidariedade, do cuidado, dos amigos, um atendimento do que as pessoas estão precisando. Quando as vezes eu sei de alguém que está precisando de alguma coisa, está passando por uma situação emergencial, aí a minha cabeça faz as conexões “quem podia fazer isso, eu podia pedir para não sei quem que pode pedir para não sei quem”, aí eu já vou acionar a rede que eu tenho na minha cabeça para conseguir ir para a prática e ajudar. 

A.: No documentário do Peu Pereira, Panorama. Arte na Periferia II, tem uma discussão sobre o que é cultura periférica e você fala uma coisa bem interessante: “cultura periférica tem a ver com quem mora nas periferias, que tem um jeito particular de fazer as coisas…”

S.: Eu nasci na periferia, mas eu nunca morei numa favela. Tem muita gente que confunde periferia e favela. Nem toda periferia é favela, e nem toda favela está na periferia, tem favela no centro, ne? Existe uma discussão muito forte sobre essa coisa da cultura periférica, da cultura marginal, e tem gente que não gosta desses dois rótulos, mas também tem gente que não gosta e faz uso dele quando é interessante. Quando “Ah eu vou te chamar para falar sobre cultura periférica e você vai ganhar um bom cachê”, aí aceita. Mas eu acho que podem ser usadas. Marginal porque está à margem das outras coisas, das coisas que a sociedade nos oferece, a gente sempre está à beira, ali, para conseguir as coisas com dificuldades, então a gente está sempre à margem. E periférica porque a gente vive na periferia, ne? Então acho que a pessoa que tem essa vivência na periferia, na hora em que ela vai produzir a sua arte, isso vai representar a sua arte. Se a pessoa não vive isso daqui ela não vai entender o que é que é, não basta fazer um estágio aqui, porque não é você passar aqui dois meses, é o jeito de andar, é o linguajar de a gente, é o jeito de tratar pessoa na rua, de você sair no portão e conversar com o vizinho, sabe? De um açúcar da vizinha que acabou, por mais que essas coisas já mudaram muito, as periferias estão muito violentas, as pessoas em algumas regiões talvez nem saem mais nos seus portões, a não ser na quebrada bem quebrada mesmo que as casas são muito pequenas e as pessoas não tem espaço para ficar dentro de casa, então no dia de calor você passa todo o dia na calçada… 

A.: Mas a cultura acontece na rua, ne? 

S.: Sim, acontece, quando a gente faz as atividades culturais nas praças, nas ruas, a Felizs a gente faz na praça de Campo Limpo, o sarau a gente muitas vezes já fez lá, a gente tem os blocos de carnaval de rua aqui da periferia, e não acontece o que acontece lá no centro, não tem violência, então a gente se sente mais seguro, porque a gente está entre os nossos ali. E quando a gente faz a Felizs a gente também nunca teve uma situação de violência, a gente faz um sarau na praça que é uma praça ocupada por moradores de rua, por usuários de droga, por travestis que trabalham na praça, e eles participam com a gente também.

A: Você é bem reconhecida no bairro então, não é? 

Nesse momento da pandemia eu estou aqui na função de distribuir alimentos na minha casa, arrecadando com os amigos, com as instituições parceiras, e aí eu dou as cestas básicas aqui no meu portão. Eu deixo o portão fechado, as pessoas do outro lado vão me passando os dados para eu fazer uma ficha, um cadastro, e aí eu entrego a cesta e elas vão embora. E aí de repente chegam pessoas que falam “ah, eu conheço você, você não era do bar do Binho? ” Ou “você foi a minha professora” ou “vocês tinham uma biblioteca comunitária”, ela era uma criança quando a gente tinha a Brechoteca e hoje ela já tem dois filhos, marido está desempregado e aí ela veio aqui porque a notícia se espalhou, que eu estou distribuindo as cestas. E aí ela veio buscar ajuda e ela me reconheceu. Então vai acontecendo, quando você está na periferia, vai encontrando as pessoas, ne? A gente tem muitas referências de tempos diferentes da nossa vida de um bar que a gente ficou 20 anos, a distribuição de livros na rua, aí a gente encontra pessoas de todas essas épocas da nossa vida, os alunos das escolas onde a gente já fez o sarau, eles encontram a gente na rua e já nos identificam. 

A.: Qual é a frequência da entrega das cestas básicas? 

S.: Não tem uma frequência estabelecida. Conforme eu vou ganhando, eu vou doando, eu tive dois dias aqui sem nada, que eu zerei meu estoque, e foram dois dias que eu consegui fazer outras coisas em casa, consegui trabalhar, porque eu tenho ficado em função disso, a campainha toca o tempo todo, às vezes também à noite, 10 hs. da noite tem gente tocando a campainha, às vezes eu tenho que falar que às vezes não tenho, talvez chegue amanhã. As vezes eu olho na minha rua e vejo descer um bando de pessoas, nove, dez pessoas, aí eu já sei que estão indo para a minha casa, aí às vezes eu ouço carrinho de feira no meu portão e eu já sei que são as mulheres que vem buscar. 90 % das pessoas que vêm buscar são as mulheres, elas vêm com as crianças no colo, saem daqui com aquele peso todo nas costas, e sempre justificando o motivo de estar pedindo, porque é uma situação em que pessoas que nunca passaram por isso antes, nesse momento elas estão precisando. Às vezes as pessoas até têm um carro, mas elas não têm o que comer dentro de casa, porque do nada ela perdeu toda renda que ela tinha, às vezes ela mora numa boa casa, porém ela está precisando. E várias outras pessoas que vem aqui nessa mesma situação. Então eu não posso julgar pela capa, não é porque uma pessoa chega num carro que ela não está precisando daquele alimento, porque é uma situação diferente do que a gente já viveu na vida inteira. E na maioria das vezes são as mulheres, eu sinto que os homens quando vêm eles têm uma vergonha, porque para eles é uma humilhação muito grande ter que depender da cesta básica. Então quem vem são as mulheres porque elas estão vendo os seus filhos passarem fome, são mulheres, uma boa parte delas, que não tem os seus companheiros mais, tem 3-4 filhos e elas não têm os seus companheiros, elas criam essas crianças sozinhas com uma força, às vezes eu até quero dar mais coisas, e aí eu falo, “mas como você vai levar isso? ” E aí eu vou dependendo da ajuda das pessoas, algumas pessoas trazem as cestas aqui na minha casa, outras depositam dinheiro na minha conta, eu compro os alimentos e monto as cestas e acho até melhor porque essas cestas que eu monto eu consigo diversificar um pouco esses alimentos, porque as cestas básicas vêm muito básicas mesmo (arroz, feijão, olho, macarrão, uma farinha de trigo, um fubá). Conforme vão acabando as cestas, eu vou pedindo. Posto lá no facebook, “estou precisando de alimentos e de fraldas”. E aí as pessoas entram em contato comigo, algumas pessoas vem trazer as coisas, e outras falam que vão depositar dinheiro na minha conta. E eu também falo com as pessoas de ONG´s. Então eu comecei uma coisa pequena que era mais para atender a galera da cultura, a minha intenção inicial era essa, porque eu via que as pessoas iam ficar sem nenhum tipo de recurso, e aí começaram a surgir outras pessoas também necessitadas, e alguma foi falando com o outro, a coisa se espalhou aqui no bairro. Às vezes as pessoas chegam de longe. Tem final de semana que são 30 cestas.

A.: E qual é o critério para a distribuição?

S.: Eu faço um cadastro básico, pego o nome da pessoa, o número de documento, telefone, endereço, pergunto quantas pessoas tem na família, a idade das crianças para ver se alguém precisa de fralda, e eu vou meio por aí, não tenho um fundamento, porque se a pessoa chega na minha porta e fala que ela está precisando eu não posso ficar questionando, especulando a vida da pessoa para saber onde ela mora, por que não está trabalhando, já é uma humilhação para a pessoa ter que vir me pedir, e aí você ficar fazendo perguntas. E muitas vezes eu tenho que tirar foto para poder fazer prestação de contas, porque algumas instituições que doam, eles mandam uma planilha que você tem que pegar uma assinatura, tirar foto, mas têm algumas que são tão burocráticas, que você tem que baixar um aplicativo no seu celular, na hora você tira foto da pessoa e vai direto para eles a foto. Então da um desgaste tão grande que estou recusando essas cestas que são tão burocráticas. Porque é muita humilhação e dá muito trabalho para fazer esse processo todo então eu estou evitando pegar. Daqui a pouco eles vão colocar um chip na cesta para saber onde está indo. Então é uma burocratização da fome num momento tão difícil para essas pessoas. Então quando eu vou pedir, olha, você me desculpa, preciso tirar uma foto, as pessoas não se recusam, mas é um constrangimento para elas, então eu evito ao máximo fazer isso. Eu sinto que cada dia está piorando esta situação, as pessoas que tinham alguma reserva já não têm mais. Eu acho que vai piorar muito, eu vejo amigos que trabalham na área da cultura e estão sem trabalho e não vem nenhuma perspectiva de trabalho a curto prazo, os aluguéis vencendo, são situações inúmeras, é desanimador, é de uma tristeza enorme. 

A.: Você é muito mãe de todo mundo…

S.: Também tem pessoas que falam que eu sou muito centralizadora, e eu estou pensando muito nisso. Eu tenho muito essa coisa de mãe de tentar fazer e resolver, talvez eu devesse delegar mais. Mas na hora de tomar iniciativa, como eu sou muito da prática, às vezes eu prefiro já fazer a ficar distribuindo as tarefas, e tem coisas que como produtora eu tenho que resolver na hora, e tem decisões que não vão gostar a todo mundo, por exemplo eu tenho que escolher quem vou levar para um evento, e as pessoas falam, “ah os queridinhos da Suzi”, mas se eu vou propor uma coisa para o Sesc, vou escolher os que vão fazer um trabalho bom. E eu tenho que escolher. Entram questões como pontualidade e responsabilidade, eu sou muito chata com isso. Ou, se tem dinheiro no meio, eu vou tentar dar esse trabalho a quem eu sei que está precisando mesmo.

A.: Por mais que você faça não vai agradar todo mundo… 

S.: Também tem a questão do dinheiro. Quando tudo era bonito no movimento, o Binho falava: põe um pouquinho de dinheiro nisso que isso vai acabar, e foi assim, começaram as disputas pelas migalhas dos editais. É tudo meio programado para provocar essas disputas. Nos saraus, todo mundo se amava e admirava; mas edital não é de todo mundo. 

A.: Neste momento da pandemia continuam fazendo os saraus, ne? Como é que funcionam? e qual seria a função dentro essa situação dramática?

S.: Logo que começou esta pandemia, nós temos um grupo de WhatsApp dos poetas que acompanham a gente há muito tempo, e todo mundo tinha coisas para falar, todo mundo estava angustiado, então serviu como uma terapia para a gente, uma terapia em grupo, então todo mundo colocando ali as suas dificuldades, as suas angústias, medos, e aí também as pessoas começaram a publicar vídeos, poesias, músicas, e aí eu falei “puxa, a gente podia colocar isso na internet para as outras pessoas verem também”. Foi ali que eu tive uma idéia de lançar uma hashtag #sarauemtemposdecorona, isso foi lá em março, no começo da pandemia, e aí a gente começou a publicar esses vídeos, e as pessoas de outros saraus começaram a mandar, pessoas de outros lugares da cidade, amigos que nem são poetas mandaram vídeos, pessoas de outros países, e a coisa foi crescendo, e eu já vi pessoas que nem conheço e que usaram a hashtag e está lá. E aí a gente começou a fazer apresentações online com todas as dificuldades tecnológicas, a gente não conhecia as ferramentas, fomos atrás de quem pudesse ajudar, e começamos a fazer algumas apresentações online, foi muito legal porque a gente não tinha um grande número de visualizações, mas a gente tinha um número grande e emoções, porque tinham pessoas assistindo, parentes. E pessoas que nunca foram no sarau, como os pais, que assistiam seus filhos que estavam distantes. Isso de poder aproximar o que está distante, de a gente poder convidar pessoas que estavam longe para poder participar do sarau. A gente viveu momentos muito emocionantes nesses saraus online, e a gente fez na seqüência vários saraus porque a gente tinha uma programação que cumprir da secretaria de cultura de uma contratação que tinha sido feita em janeiro e a gente achou que nem ia fazer mais e aí eles possibilitaram que a gente fizesse online. Qualquer pessoa pode participar, e essa é uma grande vantagem das atividades online. 

A.: A violência contra juventude preta tem sido muito importante nos saraus. Como se vivencia essa situação agora durante a pandemia?

S.: A gente optou aqui em casa por não ter televisão, a gente não assiste os noticiários, fui uma escolha, eu preferi sobreviver, mas a gente vê nas redes sociais, todo dia um jovem sendo morto pela policia nas periferias de Brasil, quase 99% é jovem negro, muitas vezes crianças, sem nenhum motivo, é uma policia assassina, com o aval do estado, então eu não sei mais pra onde a gente vai parar, parece que a gente voltou vários anos atrás, as pessoas assumem seu fascismo e nazismo e tudo bem, uma pessoa pode falar qualquer coisa e não vai ter punição. A gente tenta a traves da cultura, quando a gente vai às escolas, a traves da poesia, da música, a gente tenta fazer essa abordagem nas escolas, a gente chega à escola e leva a traves da poesia essas temáticas, o aluno se atenta mais para isso e quer entender melhor, tem um artista angolano aqui morando com a gente, Ermi Panzo, ele participou de uma aula online, e ele falou quanto a aula foi importante na vida dele porque conseguiu abordar a questão do racismo, entrou na cabeça dele de um outro jeito. Com sarau pode chegar mais fácil do que nas aulas. Quando eu era professora eu dava aula de inglês e, a maioria dos dias, eu pensava, o que eu estou fazendo ensinando uma língua estrangeira para alunos que estão passando fome, que não tem livro? Quando eu via situações de racismo, homofobia nas aulas, eu parava tudo, eu falava: agora vamos falar de “lições de vida”. Tem alunos que até hoje me encontra e fala: “a professora das lições de vida”. Tinha alunos que queriam se matar. Aí eu parava tudo. A gente chorava demais nas aulas com aquelas historias deles. Quando podia entrar com eles na livraria, eu falava para eles pegar um livro, acho que roubar livros, Deus perdoa.

A.: Como você percebe esse renascimento do feminismo, esses discursos que começaram a aparecer dentro dos saraus, das escolas?

S.: Confesso que eu tenho muito a aprender ainda com essa nova geração feminista, na minha geração a gente vê de outro jeito, tem coisas que eu não vejo como machismo, também eu não vivi situações de violência, eu vou fazer 54 anos, eu estou com Binho há 37 anos, eu não tive muitas oportunidades de viver violência, sempre foi respeito e carinho, mas tem vezes que as pessoas falam que o Binho está sendo machista, mas isso não me machuca. O fato, por exemplo, de eu lavar ou fazer almoço. Mas a minha filha fala, “Mae, vou te dar uns textos para você ler”. Porque o que eu não considero machismo, ou acho exagerado, porque acho que tem coisas que estão dividindo as pessoas e eu nem quero falar porque as mulheres podem me crucificar. Eu não gosto de ver ninguém desrespeitado, mas tenho muito a aprender. 

A.: E como é que isso está afetando aos saraus?

S.: Os saraus mudaram muito. Você tem que ponderar o que fala, questões de homofobia, gordofobia, racismo, machismo. São coisas sutis. Uma vez o Binho foi apontado como machista porque ele fez um comentário sobre o uso de produtos de maquilagem e perfumes, que são muito carregados de hormônio masculino e não seria bom para as mulheres usarem porque poderiam prejudicar a fertilidade, e uma menina já tomo isso como machismo: quem disse que o mais importante para uma mulher é ter filhos? Mas não era isso o que ele queria dizer. O jeito de como as pessoas ouvem as coisas é muito diferente. Às vezes nos saraus você até fica travado, tem que cuidar o tempo todo da sua fala para não ofender ninguém. E um período de transição e ainda estamos em mudança. Para vocês é muito mais fácil, mas a gente está reaprendendo, renascendo.

A.: Muitas mulheres, nos saraus, começaram a falar as poesias delas…

S.: Desde que a gente começou os saraus sempre teve mais homens do que mulheres, ainda é assim, é difícil ter paridade. Mas quando a gente faz a Felizs, a gente vai montar uma mesa e a gente sempre tem a preocupação, que tenha pessoas negras, mulheres, trazer a diversidade, mas nem sempre é possível. Antigamente não se pensava nisso. O primeiro filme Panorama. Arte na periferia que o Peu fez, dez anos atrás, teve duas ou três mulheres, ninguém comentou isso naquela época. Agora, quando ele fez o outro, já cobraram a paridade e ele teve essa preocupação. A gente sabe que essa mudança é muito nova, cinco anos para cá. A gente está aprendendo muito. As mulheres dos saraus começaram a produzir e falar mais, e elas começaram a falar outros temas que já não são romance ou filhos. Surgiram mais mulheres, uma literatura que está surgindo. Elas estão despontando e a gente tem que dar o espaço para que elas possam se colocar. 

A: No documentário do Peu, se toca essa questão de como a cultura periférica que os saraus representam, chegou ao centro. Tem o risco do centro se apropriar dessa cultura?

S.: A gente vê grupos que estão fazendo isso, pessoas que não são daqui e falam periferia, mas também muitas pessoas que vem para acrescentar. Tem alguns grupos que não abrem as portas. Mas no nosso caso, isso sempre acrescentou, a gente nunca se arrependeu. Mas a gente vê esses que usam o nome da favela e confundem com favela, e usam para poder vender. Tem gente também que se apropria do nome periferia sendo da periferia, para crescer na vida.

A.: E, para terminar: como você vê o horizonte da cultura periférica nesse difícil contexto da pandemia?

S.: Nesse momento, o horizonte é comer, mais para frente ninguém sabe o que pode acontecer. Quem tinha trabalho agendado, todo cancelado. Muitos vão ter que partir para um trabalho formal, não vai ter como viver da arte, a arte vai ser o último que vai voltar à normalidade, então nossas perspectivas são muito difíceis, já era difícil, mas a gente ia conseguindo, mas agora, quem tem que pagar aluguel e sustentar uma família, vão ter que procurar outro trabalho. Eu sou muito privilegiada porque a gente tem uma casa própria, a gente não tem dividas, a gente pode tomar sol nessa casa, nossa filha está criada. Mas a maioria das pessoas, lascadas. Quem paga aluguel está fodido. Não consigo vislumbrar alguma coisa positiva no próximo ano ou dois anos. 

.

Suzi Soares, la “maestra de las lecciones de vida”

Por Lucía Tennina y Nazaret Castro

Traducción: Larissa Bontempi

Suzi Soares es productora cultural, docente y una referencia central de la cultura de las periferias de São Paulo, uno de los territorios más importantes de agitación cultural de las periferias de América Latina. Es cocreadora, junto a su compañero de vida, el poeta Binho, del Sarau do Binho, un encuentro frecuente a micrófono abierto para declamar poesías y realizar otras performances donde nacieron muchos y muchas artistas de gran peso hoy en día y es coorganizadora de una importante cantidad de acciones culturales ligadas al Sarau, como la caminata cultural por América Latina llamada Donde Miras, la tienda americana de libros llamada Brechoteca, la Bicicloteca, una biblioteca ambulante que anda repartiendo libros por los barrios periféricos, el proyecto Postesía, que consiste en intervenir las placas de los políticos con poesías, el sello editorial Sarau do Binho y la actividad anual Não matarás nenhum brasileiro que consiste en la distribución de libros en las paradas del colectivo. Desde el año 2015, también es organizadora de una de las ferias literarias independientes de gran peso en Brasil, la Felizs, Feria Literaria de la Zona Sur, un encuentro que dura dos semanas y donde se ponen en diálogo artistas reconocidos internacionalmente con artistas de las periferias de Brasil bajo una consigna anual diversa. El papel de Suzi es, también, el de ser un sostén afectivo para los y las artistas que luchan contra la corriente por no responder al mandato de servir y, en pandemia, ese papel se intensificó con sus acciones autogestionadas para ayudar con el reparto de bolsas de alimentos a sus vecinos y vecinas y con campañas para juntar dinero para lxs artistas en situación de vulnerabilidad. Nazaret Casto y Lucía Tennina estuvieron dialogando con ella en plena pandemia y decidieron compartir sus saberes para lxs lectorxs de Revista Amazonas.

Amazonas: Nos gustaría comenzar escuchando sobre su trayectoria personal, cómo te involucraste con el movimiento cultural en la zona sur.

Suzi Soares: Mi historia con este movimiento cultural partió de un susto, por fuerzas ocultas, porque yo solo era gerente en el bar de Binho. Era prácticamente cocinera en el bar, me ocupaba de la comida, atendía en el mostrador, así que al principio era espectadora de la parte cultural, pero siempre siguiendo las locuras que inventaba Binho. Siempre le decía que no iba a funcionar, que era una locura, pero al final ya estaba participando y organizando sus locuras. Tuvimos el bar durante casi 20 años. Después de cerrar el bar, me vi obligada a buscar alternativas para la supervivencia financiera, porque no teníamos otros recursos, y como soy una persona práctica, dije: “entonces tenemos que hacer algo”. Y como la historia del cierre del bar en ese momento fue ampliamente difundida, porque fue por razones políticas, mucha gente se solidarizó con nosotros y luego comenzamos a llevar el sarau a instituciones que nos traían una tarifa para actuar, porque aun así nunca tuvimos esta intención de ganar dinero con el sarau, no lo consideramos un trabajo, era nuestro hobby, nuestra distracción, y después de eso también se convierte en nuestro trabajo. En medio de este camino, en estos 20 años, han surgido varias cosas que hemos estado haciendo juntos, que Binho ha ido inventando junto a otras personas, como Expedición Donde Miras, distribución de libros, Não matarás nenhum brasileiro. En el bar pagábamos para que la gente leyera, porque mucha gente decía “No me gusta leer”, así que nosotros decíamos, “Pagaré para ver si no te gusta leer”, y entonces la persona tenía que leer el libro y en el día del sarau hacía un resumen del libro que había leído. En ese mismo día hacíamos un bote entre las personas que estaban allí, hacíamos un sorteo con algo y le dábamos ese dinero a la persona que había leído el libro. También estaba la historia de Postesia, que Binho recogía las placas de los políticos de los postes, las pintaba, escribía un poema y la ponía de vuelta en el poste.

A.: En todo este tiempo empezaste a ser la estructura desde bastidores, pero después fuiste haciéndote más conocida. ¿En qué momento ganó visibilidad la figura de Suzi en la zona sur?

S.: Bueno, durante mucho tiempo fui “la esposa de”, pero también me siento responsable por eso, porque muchas veces la gente quiso ponerme como protagonista y yo lo evité. Entonces, a veces la gente llegaba y decía “quiero hablar con el responsable del sarau” y de inmediato le pasaba la palabra a Binho, no me ponía en ese lugar de ser responsable, organizar, nunca pensé que tenía algo que decir. ¿Sabes? Tampoco me gusta aparecer en entrevistas, en pantallas, en videos, así que evité ese rol. Pero con el tiempo, al actuar como productora, dejé de ser la esposa para convertirme en la productora del sarau de Binho y luego ya tomé otro rol, porque cuando una persona quería decir algunas cosas no tenía sentido hablar con Binho. Esto hizo que se viera más mi discurso y acepté que también represento a este grupo, este trabajo, he estado en esta historia desde que empezó. No solo Binho puede contar esta historia, yo también puedo. Pero a veces sigo huyendo, por ejemplo, organizamos Felizs, que es la Feria Literaria de la Zona Sur, y el año pasado no hubo discurso mío, porque también pienso “¿por qué hablo todos los años? Todos ya conocen mi historia allí”. Por eso creo que también es importante escuchar lo que otras personas tienen que decir. Si alguien puede ir en mi lugar, prefiero. Porque a veces pienso que no tengo mucho de qué hablar, no tengo mucho para profundizar en los temas. De hecho, mi experiencia de vida es lo que vivo. No es que sea una persona ignorante o inculta, estudié, fui a la universidad, me gusta leer, pero soy muy práctica, del día a día, de mi vida en casa, de la solidaridad, del cuidado, de los amigos, de la atención que la gente necesita. Cuando a veces sé que alguien necesita algo, está pasando por una situación de emergencia, entonces mi cabeza hace las conexiones “quién podría hacer esto, yo podría pedirle a no sé quién, qué podría pedirle a no sé quién más”, y así activo a la red que tengo en mi cabeza para poner en práctica y ayudar.

A.: En el documental de Peu Pereira, Panorama. Arte na Periferia II, hay una discusión sobre qué es la cultura periférica y dices algo muy interesante: “la cultura periférica tiene que ver con los que viven en la periferia, que tienen una forma particular de hacer las cosas …”

S.: Nací en la periferia, pero nunca viví en una favela. Hay mucha gente que confunde lo que es la periferia y la favela. No todas las periferias son favelas, y tampoco todas las favelas están en la periferia, hay favelas en el centro, ¿verdad? Hay una discusión muy fuerte sobre esta cultura periférica, cultura marginal, y hay gente a la que no le gustan estas dos etiquetas, pero también hay gente a la que no le gusta y la usa cuando es interesante. Cuando le dicen “Ah, te voy a llamar para hablar sobre la cultura periférica y vas a recibir un buen dinero”, entonces aceptan. Pero creo que se pueden usar. Marginal porque está al margen de otras cosas, de las cosas que la sociedad nos ofrece, siempre estamos al borde, ahí, de lograr cosas con dificultades, por eso siempre estamos al margen. Y periférico porque vivimos en la periferia, ¿no? Por eso creo que la persona que tiene esta experiencia en la periferia, en el momento en que produce su arte, eso está representado en su arte. Si la persona no vive esto, no entiende lo que es, no basta con pasar por acá, porque no es el hecho de que estés dos meses acá: es la forma de caminar, es el lenguaje, es la forma en que tratan a la gente en la calle, sales a la puerta y hablas con el vecino. De un azúcar de la vecina que se terminó, pese que estas cosas ya hayan cambiado mucho, las periferias son muy violentas, la gente de algunas zonas ni siquiera puede salir a sus portones, salvo en la periferia de la periferia, donde las casas son muy pequeñas y la gente no tiene espacio para quedarse en el interior, por lo que en un día caluroso pasan todo el día en la vereda…

A.: Pero la cultura sucede en las calles, ¿no? 

S.: Sí, pasa, cuando hacemos las actividades culturales en las plazas, en las calles, Felizs ocurre en la plaza Campo Limpo, el sarau hemos hecho muchas veces allí, tenemos los grupos de carnaval de las calles de la periferia, y no ocurre lo que ocurre en el centro, no hay violencia, entonces nos sentimos más seguros, porque estamos entre los nuestros. Y cuando hacemos Felizs tampoco nunca tuvimos una situación de violencia, hacemos un sarau en la plaza, que es una plaza ocupada por personas que viven en la calle, drogadictos, travestis que trabajan en la plaza, y ellos también participan con nosotros.

A: Entonces, eres bastante reconocida en el barrio, ¿no? 

S.: En este momento de la pandemia, estoy aquí para distribuir comida en mi casa, recogiendo con amigos, con instituciones asociadas, y doy las canastas básicas aquí en mi puerta. Dejo el portón cerrado, la gente del otro lado me pasa los datos para que haga un formulario, un registro, y luego entrego la canasta y se van. Y de repente, la gente viene y dice “oh, te conozco, ¿no eras del bar de Binho?”, o “eras mi maestra” o “tenías una biblioteca comunitaria” — ella era una niña cuando teníamos Brechoteca y hoy ya tiene dos hijos, su marido está desempleado y vino aquí porque se difundió la noticia de que estoy distribuyendo las canastas. Vino a buscar ayuda y me reconoció. Y así pasa, cuando estás en la periferia, vas encontrando a las personas, ¿no? La gente tiene muchas referencias de tiempos distintos de mi vida en un bar donde me quedé 20 años, de la distribución de libros en la calle, entonces encuentro a personas de todas esas épocas de mi vida, los alumnos de las escuelas donde hicimos el sarau, me encuentran en la calle y nos identifican.

A.: ¿Cuál es la frecuencia de entrega de las canastas básicas? 

S.: No hay una frecuencia preestablecida. En la medida que gano, dono. Estuve dos días sin nada, en los que vacié mi stock, y fueron dos días que logré hacer otras cosas en casa, pude trabajar. El timbre sonaba todo el tiempo, a veces también de noche, a las 10. A a veces tengo que decir que no tengo, quizás llegue mañana. A veces miro en mi calle y veo bajar un montón de gente, nueve, diez personas, luego ya sé que van a mi casa; a veces escucho un carrito de compras en mi puerta y ya sé que son las mujeres que vienen a buscar. El 90% de las personas que vienen a recogerlo son mujeres, vienen con los niños alzados, se van de aquí con todo ese peso en la espalda, y siempre justificando el motivo estar pidiendo, porque es una situación en la que mucha gente no había estado antes, y ahora lo necesitan. A veces la gente incluso tiene auto, pero no tienen nada para comer en casa, porque de la nada perdieron toda la renta que tenían, a veces vive en una buena casa, pero lo necesita. Y varias otras personas que vienen aquí en la misma situación. Por eso no puedo juzgar por la portada, no es porque una persona llega en un auto que no necesita esa comida, porque es una situación diferente a la que hemos vivido en toda nuestra vida. Y la mayoría de las veces son las mujeres, siento que los hombres cuando vienen se avergüenzan, porque para ellos es una gran humillación tener que depender de la canasta básica. Entonces las mujeres vienen porque están viendo a sus hijos pasar hambre, son mujeres que ya no tienen pareja, tienen 3-4 hijos y no tienen pareja, crían estos niños solos con una fuerza, a veces hasta quiero darles más cosas, y digo “pero ¿cómo te vas a llevar todo eso?” Y dependo de la ayuda de la gente, algunas personas traen las canastas hasta en mi casa, otras depositan dinero en mi cuenta, yo compro la comida y armo las canastas, pienso que es aún mejor así porque estas canastas que armo yo se puede diversificar un poco los alimentos, porque las canastas básicas son muy básicas (arroz, porotos, aceite, pasta, harina de trigo, harina de maíz). Cuando se terminan las canastas, pido más. Publico en Facebook: “necesito alimento y pañales”, y las personas me contactan. Algunas traen cosas, otras me depositan dinero en la cuenta. También hablo con personas de ONGs. Empecé algo que era pequeño, que era para atender a la gente de la cultura. Esa era mi intención inicial, porque veía que las personas se iban a quedar sin ningún recurso, y empezaron a surgir otras personas también necesitadas. De a poco, uno le dijo a otro, la cosa se difundió en el barrio. A veces, las personas vienen desde lejos. Hay fines de semana en los que enterrego 30 canastas.

A.: ¿Y cuál es el criterio para la distribución?

S.: Hago un registro básico con el nombre, el número de documento, teléfono, dirección, pregunto cuántas personas son en la familia, la edad de los niños a ver si necesitan pañales, y así sigo, no tengo un criterio, porque si la persona llega a mi puerta y dice que necesita, no puedo cuestionar, ni suponer sobre la vida de la persona para saber dónde vive o porque no está trabajando; ya es una humillación para la persona tener que venir a pedir, y encima empezar a hacerle preguntas… Muchas veces tengo que sacar fotos para prestar cuentas, porque algunas instituciones que donan, envían una planilla en la que tengo que poner la firma  y sacar fotos, pero otras no son tan burocráticas, tienes que bajar la aplicación en el celular, sacar las fotos y enviar directamente a la institución. Es tan cansador que no estoy aceptando las canastas muy burocráticas. Porque es muy humillante y da mucho trabajo hacer todo el proceso. Después van a empezar a ponerle chips a las canastas para saber a donde van. Es una burocratización del hambre en un momento tan difícil para esas personas. Por eso, cuando les digo que necesito sacarles una foto, la gente no se niega, pero les causa malestar, por eso lo evito lo máximo que puedo. A cada día siento que la situación está empeorando, las personas que tenían alguna reserva, ya no tienen más. Creo que va a empeorar mucho, veo amigos que trabajan en el área de la cultura y están sin trabajo, no ven ninguna perspectiva de trabajo a corto plazo, los alquileres se están venciendo, son muchas situaciones, es desalentador, es una tristeza enorme.

A.: Eres como la madre de todos…

S.: También hay personas que dicen que soy muy centralizadora, y he estado pensando mucho en eso. Tengo mucho esa cosa de madre, de hacer y resolver. Tal vez tendría que delegar más. Pero cuando se necesita iniciativa, como soy una persona muy práctica, a veces prefiero hacer yo misma que distribuir tareas. Hay cosas que, como productora, tengo que resolver en el momento, y hay decisiones que no le van a agradar a todos. Por ejemplo, tengo que elegir quien voy a llevar a un evento, y hay quien ya habla de “los favoritos de Suzi”, pero si propongo algo para el Sesc, por ejemplo, elijo a quienes sé que hacen un buen trabajo. Tengo que elegir. Entran temas como puntualidad y responsabilidad, soy muy exigente con eso. O, si hay dinero en el medio, intento dar el trabajo a quien sé que lo necesita.

A.: Y, por más que hagas, no vas a agradar a todos… 

S.: También está el tema del dinero. Cuando todo era lindo em el movimiento, Binho decía: “ponle un poco de dinero a esto, que se va a terminar”, y así empezaron las competiciones por las migajas que comenzaron a llegar con los concursos públicos. Todo está programado para provocar las disputas. En los saraus, todos se amaban y admiraban, pero la plata no llega para todos. 

A.: Em este momento de la pandemia, siguen haciendo los saraus, ¿no? ¿Como funcionan? ¿Cuál es el rol dentro de esta situación dramática?

S.: Al comienzo de esta pandemia, teníamos un grupo de poetas de WhatsApp que llevan mucho tiempo con nosotros, y todos tenían cosas de qué hablar, todos estaban angustiados, así que nos sirvió de terapia, una terapia de grupo. Entonces todos ponían sus dificultades, angustias y miedos ahí, y luego la gente empezó a publicar videos, poesía, canciones, y dije “wow, podríamos poner esto en Internet para que otras personas también lo vean”. Fue en ese entonces que tuve la idea de lanzar el hashtag #sarauemtemposdecorona. Eso fue en marzo, al comienzo de la pandemia, y luego comenzamos a publicar estos videos, y la gente de otros saraus empezó a enviarlos a otras personas de otras zonas de la ciudad, amigos que ni siquiera son poetas enviaron videos, gente de otros países, y la cosa fue creciendo, y he visto gente que ni siquiera conozco y que usaba el hashtag y ahí está. Después, comenzamos a hacer presentaciones en línea con todas las dificultades tecnológicas, no conocíamos las herramientas, así que buscamos a cualquiera que pudiera ayudar, y comenzamos a hacer algunas presentaciones, fue realmente genial porque no teníamos una gran cantidad de visualizaciones, pero teníamos un gran número y emociones, porque había gente mirando, familiares. Y gente que nunca había ido al sarau, como sus padres, que miraban a sus hijos que estaban lejos. Eso de poder acercarse a lo lejano, de poder invitar a personas que estaban lejos para participar. Vivimos momentos muy emocionantes con estos saraus online, y después hicimos varios eventos porque teníamos una programación que teníamos que cumplir con la Secretaría de Cultura de una contratación que se había hecho en enero y pensábamos que ni siquiera haríamos más eventos, pero hicieron posible que los hiciéramos en línea. Cualquiera puede participar y esta es una gran ventaja de las actividades en línea.

A.: La violencia contra la juventud negra ha sido muy importante en los saraus. ¿Cómo se vive esta situación ahora durante la pandemia?

S.: En mi casa, elegimos no tener televisor, no vemos las noticias, fue una elección. Preferimos sobrevivir. Pero vemos en las redes sociales, todos los días que un joven fue asesinado por la policía en las periferias de Brasil. Casi el 99% es un joven negro, muchas veces niños, sin razón, la policía es asesina, con la aprobación del Estado, así que ya no sé dónde vamos a parar. Parece que volvimos a la situación de hace varios años, la gente asume su fascismo y nazismo y está bien, una persona puede decir cualquier cosa y no habrá castigo. Intentamos trabajar estos temas a través de la cultura, la poesía, la música, tratamos de acercarnos a las escuelas llevando esto. El alumno está más atento a esto y quiere entenderlo mejor, hay un artista angoleño que vive con nosotros, Ermi Panzo, participó en una clase en línea, y habló de lo importante que era la clase en su vida porque logró abordar el tema del racismo, se metió en su cabeza de otra manera. Con el sarau puedes llegar más fácilmente que en clases. Cuando era profesora, enseñaba inglés y, casi todos los días, pensaba, ¿qué estoy haciendo enseñando un idioma extranjero a estudiantes que se mueren de hambre, que no tienen un libro? Cuando vi situaciones de racismo, homofobia en clase, paré todo, y dije: ahora hablemos de “lecciones de vida”. Hay alumnos que aún hoy me encuentran y dicen: “la maestra de las lecciones de vida”. Había estudiantes que querían suicidarse. Luego paré todo. Llorábamos demasiado en clase con sus historias. Cuando podía entrar a la librería con ellos, les decía que se llevaran un libro, creo que les decía que robaran libros. “Dios perdona”, les decía.

A.: ¿Cómo ves este resurgimiento del feminismo, estos discursos que empezaron a aparecer dentro de los saraus, en las escuelas?

S.: Confieso que todavía tengo mucho que aprender de esta nueva generación feminista. En mi generación lo vemos diferente, hay cosas que no veo como machismo, yo tampoco viví situaciones de violencia, voy a cumplir 54 años, llevo 37 con Binho, no tuve muchas oportunidades de experimentar violencia, siempre fue respeto y cariño, pero hay momentos en que la gente dice que Binho es sexista; y eso a mí no me lastima. El hecho, por ejemplo, de que lavo o preparo el almuerzo. Pero mi hija dice: “Mamá, te voy a dar algunos textos para que los leas”. Porque hay cosas que no considero machismo, o creo que es exagerado, porque creo que hay cosas que están dividiendo a la gente y no quiero ni hablar de eso porque las mujeres me pueden crucificar. No me gusta que nadie me falte el respeto, pero tengo mucho que aprender.

A.: Y de qué forma eso afecta a los saraus?

S.: Los saraus han cambiado mucho. Hay que ponderar lo que dices, temas de homofobia, gordofobia, racismo, machismo. Son cosas sutiles. Binho fue una vez señalado como machista porque comentó sobre el uso de productos de maquillaje y perfumes, que están muy cargados con la hormona masculina y no serían buenos para las mujeres porque podrían dañar la fertilidad, y una niña ya toma lo como machismo: ¿quién dijo que lo más importante para una mujer es tener hijos? Pero eso no era lo que el quiso decir. La forma en que la gente escucha las cosas es muy diferente. A veces en los saraus te quedas atascado, tienes que vigilar tu discurso todo el tiempo para no ofender a nadie. Es un período de transición y todavía estamos cambiando. Para ustedes es mucho más fácil, pero estamos reaprendiendo, renaciendo.

A.: Muchas mujeres, en los saraus, comienzan a recitar sus poesías…

S.: Desde que empezamos los saraus, siempre ha habido más hombres que mujeres, sigue siendo así, es difícil tener paridad. Pero cuando hacemos Felizs, ponemos una mesa y siempre tenemos la preocupación, que haya negros, mujeres, para traer diversidad, pero no siempre es posible. Antes no se pensaba en eso. La primera película que hizo Peu hace diez años, Panorama. Arte na periferia, tenía sólo dos o tres mujeres, nadie comentaba eso en ese momento. Ahora, cuando hizo la segunda, ya se exige paridad y él tenía esta preocupación. Sabemos que este cambio es muy nuevo, hace cinco años. Aprendemos mucho. Las mujeres de los saraus empezaron a producir y hablar más, y empezaron a hablar de otros temas que ya no son el romance ni los niños. Han aparecido más mujeres, una literatura que está surgiendo. Están emergiendo y tenemos que darles el espacio para que se coloquen.

A: En el documental de Peu se habla de que la cultura periférica que está representada por los saraus llegó al centro. ¿Existe el riesgo de que el centro se apropie de esa cultura?

S.: Se ven grupos que están haciendo eso, personas que no son de acá y hablan de la periferia, pero también hay muchas personas que vienen a sumar. Hay algunos grupos que no abren las puertas, pero en nuestro caso, eso siempre sumó. Nunca nos arrepentimos de abrirle la puerta al centro. Pero vemos también cómo hay gente que usa el nombre de la favela para vender, o que se apropia del nombre periferia. 

A.: Y finalmente, ¿cómo ves el horizonte de la cultura periférica en este difícil contexto de la pandemia?

S.: En ese momento, el horizonte es comer, después nadie sabe qué puede pasar. Quien tenía trabajo programado, todo cancelado. Muchos tendrán que irse por un trabajo formal, no habrá forma de vivir del arte, el arte será el último en volver a la normalidad, entonces nuestras perspectivas son muy difíciles; ya era difícil, pero lo estábamos logrando, y sin embargo ahora, los que tienen que pagar el alquiler y mantener a una familia tendrán que buscar otro trabajo. Soy muy privilegiada porque tenemos casa propia, no tenemos deudas, podemos tomar el sol en esa casa, nuestra hija está criada. Pero la mayoría de la gente está jodida. Los inquilinos están jodidos. No veo nada positivo en los próximos dos años.

Deja una respuesta

Tu dirección de correo electrónico no será publicada. Los campos obligatorios están marcados con *

Este sitio usa Akismet para reducir el spam. Aprende cómo se procesan los datos de tus comentarios.