Iustração Sil Sil do Brasil

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Foi na borda da praia, perto do barracão, que a gente se encontrou pela primeira vez. Mas a gente gostava mesmo era de andar pra dentro, o menino pegava uma canoa, eu sentava numa banda ele noutra, e nós íamos furando os igapós, ele guiando pelas frestas da floresta mais densa. Por sob aquelas plantas penduradas como que pingando da copa das árvores emaranhadas e baixas.

Céu úmido e quente pesando muito próximo de nossas cabeças, os troncos, os fragmentos da mata recortados pela grande tempestade da noite anterior. E eu me uivando, silenciosamente, de medo de cobra coral, mas sem deixar transparecer porque o menino era menino, devia ter uns trezes anos, e eu já era adulta, tinha cara de adulta, tinha responsabilidade de adulta, até quando eu era pequena já parecia adulta.

Disse isso pra ele, que minha mãe me chamava de índia velha eu devia ter uns quatro anos. Ela dizia que eu me transformava quando vinha o choro, ficava parecendo uma senhorinha. O menino me olhou, pegou num pedaço do meu cabelo e disse com tanta facilidade: tu também é índia, né? Eu não soube a resposta de imediato, a canoa deu uma tremelicada por causa de algum banco de lama. Falei que se pudesse ser possível uma índia criada em apartamento, então eu era índia sim. Ele fez que não, ficou calado mais um tempo, aí veio aquele olho perdido que de vez em quando vinha, um olho opaco, parecia que o espírito tinha deixado o corpo pra tentar viver com mais esperança na asa de uma arara que conseguiu se salvar do incêndio.

Remar ele continuou remando, parecia mais é que o braço ia no automático por aquelas vicinais de rio que sabia de cór. Aí ele disse: acho que não tem índio de apartamento, não. Tu deixou de ser índia quando foi pro apartamento.

– Mas, Bruno, eu não fui pro apartamento. Eu nasci num apartamento, de hospital, o Hospital Belém, depois fui morar em apartamento de prédio.

–  Então te puseram lá e apagaram de onde tu vieste, aí tu te acostumou antes mesmo de saber que tava invertido.

– Invertido? Pode ser. Eu não lembro de onde eu vim. Do útero da minha mãe, não foi?

– Não, tô falando de outro lugar. O lugar em que tu estavas na tua casa mesmo, no lugar que tava certo pro teu corpo, pra tua fome, pro teu cansaço. Tudo certo, sabe? Porque se batesse qualquer vontade no corpo, fosse de fome ou de cansaço, a natureza dava a comida e o descanso. Olha. Essa banana aí…

– Quê que tem ela?

– Quanto tu pagou nela?

– Não sei, uns dois reais?

– Eu pagava de graça.

Eu ri.

– Então não pagava, Bruno.

– Como é a tua casa?

– Minha casa é pequena, mas eu entro nela direitinho. Só fiquei triste agora que no inverno esfriou demais e o piso é de lajota então eu fico congelando lá dentro.

– A minha casa era tudo isso aqui, não tinha quente, não tinha frio, e eu cabia nela de inteiro. Porque eu era enorme. Agora eu vivo naquele apartamento horrível e parece que eu sou um nada dentro d’um buraco.

Eu queria dizer pro Bruno parar de achar que era horrível. Queria implorar que fizesse um esforço, mas seria tanta covardia, fiquei calada.

Pediram pra eu ir passear com ele, os parentes dele, porque o Bruno não falava, não sorria, não contava mais história, tava parece morto por dentro, mas quando eu cheguei ficou com o olho em cima de mim, curioso. Os parentes acharam que eu podia ajudar. A mãe do Bruno tinha a minha idade, a avó ficava me abraçando e me beijando, dizia que eu era uma benção, que eu não tava atrapalhando nada de ficar lá na tapera dela tanto tempo. Daqui a pouco ela ia ter que sair de lá assim como o restante do pessoal porque aquela ilha também estava condenada ao alagamento. Ia viver com a filha, o genro e o Bruno no imóvel de quarto-sala que o governo arrumou na cidade. Pareciam uns bloquinhos de brinquedo de criança, cada apartamento, um em cima do outro, todos quadradinhos.

A floresta era espessa e gigante.

A avó do Bruno falava e ele concordava com a cabeça: a floresta é redonda.

A gente tomando café na porta da palafita, o barulho das águas do rio lá atrás, e a floresta toda toda redonda mesmo. Eu também achava, gostava de ficar na rede que balançava redonda, gorda, cheia. O rio corria redondo, até mesmo o medo da cobra coral era de uma redondeza sem tamanho. A mãe do Bruno me ofereceu estadia na casa do governo, mas eu não aceitei pra não atrapalhar e porque eu sabia que não ia ter jeito, a gente ia ficar apertado, empilhado, dobrado no meio pra dobrar o espaço. Era assim que tava o Bruno: quebrado, num amarrotamento dele sobre ele mesmo, todo cheio de vincos.

A gente chegou e lá estava o igarapé, uma tranquilidade. Só as muriçocas que, o Bruno falou, estavam mais atentadas porque a outra ilha onde elas moravam já tinha sido inundada, então elas vinham atrás do nosso sangue do lado de cá. Nosso sangue pra elas é cerveja. Elas fazem isso por necessidade. Todo bicho tem uma necessidade, igual quando é humano.

Eu não entendia nada, mas ele falava essas coisas bonitas – que o céu também era bicho e era humano, tava olhando pra gente de bubuia, como se estivesse deitado à beira de um rio que era esse nosso debaixo, e a gente era pedrinha, era a asa da arara que se salvou do incêndio, era o olho do jacaré, o amarelo da folha que se equilibra no fio d’água.

Nesse meio da tarde bonito a gente tomou banho, ficou conversando, ele pegou uma borboleta na mão e eu disse que ela soltava um pó que ia dar coceira. Depois desenhamos no meu caderno, um monte de bichos, o mapa por onde passava o Tapajós. Pus Belém ali em cimão, depois abri mais uma página e pus São Paulo caída pro lado direito, no meio da terra árida, sem água, volume-morto, viaduto, carro grande, FIESP, arranha-céu, Conjunto Nacional, Capão Redondo, Represa Billings, torre da Band perto de casa, Passarela das Noivas, Eletropaulo, Marisa, estátua do Borba Gato, mural do José de Anchieta, aeroporto, aluguel, solidão.

O olho do Bruno opaco como a carne do abismo.

Pensei: agora não. Logo agora que as coisas pareciam estar melhorando.

Mas o Bruno já tava todo saído dele e eu arrependida de ter contado tudo aquilo. Falei Bruno, Bruno, Bruno, o Bruno nada. Estático aos pés do igarapé. Puxei ele pra dentro da canoa que tava deitada numa ponta de terra. Joguei água no rosto. Cadê?

Fui ficando temerosa porque nem caminho de ida nem de volta eu conhecia. A noite foi subindo na silhueta das árvores, logo pouco se via do que estava pra além. Não tive coragem de gritar por socorro, fiquei embrenhada também naquele silêncio, às vezes apertando o timo do Bruno pra ver se ele voltava. Foi assim que fizeram com o meu primo quando ela entrou em coma. O médico disse que não tinha outro método, o jeito era fazer ele sentir dor pra ver se reagia e ainda tinha chances de acordar. Eu pensava nisso e com angústia apertava ainda mais, beliscava os braços, as pernas, os pés, as orelhas.

Peguei a canga que havia trazido na bolsa e cobri nossos pés, o calor de antes deu lugar a uma ventania inóspita e eu tremia não sei se de medo ou de frio. A escuridão e o Bruno lá, vidrado pro horizonte que só ele testemunhava, catatônico num profundo que eu ainda não tinha visto, mas já ouvira falar, a mãe me contara que às vezes ele passava horas assim.

Adormeci não sei por quanto tempo, cheguei a sonhar com a vez em que meu primo tinha acabado de ser baleado. Minha prima gritava que tinham tentado assassiná-lo, eu dizia: mas ele é só um menino, ele é só um menino. Ela não me ouvia, meu pai corria atrás dela com um copo d’água misturada com açúcar, todo mundo desesperado. Depois me falaram que foi um carro prata que saiu atirando na rua onde ele vivia no Telégrafo. Decidi abrir a pauta no jornal nessa época, comecei a pesquisar sobre as milícias, as organizações paramilitares na grande Belém, o aumento da criminalidade, a ausência da secretaria de segurança.

Eu acordei rapidamente.

Vi dois olhos amarelos e reptícios sobre mim, tomei um susto, o Bruno ainda imóvel. Preferi não me mexer, achei que pudesse ser um jacaré, respirei muito compassadamente e voltei a cair no sono.  

O meu editor pediu para conversar comigo a portas fechadas, tentou ser acolhedor na hora de dizer que eu estava demitida por mexer em casa de caba. Lembro que saí bradando da redação, fui à pé para casa debaixo da chuva das três da tarde, cheguei no meu quarto e chorei tudo que tava represado. Meu pai ficou atrás de mim com um copo d’água misturada com açúcar. Me joguei na cama sem ligar pra ele e adormeci. Sonhei que entrava em um mausoléu, Bruno do meu lado. Um guia turístico nos mostrava os artefatos tapajônicos pendurados nas paredes. O Bruno corre para ver o que tem dentro de uma rede vermelha, ele volta de lá chorando muito. Eu digo não chora, não precisa chorar, está tudo bem… É só uma exposição de coisas mortas.

Vou eu mesma ver o que aterroriza o menino. Dentro da rede tem uma mulher retalhada, essa mulher sou eu.

Caí no chão e adormeci. Entrei num outro sonho, dessa vez eu era asa de uma arara que se salvou do incêndio.

Despertei num sobressalto, senti cheiro de fumaça, achei que era alguma coisa queimando no forno da minha quitinete em São Paulo, mas um aroma herbal me acalmou das suspeitas. Aos poucos as imagens ficaram nítidas. Era a avó do Bruno abanando em mim uma defumação.

– O que aconteceu?

– O Bruno disse que a senhora parou de falar, ficou calada, com o rosto duro, não mexia o olho nem pra piscar.

– Eu?

– Foi. Não foi, Bruno?

O menino no canto da cozinha fez que sim, estava assustado. Eu pedi desculpas.

Mais tarde, depois do jantar, sentamos eu e ele com os pés no rio e perguntei o que tinha acontecido. Contou a mesma história da avó. Eu falei da minha versão, contei da canoa escorada na terra, da noite caindo, dos olhos amarelos que supus serem de um jacaré vigiando suas possíveis presas, falei do medo por não saber voltar. Ele riu. Depois contei da alucinação que tive, como se houvesse caminhado passado adentro em razão de minutos, caoticamente. Então comecei a chorar, Bruno se compadeceu, me abraçou, falou pra eu me acalmar. De repente, subiu no alto de sua meninice e me lembrou das coisas que havia me ensinado ao longo do passeio, que eu não devia me esquecer de onde eu vim antes de chegar na casa que disseram pra eu morar, que tudo é bicho e é humano, a gente é uma coisa só e que eu não devia me preocupar porque pode até ser, viu?, que esse sonho que tu teve não era nem teu. Vai ver esse sonho que tu teve era na verdade o sonho do jacaré que, sem querer, se confundiu e acabou sonhando as coisas dele pela tua cabeça.

 

EL SUEÑO DEL CAIMÁN

 

Fue en el borde de la playa, cerca del galpón, donde nos encontramos por primera vez. Lo que realmente nos gustaba era andar hacia adentro. El niño tomaba una canoa, yo me sentaba a un costado y él al otro, e íbamos taladrando los igapós inundados. Él guiaba por las grietas del bosque más denso. Bajo aquellas plantas colgadas como que goteando desde la copa de los árboles enmarañados y bajos.

El cielo húmedo y cálido pasaba muy cerca de nuestras cabezas, los troncos, los fragmentos del bosque recortados por la gran tormenta de la noche anterior. Y yo aullando, silenciosamente, con miedo de la serpiente coral, pero sin dejar que se me notara porque el niño era niño, debía tener unos trece años, y yo ya era adulta, tenía cara de adulta, tenía responsabilidad de adulta, aunque cuando era chica ya parecía adulta.

Le dije que mi madre me decía india vieja cuando tenia unos cuatro años. Decía que me transformaba cuando venía el llanto, me ponía como una ancianita. El niño me miró, tomó un pedazo de mi cabello y dijo con tanta facilidad: también eres india ¿verdad? No supe que responder de inmediato. La canoa tembló un poco,  tal vez por una parte llena de lodo que atravesamos. Le dije que si existia la posibilidad de criar una india en un apartamento, entonces si, yo era india. Él me dijo que no, se calló por un momento y luego vino aquella mirada perdida que aparecia de vez en cuando, aquellos ojos opacos, aquella sensación de que el espíritu había abandonado  al cuerpo para intentar vivir con más esperanza en el ala de una guacamaya que logró salvarse del incendio.

Aun así no dejó de remar, era como si el brazo siguiera en modo automático por aquellas sendas de río que sabía de memória. Al fin, dijo: creo que no existe indígena de apartamento. Dejaste de ser india cuando fuiste para el apartamento.

-Pero, Bruno, yo no fui para el apartamento. Nací en uno, de hospital, el Hospital Belém. Después me fui a vivir a un apartamento en un edificio.

-Así que te pusieron allí y borraron de donde viniste,  entonces te acostumbraste antes que siquiera pudieras saber que estaba al revés.

-¿Al revés? Puede ser. No me acuerdo de donde vine. Del útero de mi madre, ¿no?

-No, hablo de otro lugar. El lugar en donde realmente esta tu casa, el lugar correcto para tu cuerpo, para tu hambre, para tu cansancio. Todo correcto,¿sabes? Porque si te vienen ganas en el cuerpo, fueran de hambre o de cansancio, la naturaleza te daba comida y descanso. Mira esa banana que esta alli…

-¿Qué tiene?

-¿Cuánto pagaste?

-No sé, ¿como dos reales?

-Yo pagaba grátis.

Me reí.

-Entonces no pagabas, Bruno.

-¿Cómo es tu casa?

-Mi casa es pequeña, pero quepo dentro de ella. Solo que estuve triste  cuando llegó el invierno. Se puso demasiado frio y el piso es de baldosa, entonces me la vivo congelandome alli dentro. 

-Mi casa era todo esto, no había calor, no había frío, y cabía entero en ella. Porque yo era enorme. Ahora vivo en aquel apartamento horrible y parece que soy nada dentro de un agujero.

Yo le queria decir a Bruno que ya no pensara que era horrible. Queria rogarle que hiciera un esfuerzo, pero sería tan inoportudo, asi que me callé.

Sus parientes me pidieron que saliera a pasear con él, porque Bruno dejo de hablar, de sonreir, y ya no contaba más historias. Parecia que habia muerto por dentro, pero fue cuando llegué que puso los ojos en mi con curiosidad. Sus parientes pensaron que yo podria ayudarle. La mamá de Bruno tenia mi edad. Su abuela se la pasaba abrazándome y dandome besos, y al mismo tiempo decia que yo era como una bendición. Decia que yo no molestaba a nadie estando en la choza, y pasando mucho tiempo dentro de ella. En poco tiempo ella y las demás personas también tendria que salir de alli, pues aquella isla estaba condenada a inundarse. Ella iria a vivir con su hija, el yerno y con Bruno en aquel inmueble que el gobierno les dió en la ciudad. Los apartamentos parecian bloques de juguete, unos sobre los otros, todos cuadraditos.

La selva es espesa y gigante.

La abuela hablaba y Bruno asentía con la cabeza: la selva es redonda.

Tomábamos café en la puerta de la casa mientras escuchabamos el ruído de las aguas allá atrás, y la selva era toda toda redonda. A mi también me gustaba querdarme en la hamaca, meciendome en ella, toda redonda, gorda y rellena. El rio también era redondo y hasta el miedo que sentia de la culebra coral tenia una redondeza sin tamaño. La mamá de Bruno me ofreció quedarme en la casa que les habia dado el gobierno, pero decidi no aceptar para no incomodar. No acepté proque también sabia que no habria forma de caber alli, estariamos todos apretados, apiñados. Así estaba Bruno: roto, aplastado dentro de si mismo.

Llegamos y alli estaba el igarapé, habia tranquilidad. Lo malo es que habian muchos mosquitos que, según Bruno, estaban más alborotados poque la isla donde vivian se habia inundado y vinieron acá para chuparnos la sangre a quienes estabamos del otro lado. Nuestra sangre para ellos es cerveza. Hacen esto por necesidad. Todo animal tiene una necesidad, y lo mismo pasa con los humanos.

Yo no entendía nada, pero él decía esas cosas bonitas – decia que el cielo también era animal y era humano, que nos miraba con tranquilidad, como si el mismo cielo estuviese acostado a la orilla de un rio y nosotros estuvieramos abajo de él, como si fueramos piedritas, o las alas de una guacamaya que se salvó del incendio. Eramos el ojo de un caimán o el amarillo de una hoja que se equilibra sobre el agua. 

Nos bañamos en el medio de esa linda tarde, conversamos. El tomó una mariposa con su mano y le dije que ella soltaba un polvo que daba picazón. Luego dibujamos en mi cuaderno un monton de animales y un mapa por donde pasaba el Rio Tapajós. Puse la ciudad de Belem encima, después en otra pagina dibujamos la ciudad de São Paulo en la parte derecha, en medio de la tierra árida, sin agua, con volumenes muertos, viaductos, carros, el FIESP, los rascacielos, el Conjunto Nacional, Capão Redondo, la represa Billings, la antena de Band cerca de la casa, la pasarela de las novias, Eletropaulo, la tienda Marisa, la estátua de Boba Gato, el mural de José de Anchieta, el aeropuerto, los apartamentos en alquiler y la soledad.

Los ojos de Bruno estaban opacos, como la carne de un abismo.

Pensé: Ahora no. Justo cuando las cosas comenzaban a mejorar.

Bruno ya estaba fuera de si mismo y yo arrepentida de haberle contado todo esto. Dije Bruno, Bruno, Bruno, y Bruno nada. Estaba estático en el igarapé. Lo jalé para dentro de una canoa que tenia una de sus puntas en la tierra y le tiré agua en el rostro ¿Dónde estabas?

Comencé a sentir miedo, pues no conocia el camino de ida ni el de vuelta. La noche comenzó a aparecer en la silueta de los arboles y poco a poco ya no se veia lo que estaba mas allá de donde estábamos. No tuve el valor de gritar por ayuda, asi que me quede envuelta en aquel silencio. Aveces le apretaba el timo a Bruno intentando que volviera en si. Así le hicieron a mi primo cuando entró en coma. El médico me dijo que no había otro método, sino hacerle sentir dolor para ver si reaccionaba y saber si todavía exisita una oportunidad de despertar. Mientras pensaba en esto sentia más angustia y comenzaba a pellizcarle los brazos, las piernas, los pies, las orejas.

Agarré el rebozo que traia en el bolso y cubri nuestros pies. El calor anterior dió lugar a un viento inhóspito mientras yo temblaba sin saber si era por miedo o por el frio. La oscuridad y Bruno estaban alli, viendo hacia el horizonte del que solamente él era testigo, catatónico en una profundidad que yo nunca habia visto, pero de la que ya habia oido hablar. Su mamá me habia contado que el pasaba horas asi. 

Dormí, no se por cuanto tiempo, y llegué a soñar con una vez que mi primo acababa de ser baleado. Mi prima gritaba que lo habian intentando asesinar y yo decia: él apenas es un niño. Ella no me escuchaba, y mi padre corria atras de ella con un vaso con agua mezclado con azucar. Todo el mundo estaba desesperado. Después me dijeron que habia sido un carro plateado que apareció dando tiros en la calle donde él vivia en el Telégrafo. Decidí escribir una matéria sobre el tema en el periódico y comencé a investigar sobre las milicias, las organizaciones paramilitares en el Area Metropolitana de Belem, el aumento de la criminalidad, y la ausencia de la Secretaria de Seguridad.

Desperté rapidamente.

Vi dos ojos amarillos de reptil encima mío, me llevé un susto, Bruno todavía inmóvil. Preferí no moverme, pensé que pudiera ser un caimán, respiré  y volví a caer en el sueño.

Mi editor me pidió que conversaramos en privado e intentó ser amable en el momento de decirme que estaba despedida por meterme en un avispero. Recuerdo que sali gritando de la redacción del periódico y me fui a pié para mi casa, debajo de la lluvia, a las tres de la tarde. Cuando llegué a mi cuarto lloré todo aquello que tenia preso dentro de mi. Mi padre se quedo atrás con un vaso de agua con azucar. Caí en la cama sin prestarle atención. Soñé que entraba en un mausoleo con Bruno de mi lado. Un guia turístico nos mostraba artefactos tapajónicos que estaban colgados en las paredes. Bruno corrió para ver lo que estaba dentro de una hamaca roja y después regreso en llanto. Le dije que no llorara, que no hacia falta llorar, y que todo estaba bien… es solo una exposición de cosas muertas. 

Fui por mi cuenta para ver que era lo que le aterrorizó tanto. Dentro de la hamaca habia una mujer mutilada, esa mujer era yo.

Caí en el piso y adormecí. Entré en otro sueño, y esta vez yo era el ala de una guacamaya que se salvó del incendio.

Desperté en un sobresalto, sentí olor a humo, pensé que alguna cosa se quemaba en el horno de mi apartamento en São Paulo, pero un aroma de hierbas calmo mis sospechas. Poco a poco las imagenes eran más nítidas. Era la abuela de Bruno que esparcia humo sobre mi. 

-¿Qué pasó?

-Bruno dijo que usted dejó de hablar, que se quedó callada con el rostro duro. Dijo que no movia los ojos ni para pestañear.

-¿Yo?

-Eso mismo. ¿Verdad, Bruno?

El niño que estaba en un rincón de la cocina dijo que si, estaba asustado. Le pedí perdón.

Más tarde, después de la cena, nos sentamos él y yo con los piés en el rio, y le pregunté que habia sucedido. El contó la misma historia que su abuela ya habia relatado. Yo le di mi versión, y le conté de la canoa que estaba en la tierra mientras caia la noche. Le hablé de los ojos amarillos que supuse eran de un caimán que vigilaba a sus posibles presas. Hablé del miedo que senti por no saber regresara casa. El sonrió. Después le conte de la alucinación que tuve como si, caóticamente, hubiese caminado hacia el pasado en minutos. Entonces, comencé a llorar y Bruno se compadeció. Me abrazó y me pidió que tuviera calma. De repente, subió al punto más alto de su niñez y me recordó de las cosas que me habia enseñado a lo largo de este paseo. Me dijo que no olvidara de onde vine antes de llegar a la casa donde me dijeron que viviria. Me recordó que todo es animal y humano, que somos una sola cosa y que yo no debia preocuparme porque hasta podría ser que ese sueño que yo tuve ni siquiera era mio. Tal vez, ese sueño que tuviste era realmente un sueño del caimán que, sin querer, se confundió y termino soñando dentro de tu propia cabeza.

 

Notas :

igarapé: Palabra de etimología tupi, que designa arroyos típicos de la región amazónica que, pese ser muy estrechos y bordeados por el bosque, son navegables por pequeñas embarcaciones como las canoas.

FIESP: Federación de las Industrias del Estado de Sao Paulo.

tapajónicos: De la región del Río Tapajós

 

 

Paloma Franca Amorim é escritora e educadora. Nasceu no ano de 1987 em Belém do Pará, um dos corações da Amazônia. Publicou ao longo de dez anos, semanalmente, em uma coluna literária no jornal paraense O Liberal. Em 2016, lançou seu primeiro livro de contos e crônicas chamado Eu Preferia Ter Perdido um Olho, pela editora paulista Alameda Casa Editorial. É integrante da roda de samba de mulheres Sambadas, na qual toca clarinete e canta, e do grupo de teatro Coletiva Vulva da Vovó. Edita o blog Diários Incendiários de produções literárias descentralizadas e desde 2017 é colaboradora como cronista do portal Opera Mundi.  

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