Imagen: Mujeres Femenistas de Cochabamba, Bolivia

 

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SE EU NÃO PUDER DANÇAR, NÃO É A MINHA REVOLUÇÃO 1) Frase da militante Emma Goldman (1869 – 1940).

É somente aos nossos olhos que eles “desaparecem pura e simplesmente”. Seria bem mais justo dizer que eles “se vão”, pura e simplesmente. Que eles “desaparecem” apenas na medida em que o espectador renuncia a segui-los. Eles desaparecem de sua vista porque o espectador fica no seu lugar que não é mais o melhor lugar para vê-los”.Georg es Didi-Huberman in A sobrevivência dos Vagalumes, 2011

 

A revolução russa é uma memória muito importante para nós, aliás, toda memória é sempre muito importante para aqueles que, como nós, desejam ver o mundo mudado e a injustiça como uma lembrança distante atada ao passado que ficou para trás. Mas as memórias, assim como os vagalumes, se movem e é importante descobrir de que lugar queremos tocá-la com os olhos. Hoje, o lugar de onde quero olhar os vagalumes é à partir dos olhos das mulheres, e sobretudo das negras, das indígenas, das não brancas, de todas as que tem a vida e os sonhos sufocados pela exploração do capital e pela brutalidade da opressão machista.

Há cem anos da Revolução, muitas atividades, muitos debates e muitos espaços se propuseram a revisitar este processo, que foi um evento tão importante para a história da nossa classe no mundo.

Quando nos lembramos da revolução russa, em tudo o que ela produziu e em todas as transformações que ela gerou no mundo, nos vem à tona um evento muito poderoso, uma movimentação muito poderosa. Com muitas contradições e problemas, com muitas frustrações – é verdade –  que se seguiram ao processo revolucionário, mas seguramente um evento de extrema importância na história da humanidade.

Porque foi um dos momentos em que os setores mais explorados e oprimidos, que construíam e produziam a riqueza, decidiram não mais entregar o produto de seu trabalho para outrem, decidiram não mais se alienar de toda a riqueza que produziam e tomaram nas próprias mãos as rédeas de como essa riqueza seria usufruída e compartilhada, de como essa riqueza seria a base para o desenvolvimento da humanidade naquele lugar.

Ao pensar em evento tão grande, geralmente não fazemos ideia de que foram as mulheres – à partir de uma atitude muito rebelde – que deram início ao que depois se transformou em uma das mais importantes rebeliões da história.

Na Rússia, depois de anos de guerra, o cenário era desolador: os homens na guerra, os soldados morrendo aos montes, eram os filhos, os maridos e os pais de mulheres que estavam sendo empurradas para as fábricas e indústrias com o objetivo de dar conta da produção capitalista já que naquele momento os homens seguiam para o abatedouro.

Essas mulheres, numa condição absolutamente precária de trabalho, decidiram em fevereiro de 1917, fazer uma greve. Eram trabalhadoras têxteis, oprimidas por terríveis condições de vida, trabalhando doze horas por dia e decidiram que era preciso cruzar os bra;os.

Quando buscaram discutir a necessidade da greve com camaradas homens de outras fábricas (os que ainda seguiam trabalhando), com suas organizações políticas e suas associações, elas não encontraram apoio.

Muitos achavam que uma greve naquele momento era precipitada em meio à fome que assolava os pobres e ao caos produzido pela guerra. As mulheres então se rebelaram e contra suas próprias organizações fizeram uma greve tão grande que obrigou aqueles e aquelas que antes achavam precoce, a paralisarem seus locais de trabalho, se unindo à elas, sobretudo depois da enorme repressão que violentamente se voltou contra essas mulheres. No final de fevereiro, as trabalhadoras conseguiram convencer alguns soldados que faziam guarda a virarem com elas os bondes, formando barricadas para se defender da polícia2)Megan Trudell, As mulheres de 1917 // Especial Revolução Russa in https://blogdaboitempo.com.br/2017/06/14/as-mulheres-de-1917-especial-revolucao-russ Esse conflito deu início ao enfrentamento que se desdobrou em um processo insurrecional que desaguou no que chamamos de Revolução de Outubro.

Foram as mulheres que – empurradas pelas mais lamentáveis condições de vida, oprimidas por toda sorte de exploração e opressão insuportáveis – tiveram de passar adiante, que ir além, que ser mais radicais que as suas organizações, para dar ritmo de urgência ao processo que depois se transformou num dos mais importantes eventos históricos em que os trabalhadores tomaram nas mãos a sua própria história.

Este fato teve muito impacto no processo revolucionário, sobretudo no começo, quando houveram conquistas importantes arrancadas pelas mulheres. Basta dizer que, embora a Rússia fosse um lugar com baixos índices de industrialização e com níveis de escolarização terríveis, foi lá o primeiro lugar do mundo em que as mulheres tiveram direito ao aborto seguro, em 1920; hoje nós não temos este direito no Brasil.

Também foi lá que as mulheres tiveram direito ao sufrágio universal, que tiveram direito a receber pelo mesmo trabalho que um homem o mesmo salário que um homem, também foi lá que as mulheres tiveram direito a – sem tamanhas burocracias, e com certas facilidades – se desvencilhar de relações que elas não queriam mais, direito ao divórcio.

O processo revolucionário aprendeu e se engrandeceu com essas mulheres; quando viram que as mulheres que procuraram divorciar-se eram muito mais do que se havia previsto – e a revolução tomava contato com algumas das contradições caladas que lhe impulsionaram.

Foi preciso reaprender a enxergar nas coisas onde é que estavam as amarras a quebrar: foi preciso voltar os olhos para a prisão do trabalho doméstico, buscando que ele saísse das sombras da invisibilidade e fosse assumido com um trabalho socialmente necessário. E também para fazer com que estatutos como “o conceito de ilegitimidade fosse erradicado – se uma mulher não sabia quem era o pai, todos os seus parceiros sexuais anteriores recebiam a responsabilidade coletiva pela criança”.3)Megan Trudell, As mulheres de 1917 // Especial Revolução Russa in https://blogdaboitempo.com.br/2017/06/14/as-mulheres-de-1917-especial-revolucao-russ

A revolução precisava das mulheres, para defender as suas conquistas. A revolução precisava das mulheres para aprofundar sua radicalidade e ampliar seus horizontes, precisou aprender que a libertação das mulheres é, ao mesmo tempo, a libertação de poderosas forças de transformação revolucionária que se acumulam, como reservas, nos setores mais explorados e oprimidos do povo.

A revolução promoveu conquistas enormes para as mulheres, conquistas que depois se foram perdendo, como muitas outras importantes vitórias que – como os vagalumes – sumiram das nossas vistas, diante dos erros que se seguiram no processo e da brutalidade do retrocesso stalinista.

 

Foto reprodução Carta Capital
Foto reprodução Carta Capital

 

Assumindo o lugar de olhar a vida à partir dos olhos das mulheres e buscando enxergar os vagalumes, nós revisitamos a memória da revolução porque também nós precisamos aprender com a história que se desenrola atrás de nós. A revolta das mulheres explodiu com a revolução e foi absorvida por ela, misturando suas cores ao desenho novo que se erguia das mãos daqueles que trabalham, mas nunca foram chamados a participar do poder.

Onde há opressão machista, não há revolução que se mantenha de pé.

Onde há opressão racial, não há revolução que se mantenha de pé.

Onde há opressão à sexualidade, às identidades, às nacionalidades, não há revolução que se mantenha de pé.

Hoje, cem anos depois, é verdade que avançamos em algumas conquistas para as mulheres. Mas é também verdade que muito há ainda para caminhar e este caminho só nos pode conduzir à libertação das mulheres os passos que damos estiverem combinados com as lutas pela emancipação dos explorados e oprimidos, derrotando o capital.

Precisamos construir um feminismo revolucionário, que não esteja apartado da luta para mudar o mundo inteiro e suas estruturas caducas. Porque não é possível que algumas mulheres sejam libertas e emancipadas em um mundo onde a natureza e a maior parte das mulheres seguem oprimidas por serem pobres, negras ou indígenas.

A nossa ideia de emancipação das mulheres caminha junto com o nosso sonho da emancipação humana e está abraçada pelo sonho de libertação da nossa classe, do nosso povo, libertação das mãos que tudo constroem, libertação da nossa força vital que põe o mundo a girar, libertação da terra e da natureza.

Enquanto houver uma única mulher oprimida e explorada, nenhuma mulher estará plenamente liberta e emancipada.

Todas as questões que são importantes para o nosso povo – pela força e potência contestadoras que guardam – são disputadas pelos nossos inimigos, são disputadas pela ideologia burguesa, são disputadas pelo capital. Porque um feminismo revolucionário nos deixa mais próximos de um processo revolucionário assim como também porque uma perspectiva revolucionária que se assume como feminista nos deixa mais próximos de um processo revolucionário. É, portanto, muito importante para os nossos inimigos, apartar estas coisas. N Neste sentido há um feminismo que não dá conta de nós, mulheres negras, indígenas, pobres e trabalhadoras.

Desde o ano de 2006, existe no Brasil, um movimento chamado Mães de Maio 4)Movimento Mães de Maio – nasceu após as chacinas que ceifaram a vida de dezenas de jovens negros nas periferias do Estado de São Paulo ocorridas em maio de 2006  , movimento que nasce de uma profunda desgraça porque é produto da organização de mulheres que tiveram seus filhos assassinados pelo estado. Mulheres em sua maioria negras, mulheres em sua enorme maioria moradoras das favelas, das quebradas, dos becos e vielas espalhados pelos rincões mais distantes desse país. Mulheres que criaram seus filhos, na maioria das vezes, sozinhas; sofrendo preconceitos, sofrendo uma opressão brutal, são violentamente exploradas e, como se já não lhe houvessem arrancado tudo, o estado assassina os seus filhos.

Para estas mulheres, o feminismo branco que apenas fala do mito da fragilidade feminina e diz: – “Rompemos com isso! As mulheres também são fortes”!,nunca fez sentido.

Para nós mulheres afro-indígenas, nunca esteve colocada a questão de sermos frágeis porque nós fomos, desde sempre, tratadas como bestas de carga pelos nossos exploradores, pelos nossos patrões, desde a escravidão até agora, como empregadas domésticas nas casas de nossos senhores.

Nós precisamos produzir um feminismo em que mulheres como nós se reconheçam, porque são essas mulheres que estarão na linha de frente dos processos de transformação profunda que acontecem no mundo pela força da necessidade.

O direito ao trabalho para nós é de outra ordem; nós não estávamos confinadas. Se é verdade que uma parte das mulheres foi ao mercado de trabalho no momento em que os homens lutavam nas guerras, é também verdade que as mulheres negras integraram o trabalho socialmente produtivo bem antes, como bestas de carga, tal qual os homens negros escravizados que foram sequestrados na África e trazidos ao Brasil.

Nós precisamos forjar um feminismo que esteja associado à história do nosso povo e da nossa classe, e no Brasil, esta é uma história de violenta opressão, a história de um genocídio terrível, uma história de sangue, de levantes, de resistências, de muita violência, repressão e barbárie.

O direito ao voto, que eu reconheço que foi muito importante para o processo de organização das mulheres, hoje não representa para as mulheres afro-indígenas o direito real à democracia. E por que? Porque esta questão não está posta apenas para nós mulheres afro-indígenas, esta questão está colocada para o conjunto da nossa classe e do nosso povo.

Não funcionará por muito tempo, capturar as nossas demandas, as nossas reivindicações, as nossas necessidades e transformá-las em objetos palatáveis de decoração num discurso democrático, devolvendo-as para nós como símbolos que não alteram em nada a realidade das nossas vidas. Porque as mulheres estão se organizando para exigir o direito a enterrar seus mortos. Porque para nós, mulheres afro-indígenas, com ou sem voto, não existe democracia, há muito tempo.

Estamos em um momento de ofensiva do capital e isso se expressa, por todos os lados, em brutais ataques aos direitos dos trabalhadores e na destruição da natureza. Mas o pior ataque que, em minha opinião, temos vivido não é de agora. Ele acontece como um bombardeio ideológico cotidiano em nossas consciências, ecoando a ladainha de que um processo de transformação radical de todas as mazelas deste mundo caduco e miserável em que vivemos, não é mais possível. E que por isso, melhor é que nos contentemos com o que dá, que fiquemos em paz com pouco – pois melhor pouco do que nada. Assim, vão reduzindo os nossos olhos ao tamanho de um quadrado tão pequeno que não cabe sol nenhum: é apenas a pequena fresta do possível [segundo eles]. Assim, vão reduzindo a nossa capacidade de enxergar mais longe e disputar o futuro.

Este é um dos ataques mais violentos que nosso povo e nossa classe tem sofrido ao longo de décadas. Com este governo, com o governo anterior, com o anterior do anterior, e, na verdade, com todos eles.  

Para estas mulheres, o feminismo branco que apenas fala do mito da fragilidade feminina e diz: – “Rompemos com isso! As mulheres também são fortes”!,nunca fez sentido.

Para nós mulheres afro-indígenas, nunca esteve colocada a questão de sermos frágeis porque nós fomos, desde sempre, tratadas como bestas de carga pelos nossos exploradores, pelos nossos patrões, desde a escravidão até agora, como empregadas domésticas nas casas de nossos senhores.

Nós precisamos produzir um feminismo em que mulheres como nós se reconheçam, porque são essas mulheres que estarão na linha de frente dos processos de transformação profunda que acontecem no mundo pela força da necessidade.

O direito ao trabalho para nós é de outra ordem; nós não estávamos confinadas. Se é verdade que uma parte das mulheres foi ao mercado de trabalho no momento em que os homens lutavam nas guerras, é também verdade que as mulheres negras integraram o trabalho socialmente produtivo bem antes, como bestas de carga, tal qual os homens negros escravizados que foram sequestrados na África e trazidos ao Brasil.

Nós precisamos forjar um feminismo que esteja associado à história do nosso povo e da nossa classe, e no Brasil, esta é uma história de violenta opressão, a história de um genocídio terrível, uma história de sangue, de levantes, de resistências, de muita violência, repressão e barbárie.

O direito ao voto, que eu reconheço que foi muito importante para o processo de organização das mulheres, hoje não representa para as mulheres afro-indígenas o direito real à democracia. E por que? Porque esta questão não está posta apenas para nós mulheres afro-indígenas, esta questão está colocada para o conjunto da nossa classe e do nosso povo.

Não funcionará por muito tempo, capturar as nossas demandas, as nossas reivindicações, as nossas necessidades e transformá-las em objetos palatáveis de decoração num discurso democrático, devolvendo-as para nós como símbolos que não alteram em nada a realidade das nossas vidas. Porque as mulheres estão se organizando para exigir o direito a enterrar seus mortos. Porque para nós, mulheres afro-indígenas, com ou sem voto, não existe democracia, há muito tempo.

Estamos em um momento de ofensiva do capital e isso se expressa, por todos os lados, em brutais ataques aos direitos dos trabalhadores e na destruição da natureza. Mas o pior ataque que, em minha opinião, temos vivido não é de agora. Ele acontece como um bombardeio ideológico cotidiano em nossas consciências, ecoando a ladainha de que um processo de transformação radical de todas as mazelas deste mundo caduco e miserável em que vivemos, não é mais possível. E que por isso, melhor é que nos contentemos com o que dá, que fiquemos em paz com pouco – pois melhor pouco do que nada. Assim, vão reduzindo os nossos olhos ao tamanho de um quadrado tão pequeno que não cabe sol nenhum: é apenas a pequena fresta do possível [segundo eles]. Assim, vão reduzindo a nossa capacidade de enxergar mais longe e disputar o futuro.

Este é um dos ataques mais violentos que nosso povo e nossa classe tem sofrido ao longo de décadas. Com este governo, com o governo anterior, com o anterior do anterior, e, na verdade, com todos eles.  

Muitas vezes, quando dizem para nós, mulheres, que não devemos tanto reclamar, porque afinal já avançamos tanto, não podemos calar porque é assim que se reduz os nossos olhos, é assim que reduzem os nossos horizontes e nós não queremos apenas o possível.

Nós queremos o impossível. Necessitamos. Nós queremos viver em um mundo onde  não corramos o risco de ser ejaculadas por um desconhecido dentro do ônibus, enquanto voltamos cansadas de nossos trabalhos. 5)Notícia de 01/02/2018 in https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/homem-e-detido-por-ejacular-em-mulher-dentro-de-onibus-no-centro-de-sp.ghtml

Para que nós mulheres possamos romper com todas estas barreiras que buscam aprisionar os nossos sonhos e a nossa revolta numa caixa apertada, precisaremos quebrar estas barreiras que nos assolam na face das chacinas, dos milhões espancamentos, dos incontáveis abusos, dos abortos clandestinos, das violências e do feminicídio.

Querem encolher a nossa revolta – fervilhando a cada vez que tomba mais uma; querem esmigalhar as nossas vontades e encarcerar a nossa indignação e a nossa expectativa de criar as futuras mulheres em um mundo revolucionado, dentro de um quadrado tão pequeno que não cabe o que precisamos e sonhamos.

Nós precisamos romper estes limites e estas barreiras que paulatinamente nos empurram com o objetivo de estreitar os nossos olhos para que não enxerguemos mais que um palmo diante do nariz. Para enxergar futuro e disputar futuro, teremos de destruir essas barreiras e para destruí-las, só há um caminho e ainda é um caminho que pode colher das lições da revolução russa.

As mulheres russas puderam avançar em vitórias e conquistas tão importantes porque estavam lado a lado com os homens, numa batalha contra os inimigos da vida.

Os relatos da greve que elas começaram sozinhas – inclusive contra suas organizações – são relatos muito bonitos. As mulheres enfurecidas, nas ruas, em greve, jogavam pedras e paus nas janelas das fábricas que ainda funcionavam, exigindo que elas também parassem. Porque não abriam mão de ter ao seu lado, em suas lutas, também os homens de sua classe. Porque a luta é de classes, porque nosso feminismo é de classe.

Nós não queremos direito ao voto, sem direito real à democracia; nós queremos direito ao trabalho desde que o trabalho seja digno para todos e não um sinônimo de exploração, de opressão e de escravidão.

Quando nos oferecem mulheres burguesas como representantes das nossas causas, estão outra vez estreitando os nossos olhos, reduzindo o que somos e aquilo que queremos, as revoltas e esperanças que trazemos conosco e a nossa radicalidade. É também uma amarra que precisamos romper, para disputar o futuro.

Esta amarra, no entanto, está posta para todo o nosso povo e só romperemos com ela, nós mulheres afro-indígenas, se rompermos juntas com todos os nossos povos. Este mesmo possibilismo medíocre está posto para nós e há quem diga, que já fomos longe demais e que melhor é preservar o pouco que se tem do que arriscar o duvidoso.

Nosso país adentrou uma ciranda política que abriu possibilidades, embora não saibamos ainda que signo irão assumir. Muitos dizem que é preciso ter cuidado, porque, afinal 

tudo pode ficar pior do que antes e assim passam a se abster. É verdade, sempre pode ficar pior.

Diante disso, o que posso afirmar apenas, é que vale a pena correr os riscos porque, se é verdade que a situação sempre pode piorar, é também verdade que a situação em que estávamos antes não era nada boa para nós.

Parte dessa ruptura que precisamos realizar se dá exatamente quando não permitimos que a nossa revolta e nossa expectativa sejam encolhidas e encaixotadas e exigimos nada menos do que um mundo em que as mulheres sejam livres, em que a terra e a natureza inteira estejam libertas, um mundo em que negros e negras serão iguais, em que os povos indígenas terão direito à autonomia.

Pareceria utopia falar em revolução, pareceria um horizonte impossível, carregado de algum traço de loucura, não fosse o fato de que loucura é o modo como este mundo está organizado hoje, produzindo guerra, fome e sofrimento e, no entanto, ele não cairá de podre. Será preciso se mexer.

Em menos de uma década vivemos, no Brasil, uma série de acontecimentos que até se materializarem, eram tidos como impossíveis.

Quando se dizia que povo brasileiro era um povo passivo, junho explodiu em nossas caras, surpreendendo a todos, sem entendermos bem de onde vinha e nem para onde ia. Uma explosão de gente e revolta nas ruas.

Quando tudo parecia se acalmar, a juventude negra e pobre das periferias, deixou a classe média histérica nos shoppings centers, e nem mesmo a esquerda via neles algum sujeito de insubordinação.

Tivemos também nesse momento uma greve lindíssima que, ainda que restrita a uma categoria em um único estado, se transformou num evento político poderoso porque nas imagens dela nos reconhecemos como povo brasileiro. Ver aqueles homens e mulheres, em sua imensa maioria negros, com suas roupas alaranjadas, de pé, cheios de ódio de classe, numa paralisação que silenciosamente gritava “passem vocês o carnaval no lixo porque como lixo não seremos mais tratados”.

Parecia impossível que a juventude das escolas – a mesma que estuda em escolas tão distantes do centro que nem mesmo os ativistas organizam trabalho político – se levantasse, ocupasse suas escolas e dissessem “daqui para frente o governo dessas escolas somos nós”. Parecia impossível que meninas de quinze anos assumissem o front ao lado de seus camaradas, e fizessem discursos, e se enfrentassem com a repressão.

Tudo isso parecia impossível, mas aconteceu.

Se já vivenciamos neste mundo uma revolução, vinda exatamente de onde menos se esperava, pode acontecer outra vez.

Se já foi possível para as mulheres sonhar com uma vida digna que não se resumia a essa farsa da representação feminina no parlamento ou em espaços de direção, se já foi possível vislumbrar com os olhos um mundo em que fossemos todas verdadeiramente livres, pode acontecer outra vez.

Em minha opinião, estas são as mais importantes lições desta revolução de cem anos atrás, que precisam ser ressignificados em nosso tempo, com nossa cor, em nosso lugar, e podem ser, desde que aceitemos o desafio de disputar o futuro, fazer o impossível e arrebentar todas as amarras que empurram aos nossos olhos, tirando nosso direito de sonhar com uma mudança radical do mundo inteiro e das nossas vidas.

 

SI NO PUEDO BAILAR, NO ES MI REVOLUCIÓN 6) Frase da militante Emma Goldman (1869 – 1940).

Imagen: Mujeres Femenistas de Cochabamba, Bolivia
Imagen: Mujeres Femenistas de Cochabamba, Bolivia

 

Es sólo a nuestros ojos que ellos “desaparecen pura y simplemente”. Sería mucho más justo decir que ellos “se van”, pura y simplemente. Que ellos “desaparecen” sólo en la medida en que el espectador renuncia a seguirlos. “Ellos desaparecen de su vista porque el espectador queda en su lugar que ya no es el mejor lugar para verlos”.Georg-Didi-Huberman in La supervivencia de las luciérnagas, 2011

 

La revolución rusa es una memoria muy importante para nosotros, además, toda memoria es siempre muy importante para aquellos que, como nosotros, desean ver el mundo cambiado y la injusticia como un recuerdo distante atado al pasado que se quedó atrás. Pero las memorias, así como las luciérnagas, se mueven y es importante descubrir de qué lugar queremos tocarlas con los ojos. Hoy, el lugar de donde quiero mirar las luciérnagas es a partir de los ojos de las mujeres, y sobre todo de las negras, de las indígenas, de las no blancas, de todas las que tienen la vida y los sueños sofocados por la explotación del capital y por la brutalidad de la opresión chovinista.

Hace cien años de la Revolución, muchas actividades, muchos debates y muchos espacios se propusieron a revisar este proceso, que fue un evento tan importante para la historia de nuestra clase en el mundo.

Cuando nos acordamos de la revolución rusa, en todo lo que ella produjo y en todas las transformaciones que ella generó en el mundo, nos viene a la superficie un evento muy poderoso, un movimiento muy poderoso. Con muchas contradicciones y problemas, con muchas frustraciones-es verdad- que se siguieron al proceso revolucionario, pero seguramente un acontecimiento de extrema importancia en la historia de la humanidad.

Porque fue uno de los momentos en que los sectores más explotados y oprimidos, que construían y producían la riqueza, decidieron no más entregar el producto de su trabajo a otro, decidieron no más enajenarse de toda la riqueza que producían y tomaron en sus propias manos, las riendas de cómo esa riqueza sería disfrutada y compartida, de cómo esa riqueza sería la base para el desarrollo de la humanidad en aquel lugar.

Al pensar en un evento tan grande, por lo general no hacemos la idea de que fueron las mujeres – a partir de una actitud muy rebelde – que dieron inicio a lo que después se convirtió en una de las más importantes rebeliones de la historia. En Rusia, después de años de guerra, el escenario era desolador: los hombres en la guerra, los soldados muriendo a los montones, eran los hijos, los maridos y los padres de mujeres que estaban siendo empujadas a las fábricas e industrias con el objetivo de mantener la producción capitalista ya que en aquel momento los hombres seguían hacia el matadero.

Estas mujeres, en una condición absolutamente precaria de trabajo, decidieron en febrero de 1917, hacer una huelga. Eran trabajadoras textiles, oprimidas por terribles condiciones de vida, trabajando doce horas al día y decidieron que era necesario cruzar los brazos.

Cuando buscaban discutir la necesidad de la huelga con camaradas hombres de otras fábricas (los que aún seguían trabajando), con sus organizaciones políticas y sus asociaciones, no encontraron apoyo.

Muchos creían que una huelga en aquel momento era precipitada en medio del hambre que asolaba a los pobres y al caos producido por la guerra. Las mujeres entonces se rebelaron y contra sus propias organizaciones hicieron una huelga tan grande que obligó a aquellos y aquellas que antes decían la huelga como precoz, a paralizar sus lugares de trabajo, uniéndose a ellas, sobre todo después de la enorme represión que violentamente se volvió contra esas mujeres. A finales de febrero, las trabajadoras lograron convencer a algunos soldados que hacían guardia a girar con ellas los tranvías, formando barricadas para defenderse de la policía. 7)Megan Trudell, As mulheres de 1917 // Especial Revolução Russa in https://blogdaboitempo.com.br/2017/06/14/as-mulheres-de-1917-especial-revolucao-russ  Este conflicto dio inicio al enfrentamiento que se desdobló en un proceso insurreccional que desaguó en lo que llamamos la Revolución de Octubre.

Las mujeres, que empujadas por las más lamentables condiciones de vida, oprimidas por toda suerte de explotación y opresión insoportables, tuvieron que ir más allá, que ser más radicales que sus organizaciones, para dar ritmo de urgencia al proceso que después se convirtió en uno de los más importantes eventos históricos en que los trabajadores tomaron en sus manos su propia historia.

Este hecho tuvo mucho impacto en el proceso revolucionario, sobre todo al comienzo, cuando hubo conquistas importantes arrancadas por las mujeres. Basta decir que, aunque Rusia fuera un lugar con bajos índices de industrialización y con niveles de escolarización terribles, fue allí el primer lugar del mundo en que las mujeres tuvieron derecho al aborto seguro, en 1920; hoy no tenemos este derecho en Brasil.

También fue allí donde las mujeres tuvieron derecho al sufragio universal, que tuvieron derecho a recibir por el mismo trabajo que un hombre el mismo salario que un hombre, también fue allí donde las mujeres tuvieron derecho a – sin grandes burocracias, y con ciertas facilidades – si desvincular de relaciones que no querían más, derecho al divorcio.

El proceso revolucionario aprendió y se engrandeció con esas mujeres; cuando vieron que las mujeres que buscaban divorciarse eran mucho más de lo que se había previsto, y la revolución se ponía en contacto con algunas de las contradicciones calladas que le impulsaron.

Fue necesario reaprender a ver, en las cosas, donde estaban las amarras a romper: hubo que volver los ojos a la prisión del trabajo doméstico, buscando que él saliera de las sombras de la invisibilidad y fuese asumido con un trabajo socialmente necesario. Y también para hacer que estatutos como “el concepto de ilegitimidad fuera erradicado – si una mujer no sabía quién era el padre, todos sus parejas sexuales anteriores recibían la responsabilidad colectiva por el niño”.8)Megan Trudell, As mulheres de 1917 // Especial Revolução Russa in https://blogdaboitempo.com.br/2017/06/14/as-mulheres-de-1917-especial-revolucao-russ

La revolución necesitaba a las mujeres para defender sus conquistas. La revolución necesitaba a las mujeres para profundizar su radicalidad y ampliar sus horizontes, precisó aprender que la liberación de las mujeres es, al mismo tiempo, la liberación de poderosas fuerzas de transformación revolucionaria que se acumulan, como reservas, en los sectores más explotados y oprimidos del pueblo.

La revolución promovió conquistas enormes para las mujeres, conquistas que luego se fueron perdiendo, como muchas otras importantes victorias que -como las luciérnagas- desaparecieron de nuestras vistas, ante los errores que siguieron en el proceso y la brutalidad de la reacción estalinista.

 

Foto reprodução Carta Capital
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Asumiendo el lugar de mirar la vida a partir de los ojos de las mujeres y buscando ver las luciérnagas, volvemos a visitar la memoria de la revolución porque también nosotras necesitamos aprender de la historia que se desarrolla detrás de nosotros. La revuelta de las mujeres explotó con la revolución y fue absorbida por ella, mezclando sus colores al nuevo diseño que se erguía de las manos de aquellos que trabajan, pero nunca fueron llamados a participar del poder.

Cuando hay opresión machista, no hay revolución que se mantenga en pie.

Cuando hay opresión racial, no hay revolución que se mantenga en pie.

Donde hay opresión a la sexualidad, a las identidades, a las nacionalidades, no hay revolución que se mantenga en pie.

Hoy, cien años después, es cierto que avanzamos en algunas conquistas para las mujeres. Pero también es cierto que aún queda mucho por caminar y este camino sólo puede conducir a la liberación de las mujeres si los pasos que damos se combinan con las luchas por la emancipación de los explotados y oprimidos todos, derrotando al capital.

Necesitamos construir un feminismo revolucionario, que no esté apartado de la lucha para cambiar el mundo entero y sus estructuras sofocantes. Porque no es posible que algunas mujeres sean liberadas y emancipadas en un mundo donde la naturaleza y mayor parte de las mujeres siguen oprimidas por ser pobres, negras o indígenas.

Nuestra idea de emancipación de las mujeres camina junto con nuestro sueño de la emancipación humana y está abrazada por el sueño de liberación de nuestra clase, de nuestro pueblo, liberación de las manos que todo construyen, liberación de nuestra fuerza vital que pone al mundo a girar, liberación de la tierra, de los animales, de la naturaleza.

Mientras haya una sola mujer oprimida y explotada, ninguna mujer estará plenamente liberada y emancipada.

Todas las cuestiones que son importantes para nuestro pueblo -por la fuerza y ​​potencia contestadoras que guarda- son disputadas por nuestros enemigos, son disputadas por la ideología burguesa, son disputadas por el capital. Porque un feminismo revolucionario nos deja más cerca de un proceso revolucionario así como también porque una perspectiva revolucionaria que se asume como feminista nos deja más cerca de un proceso revolucionario.

Es, pues, muy importante para nuestros enemigos, apartar estas cosas. En este sentido hay un feminismo que no da cuenta de nosotros, mujeres negras, indígenas, pobres y trabajadoras.

Desde el año 2006, existe en Brasil, un movimiento llamado Madres de Mayo9)Movimento Mães de Maio – nasceu após as chacinas que ceifaram a vida de dezenas de jovens negros nas periferias do Estado de São Paulo ocorridas em maio de 2006 , movimiento que nace de una profunda desgracia porque es producto de la organización de mujeres que tuvieron sus hijos asesinados por el estado. Mujeres en su mayoría negras, mujeres en su enorme mayoría moradoras de las favelas, de los barrios y callejones esparcidos por los rincones más distantes de ese país. Mujeres que crearon a sus hijos, la mayoría de las veces, solas; sufriendo una opresión brutal, violentamente explotadas y, como si ya no le hubieran arrancado todo, el estado asesina a sus hijos.

Para estas mujeres, el feminismo blanco que sólo habla del mito de la fragilidad femenina y dice: – “Rompemos con eso, las mujeres también son fuertes”, nunca tuvo sentido.

Para nosotras las mujeres afro-indígenas, nunca se planteó la cuestión de ser frágiles porque desde siempre hemos sido tratadas como bestias de carga por nuestros explotadores, por nuestros patrones, desde la esclavitud hasta ahora, como empleadas domésticas en las casas de nuestros señores.

Necesitamos producir un feminismo en el que mujeres como nosotras se reconocen, porque son esas mujeres que estarán en la línea de frente de los procesos de transformación profunda que ocurren en el mundo por la fuerza de la necesidad.

El derecho al trabajo para nosotros es de otro orden; nosotras no estábamos confinadas. Si bien es cierto que una parte de las mujeres fue al mercado de trabajo en el momento en que los hombres luchaban en las guerras, es también verdad que las mujeres negras integraron el trabajo socialmente productivo bien antes, como bestias de carga, tal cual los hombres negros esclavizados que fueron secuestrados en África y traídos a Brasil.

Un feminismo que esté asociado a la historia de nuestro pueblo y de nuestra clase que, en Brasil, es una historia de violenta opresión, la historia de un genocidio terrible, una historia de sangre, de levantes, de resistencias, de mucha violencia, represión y barbarie.

El derecho al voto, que reconozco que fue muy importante para el proceso de organización de las mujeres, hoy no representa para las mujeres afro-indígenas el derecho real a la democracia. ¿Y porque? Porque esta cuestión no se la plantea sólo para las mujeres afro-indígenas, esta cuestión está colocada para el conjunto de nuestra clase y de nuestro pueblo.

No funcionará por mucho tiempo, capturar nuestros planteamientos, nuestras reivindicaciones, nuestras necesidades y transformarlas en objetos palatables de decoración en un discurso democrático, devolviéndolas a nosotras como símbolos que no alteran en nada la realidad de nuestras vidas. Porque las mujeres se están organizando para exigir el derecho a enterrar a sus muertos. Porque para nosotras, mujeres afro-indígenas, con o sin voto, no existe democracia, desde hace mucho tiempo.

Estamos en un momento de ofensiva del capital y eso se expresa, por todos lados, en brutales ataques a los derechos de los trabajadores y en la destrucción de la naturaleza. Pero el peor ataque que, en mi opinión, hemos vivido, no es de ahora. Se produce como un bombardeo ideológico cotidiano en nuestras conciencias, resonando la letanía de que un proceso de transformación radical de todas las desgracias de este mundo podrido y miserable en el que vivimos, ya no es posible. Y que por eso, mejor es que nos contentamos con lo que es posible, que nos quedemos en paz con poco, pues mejor poco que nada. Así, van reduciendo nuestros ojos al tamaño de un cuadrado tan pequeño donde no cabe sol ninguno: es solamente la pequeña apertura de lo posible [según ellos]. Así, van reduciendo nuestra capacidad de ver más lejos y disputar el futuro.

Este es uno de los ataques más violentos que nuestro pueblo y nuestra clase han sufrido a lo largo de décadas. Con este gobierno, con el gobierno anterior, con lo anterior del anterior, y, en verdad, con todos ellos.

Muchas veces, cuando nos dicen a nosotras las mujeres, que no debemos tanto reclamar, porque al final ya avanzamos tanto, no podemos callar porque así se reduce nuestros ojos, así que reducen nuestros horizontes y nosotras no queremos solamente lo posible.

Queremos lo imposible. Lo necesitamos. Queremos vivir en un mundo donde no corramos el riesgo de ser eyaculadas por un desconocido dentro del autobús, mientras volvemos cansadas ​​de nuestros trabajos.10)Notícia de 01/02/2018 in https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/homem-e-detido-por-ejacular-em-mulher-dentro-de-onibus-no-centro-de-sp.ghtml

Para que las mujeres podamos romper con todas estas barreras que buscan aprisionar nuestros sueños y nuestra revuelta en una caja apretada, necesitaremos romper estas barreras que nos asolan en la cara de los genocidios, de los millones palizas, de los incontables abusos, de los abortos clandestinos, de las violencias y del feminicidio.

Quieren encoger nuestra revuelta – hirviendo a cada vez que tumba otra; quieren desmentir nuestras voluntades y encarcelar nuestra indignación y nuestra expectativa de crear a las futuras mujeres en un mundo revolucionado – dentro de un cuadrado tan pequeño que no cabe lo que necesitamos y soñamos.

Necesitamos romper estos límites y estas barreras que paulatinamente nos empujan con el objetivo de estrechar nuestros ojos para que no veamos más que un palmo delante de la nariz. Para ver futuro y disputar futuro, tendremos que destruir esas barreras y para destruirlas, sólo hay un camino y aún es un camino que puede cosechar en las lecciones de la revolución rusa.

Las mujeres rusas pudieron avanzar en victorias y conquistas tan importantes porque estaban lado a lado con los hombres, en una batalla contra los enemigos de la vida.

Los relatos de la huelga que comenzaron solas-incluso contra sus organizaciones- son relatos muy bonitos. Las mujeres enfurecidas, en las calles, en huelga, arrojaban piedras y palos en las ventanas de las fábricas que aún funcionaban, exigiendo que ellas también parasen. Porque no dejaban de tener a su lado, en sus luchas, también los hombres de su clase. Porque la lucha es de clases, porque nuestro feminismo es de clase. Nosotras no queremos derecho al voto, sin derecho real a la democracia; nosotras queremos derecho al trabajo desde que el trabajo sea digno para todos y no un sinónimo de explotación, de opresión y de esclavitud.

Cuando nos ofrecen mujeres burguesas como representantes de nuestras causas, están otra vez estrechando nuestros ojos, reduciendo lo que somos y lo que queremos, las revueltas y esperanzas que traemos con nosotras y nuestra radicalidad. Es también una amarra que necesitamos romper, para disputar el futuro.

Esta amarra, sin embargo, está puesta para todo nuestro pueblo y solamente lograremos romper con ella, nosotras, las mujeres afro-indígenas, si rompemos juntas con todos nuestros pueblos. Este mismo posibilismo mediocre está puesto para estos pueblos y hay quien diga, que ya fuimos demasiado lejos y que mejor es preservar lo poco que se tiene que arriesgar lo dudoso.

Nuestro país adentró una ciranda política que abrió posibilidades, aunque no sepamos todavía qué signo asumirán. Muchos dicen que hay que tener cuidado, porque, al final, se puede llegar a estar peor que antes e así, pasan a absterse. Es verdad, siempre puede ser peor.

Por eso, lo que puedo afirmar sólo, es que vale la pena correr los riesgos porque, si es verdad que la situación siempre puede empeorar, es también verdad que la situación en que estábamos antes no era nada buena para nosotras.

Parte de esa ruptura que necesitamos realizar pasa exactamente cuando no permitimos que nuestra revuelta y nuestra expectativa sean encogidas y encajadas y exigimos nada menos que un mundo en que las mujeres sean libres, en que la tierra y la naturaleza entera estén liberadas, mundo en que negros y negras serán iguales, en que los pueblos indígenas tendrán derecho a la autonomía.

Me dicen que es una utopía hablar en revolución, parecería un horizonte imposible, cargado de algún rasgo de locura, si; no fuera  el hecho de que la locura es el modo en que este mundo está organizado hoy, produciendo guerra, hambre y sufrimiento y, sin embargo, no caerá podrido. Es necesario moverse.

En menos de una década vivimos, en Brasil, una serie de acontecimientos que hasta materializarse, eran tenidos como imposibles.

Cuando se decía que el pueblo brasileño era un pueblo pasivo, junio explotó en nuestras caras, sorprendiendo a todos, sin entender bien de dónde venía y ni hacia dónde iba. Una explosión de gente y revuelta en las calles.

Cuando todo parecía calmarse, la juventud negra y pobre de las periferias, dejó a la clase media histérica en los centros comerciales, y ni siquiera la izquierda veía en ellos algún sujeto de insubordinación.

Hemos tenido también en ese momento una huelga bellísima que, aunque restringida a una categoría en un solo estado, se ha convertido en un evento político poderoso porque en las imágenes de ella nos reconocemos como pueblo brasileño. Ver aquellos hombres y mujeres, en su inmensa mayoría negros, con sus ropas anaranjadas, de pie, llenas de odio de clase, en una huelga de basureros que silenciosamente gritaba “pasen ustedes el carnaval en la basura porque como basura no seremos más tratados”.

En el caso de las escuelas secundarias, los mismos estudiantes de escuelas tan lejos del centro – que ni siquiera los activistas organizan trabajo político -si se levantaran, ocuparan sus escuelas y dijeran “de aquí en adelante el gobierno de esas escuelas somos nosotras”. Niñas de quince años asumiendo el frente al lado de sus camaradas, e haciendo discursos, y enfrentándose con la represión.

Todo esto parecía imposible, pero sucedió.

Si ya vivimos en este mundo una revolución, venida exactamente de donde menos se esperaba, puede suceder otra vez.

Si ya fue posible para las mujeres soñar con una vida digna que no se resumía a esa farsa de la representación femenina en el parlamento o en espacios de dirección, si ya fué posible vislumbrar con los ojos un mundo en que fuésemos todas verdaderamente libres, puede suceder otra vez.

En mi opinión, estas son las más importantes lecciones de esta revolución de hace cien años, que necesitan ser resignificadas en nuestro tiempo, con nuestro color, en nuestro lugar, y pueden ser, siempre que aceptemos el desafío de disputar el futuro, hacer lo imposible y romper todas las amarras que empujan a nuestros ojos, sacando nuestro derecho de soñar con un cambio radical del mundo entero y de nuestras vidas.

 

Militante de las luchas por el territorio en las periferias de Brasil, y sobre todo, São Paulo. Escribe, canta, toca, baila y habla más de lo que debería. Comunista libertaria, feminista afro-indígena y favelada.

Militante das lutas do território nas periferias do Brasil e mais que tudo em São Paulo. Escreve, canta, toca, dança e fala mais do que deveria. Comunista libertária, feminista afro-indígena e favelada.

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Notas   [ + ]

1, 6. Frase da militante Emma Goldman (1869 – 1940).
2, 3, 7, 8. Megan Trudell, As mulheres de 1917 // Especial Revolução Russa in https://blogdaboitempo.com.br/2017/06/14/as-mulheres-de-1917-especial-revolucao-russ
4, 9. Movimento Mães de Maio – nasceu após as chacinas que ceifaram a vida de dezenas de jovens negros nas periferias do Estado de São Paulo ocorridas em maio de 2006
5, 10. Notícia de 01/02/2018 in https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/homem-e-detido-por-ejacular-em-mulher-dentro-de-onibus-no-centro-de-sp.ghtml

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