Arte: Elo7

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Tantos textos foram escritos neste janeiro em que relembramos o assassinato de Rosa Luxemburgo e Karl Liebkbnecht que minha pequena carta não se faz nenhum pouco necessária. Mas descobri com o tempo que há muitas coisas nessa vida que, embora tenham aparência desnecessária, respondem a necessidades imperiosas que nem sabemos nomear e que alimentam o peito e a cabeça de desejos e liberdade mudadora.

Muitas vezes tenho dito que minha relação com as teorias foi sempre selvagem, porque me relacionei primeiro com as pessoas que as reivindicam e só depois, pouco a pouco, com elas próprias. Isso acontece porque me tornei militante muito jovem, porque não estudei os estudos formais e porque a vida é sempre maior e mais rica do que as teorias são e serão capazes.

Todas as vezes que cantei, enquanto fazia assembleias em ocupações de terra povoadas de trabalhadoras e trabalhadores em luta, alguém me cutucava com este nome: Rosa Luxemburgo. Todas as vezes que senti amor profundo pelos bichos que cruzaram meu caminho pela vida, alguém me soprava num assovio este nome: Rosa Luxemburgo.

Que revolucionário poderia ser lembrado por sua capacidade de amar? Que revolucionário poderia ser lembrado pelo fato de que sua teoria – como qualquer uma, sempre incompleta – encontrava continuidade numa forma de ser e de viver que fossem, elas mesmas revolucionárias e revolucionadoras?

Talvez uma revolucionáriA, talvez uma mulher, talvez uma imigrante judia que mancava de uma perna e dançava pelo mundo convidando a tudo o quanto fosse estático a mover-se deste lugar de apatia para a dança da liberdade, ao redor do fogo que transforma até o aço mais duro.

A alma de Rosa destoa de todo pragmatismo duro, embora assumisse ela as cadeiras que – mesmo no movimento revolucionário – sempre estiveram endereçadas aos homens. Sua capacidade crítica profunda e radical não se opunha a uma lealdade que fazia com que traduzisse fielmente o discurso de seus opositores em ideias porque ela era, sempre, uma combatente leal no campo das diferenças políticas entre lutadores.

Eu li suas cartas de amor, aos amantes e aos amigos amados, antes de conhecer a ferocidade de sua elaboração sobre a acumulação de capital, que ainda gora é um solo firme em que podemos pisar – revolucionárias feministas e povos colonizados – para compreender a engrenagem que destroça nossa vida e que domina nossos corpos e territórios.

        Eu soube que Rosa dançava antes mesmo de haver tomado contato com a maneira impressionante com a qual elaborou sobre a greve geral como uma articulação potente que poderia ir muito além do economicismo corporativista que ainda agora assola muitas “esquerdas”.

        Eu conheci sua paixão pela vida antes de entender que a sua inflexível posição anti-guerra era, objetivamente, uma postura que salvaguardava essências revolucionárias, postura que se colocava radicalmente em oposição à ideia de que qualquer melhoria econômica da vida de um povo pode dar-se às custas do genocídio de outros povos.

        Tudo isso porque a maneira de ser e de viver de Rosa Luxemburgo fizeram dela uma revolucionária que apequenava as distâncias existentes entre intenção e gesto. Tudo isso porque ela caminhou, por revoluções e cárceres, por amores e rebeliões, por frustrações e alegrias sem deixar de sentir aquilo que pensava e sem deixar de viver a revolução que deseja construir, sem deixar de ser o mundo que também queria dar.

        Queria que fosse possível viajar no tempo, que Rosa pudesse nos visitar e passar um dia desses de verão nalguma roda de conversa lá na ocupação, junto de mulheres tão fortes como ela e olhando a forma louca que este capitalismo foi transformando a nossa classe sem que ela perca esse lugar essencial de sujeito (e não objeto guiado) de qualquer revolução. Eu a convidaria a subir com a gente ali no Pico do Jaraguá, onde vivem nossos compas indígenas e lhe contaria que o interesse dela pelos povos originários do Peru e sua maneira de viver só aumentaria em conhecendo indígenas destas terras, que tanto nos tem ensinado. Lhe contaria da catástrofe que o capitalismo repõe todos os dias – com a engrenagem de acumulação que ela soube enxergar, ainda que faltasse em Marx – encarcerando a vida, humana e não humana, na maldita prisão do progresso.

Eu gostaria de passear com Rosa nas marchas que nós mulheres construiremos no mês de março e de contar a ela o quanto seria débil nossa elaboração se não pudéssemos contar com tantas senhas que ela nos deixou de presente.

Falaria da desgraça dos governos progressistas, social-democratas-anacrônicos que usam o nome socialismo mas mantém tropas no Haiti, que reivindicam a cor vermelha enquanto dão as mãos a nossos assassinos e que falam em democracia ao tempo em que corroem a nossa identidade de classe, afirmando que só aliados a nossos algozes nós podemos caminhar (sem mostrar que caminhamos para o abismo ainda mais distópico que agora). Diria, que aqueles que a delataram seguem hoje delatando e entregando revolucionários nas mãos da direita e da contrarrevolução que professam falsamente combater.

Acho que depois de contar estas coisas eu calaria por muito tempo, pedindo conselhos e ouvindo atentamente sua sabedoria que sempre pôde encontrar – até mesmo em celas de prisão – os caminhos da esperança, da luta, do amanhã que construímos agora, de corpo presente nos combates pela liberdade e emancipação da humanidade e da natureza.

Como tais viagens não são ainda possíveis, brindarei em sua memória uma xícara de chá enquanto leio suas palavras, inscritas em teorias e lutas, impressas na memória e no peito de quem ousa, sempre, pensar diferente. Começarei com esta carta, que ela enviou a Sônia Liebkbnecht, um tesouro que compartilho com todas as mulheres que neste mundo lutam e vivem a revolução que desejamos ver florescer em toda parte.

_________________

 

Breslau, antes de 24 de dezembro de 1917.

 

Sonitchka, meu passarinho, fiquei tão contente com a sua carta! Queria responder imediatamente mas tinha muito o que fazer, e precisava de grande concentração, por isso não pude dar-me a esse luxo. Então preferi esperar uma oportunidade, pois é muito melhor poder tagarelar com você à vontade.

Pensei em você todos os dias ao ler as notícias da Rússia, e preocupei-me imaginando a sua enorme aflição a cada telegrama estúpido. O que de lá chega neste momento são, na maioria, informações de tártaros, e isso é duplamente verdadeiro no que se refere ao sul. O que importa às agências telegráficas (aqui e lá) é exagerar o mais possível o caos, e elas aumentam de maneira tendenciosa todo boato não confirmado. Até as coisas se esclarecerem, não tem sentido, não há razão para inquietar-se à toa, por antecipação. De modo geral, parece que as coisas se passam sem nenhum derramamento de sangue; em todo caso, os boatos sobre “combates” não foram confirmados. Trata-se simplesmente de uma áspera luta partidária a qual parece sempre, pela explicação dos correspondentes dos jornais burgueses, uma loucura desenfreada e um inferno. No que se refere aos pogroms contra judeus, todos os boatos nesse sentido são completamente falsos. Na Rússia, a época dos pogroms acabou de uma vez por todas. O poder dos trabalhadores e do socialismo é muito forte para isso. A revolução purificou de tal maneira a atmosfera dos miasmas e do ar sufocante da reação que Kichinev é para sempre passé. Tenho menos dificuldade em imaginar pogroms contra judeus na Alemanha… Aí reina sem dúvida a atmosfera de baixeza, covardia, reação e estupidez propícia para isso. Nesse ponto, você pode ficar totalmente tranqüila no que se refere ao sul da Rússia. Como as coisas desembocaram ali num conflito muito agudo entre o governo de São Petersburgo e a Rada, logo elas devem se resolver e esclarecer, o que permitirá ter um panorama da situação. De todos os pontos de vista não faz nenhum sentido, não há nenhum motivo para que você, na incerteza, se aflija, cheia de medo e inquietação. Tenha coragem, minha menina, mantenha a cabeça erguida, fique firme e tranqüila. Tudo vai melhorar, é só não ficar sempre à espera do pior!…

Eu tinha uma grande esperança de vê-la por aqui em breve, em janeiro. Agora soube que Mat[thilde]W[urm] quer vir em janeiro. Seria difícil para mim desistir da sua visita em janeiro, mas como é natural não posso decidir. Se você disser que só pode vir em janeiro, então talvez fique como estava; talvez Mat[thilde] W [urn] possa vir em fevereiro? Em todo caso, gostaria de saber logo quando a verei.

Faz agora um ano que Karl [Liebknecht] está na prisão em Luckau, neste mês pensei nisso com freqüência; faz exatamente um ano você esteve comigo em Wronke e me ofereceu a linda árvore de Natal… Este ano pedi que me comprassem uma, mas a que me trouxeram era muito reles, com galhos faltando – não tem comparação com a do ano passado. Não sei como vou pôr as oito velas que comprei. É o meu terceiro Natal no xadrez, mas não considere isso tragicamente. Estou calma e alegre como sempre.

Ontem fiquei muito tempo acordada – agora não consigo dormir antes da uma, mas preciso ir para cama às 10 porque a luz é apagada –, e então no escuro sonho com diversas coisas. Ontem então pensava: como é estranho eu viver permanentemente numa alegre embriaguês, sem nenhuma razão particular. Assim, por exemplo, estou aqui deitada nesta cela escura, num colchão duro como pedra, enquanto à minha volta, no edifício, reina a habitual paz de cemitério; parece que está no túmulo. Através da janela desenha-se no teto o reflexo do bico de gás ardendo a noite inteira em frente da prisão. De tempo em tempos ouve-se o ruído surdo de um trem que passa ao longe, ou então, bem perto, debaixo das minhas janelas, o pigarro da sentinela que, com suas botas pesadas, dá alguns passos lentos para desentorpecer as pernas. A areia estala tão desesperadamente sob esses passos que todo vazio e a falta de perspectivas da existência ressoam na noite úmida e sombria. E aqui estou deitada, quieta, sozinha, enrolada nos véus negros das trevas, do tédio, da falta de liberdade, do inverno – e, apesar disso, meu coração bate com uma alegria interior desconhecida, incompreensível, como se debaixo de um sol radiante estivesse atravessando um prado em flor. No escuro, sorrio à vida, como seu eu conhecesse algum segredo mágico que pune todo mal e as tristes mentiras, transformando-as em luz intensa e felicidade. E, ao mesmo tempo, procuro uma razão para essa alegria, não encontro nada, e tenho que sorrir novamente – de mim mesma. Creio que o segredo não é outro senão a própria vida; a profunda escuridão noturna é bela e suave como veludo, basta saber olhar. No estalar da areia úmida sob os passos lentos e pesados da sentinela canta também uma bela, uma pequena canção da vida – basta apenas saber ouvir. Nesses momentos penso em você. Gostaria tanto de passar-lhe essa chave mágica para que você percebesse sempre, em todas as situações, o que há de belo e alegre na vida, para que também você viva na embriaguês, como que caminhando por um prado cheio de cores. Longe de mim a idéia de contentá-la com ascetismo, com alegrias imaginárias. Concedo-lhe todas as verdadeiras alegrias dos sentidos. Só gostaria de dar-lhe também a minha inesgotável serenidade interior, para não me preocupar mais com você, para que andasse na vida com um manto de estrelas protegendo-a de tudo que é mesquinho, banal e angustiante.

Você colheu no parque de Steglitz um lindo buquê de bagos negros e rosa-violeta. Os bagos negros podem ser de sabugueiro – seus bagos pendem em cachos pesados e densos entre grandes feixes de folhas pinuladas, você certamente conhece – ou, mais provavelmente, de alfena: panícula de bagos, elegantes, graciosas, eretas, e folhinhas verdes, compridas e finas. Os bagos rosa-violeta, escondidos sob folhas bem pequeninas, podem ser de nespereira anã; na realidade, eles são vermelhos, mas neste período da estação, já demasiado maduros e começando a apodrecer, têm freqüentemente uma aparência violeta avermelhada; as folhinhas parecem-se com as do mirto, pequenas, afiladas na ponta, o lado de cima verde escuro, semelhante ao couro, o de baixo rugoso.

Soniucha, você conhece o poema de Platen, “Verhängnisvolle Gabel” [Garfo fatal]? Você poderia enviá-lo ou trazê-lo? Karl mencionou uma vez que tinha lido em casa. Os poemas de George são bonitos; agora sei de onde vem o verso “e sob o murmúrio do trigo erubescente”. [Umd unterm Rauschen rötlichen Getreides…] que você sempre recitava quando íamos passear no campo. Você poderia copiar para mim, quando for possível, o novo “Amadis”? Gosto tanto desse poema – naturalmente graças ao lied de Hugo Wolf –, mas não o tenho aqui. Você continua lendo a Lenda de Lessing? Retomei a História do materialismo, de Lange, que sempre me estimula e restaura. Gostaria tanto que você a lesse um dia desses.

Ah! Sonitchka, passei aqui por uma dor violenta. No pátio onde passeio chegam muitas vezes carroças do exército, abarrotadas de sacos ou túnicas velhas e camisas de soldados, muitas vezes manchadas de sangue…; são descarregadas, distribuídas pelas celas, consertadas, novamente postas nas carroças para serem entregues ao exército. Outro dia, chegou uma dessas carroças, puxada não por cavalos, mas por búfalos. Era a primeira vez que via esses animais de perto. São mais fortes e maiores que os nossos bois, têm a cabeça chata, chifres curvos e baixos, e uma cabeça totalmente negra, de grandes olhos meigos, que lembra a dos nossos carneiros. Vêm da Romênia, são um troféu de guerra… os soldados que conduziam a carroça diziam ser muito difícil capturar esses animais selvagens, e ainda mais difícil utilizá-los para carregar fardos, pois estavam acostumados à liberdade. Foram terrivelmente maltratados até compreenderem que perderam a guerra e que também para eles vale a expressão “vae victis” [ai dos vencidos]… Só em Breslau deve haver uma centena desses animais; acostumados que estavam às ricas pastagens da Romênia recebem ali uma ração parca, miserável. Trabalham sem descanso puxando todo tipo de carga e com isso não demoram a morrer. Há alguns dias então uma dessas carroças cheia de sacos entrou no pátio. A carga era tão alta que os búfalos não conseguiam transpor a soleira do portão. O soldado que os acompanhava, um tipo brutal, pôs-se a bater-lhes de tal maneira com o grosso cabo do chicote que a vigia da prisão, indignada, perguntou-lhe se não tinha pena dos animais. “Ninguém tem pena de nós, homens”, respondeu com um sorriso mau e pôs-se a bater ainda com mais força… Os animais deram finalmente um puxão e conseguiram transpor o obstáculo, mas um deles sangrava… Sonitchka, a pele do búfalo é proverbialmente espessa e resistente, e ela foi dilacerada. Durante o descarregamento, os animais permaneciam imóveis, esgotados, e um deles, o que sangrava, olhava em frente e tinha, na cara escura e nos olhos negros e meigos, uma expressão de uma criança em prantos. Era exatamente a expressão de uma criança que foi severamente punida e que não sabe por qual motivo, por que, não sabe como escapar ao sofrimento e a essa força brutal… eu estava diante dele, o animal me olhava, as lágrimas saltaram-me dos olhos – eram as suas lágrimas. Ninguém pode sofrer mais por um irmão querido do que eu sofri na minha impotência com essa dor silenciosa. Como estavam longe, perdidas, inacessíveis, as pastagens da Romênia, essas pastagens verdes suculentas e livres! Como tudo lá era diferente, o brilho do Sol, o sopro do vento, como eram diferentes os belos cantos dos pássaros ou o melodioso chamado do pastor. E aqui – esta cidade estrangeira, horrível, o estábulo sombrio, o feno mofado, repugnante, misturado com a palha apodrecida, os homens desconhecidos, assustadores, e – as pancadas, o sangue que corre da ferida aberta… Oh! meu pobre búfalo, meu pobre irmão querido, aqui estamos os dois tão impotentes e mudos, mas somos só um na dor, na impotência, na saudade. Entretanto os prisioneiros agitavam-se em volta do carro, descarregavam os pesados sacos e arrastavam-nos para dentro; já o soldado enfiara as mãos nos bolsos das calças e percorrendo o pátio com grandes passos, ria e assobiava baixinho uma canção da moda. Diante de mim a guerra desfilava em todo o seu esplendor.

Escreva logo.

 

Abraços,Sonitchka,

Sua R

 

Sonitchka, querida, fique calma e alegre apesar de tudo. Assim é a vida. É preciso tomá-la corajosamente, sem medo, sorrindo – apesar de tudo. Feliz Natal!

 

ROSA ROJA: LA REVOLUCIÓN COMO HURACÁN DE LIBERTAD Y AMOR

Arte: Elo7
Arte: Elo7

Tantos textos fueron escritos este enero en que recordamos el asesinato de Rosa Luxemburgo y Karl Liebkbnecht que mi pequeña carta no se hace ni un poco necesaria. Pero descubrí con el tiempo que hay muchas cosas en esta vida que, aunque tienen apariencia innecesaria, responden a necesidades imperiosas que ni sabemos nombrar y que alimentan el pecho y la cabeza de deseos y, con libertad cambiadora.

Muchas veces he dicho que mi relación con las teorías ha sido siempre salvaje, porque me relacioné primero con las personas que las reivindican y sólo después, poco a poco, con ellas mismas. Esto es porque me he convertido en militante muy joven, porque no he estudiado los estudios formales y porque la vida es siempre mayor y más rica de lo que las teorías son y serán capaces.

Todas las veces que canté, mientras hacía asambleas en ocupaciones de tierra pobladas de trabajadoras y trabajadores en lucha, alguien me pinchaba con este nombre: Rosa Luxemburgo. Todas las veces que sentí amor profundo por los bichos que cruzaron mi camino por la vida, alguien me soplaba en un silbido este nombre: Rosa Luxemburgo.

¿Qué revolucionario podría ser recordado por su capacidad de amar? ¿Qué revolucionario podría ser recordado por el hecho de que su teoría -como cualquiera, siempre incompleta- encontraba continuidad en una forma de ser y de vivir que fueran, ellas mismas revolucionarias y revolucionadoras?

Tal vez una revolucionariA, tal vez una mujer, tal vez una inmigrante judía que mancaba de una pierna y bailaba por el mundo invitando a todo lo que fuera estático a moverse de este lugar de apatía para la danza de la libertad, alrededor del fuego que transforma hasta el hierro más duro.

El alma de Rosa se diferencia de todo pragmatismo duro, aunque asumiera ella las sillas que -incluso en el movimiento revolucionario- siempre estuvieron dirigidas a los hombres. Su capacidad crítica profunda y radical no se oponía a una lealtad que hacía que tradujera fielmente el discurso de sus opositores en ideas porque era siempre una combatiente leal en el campo de las diferencias políticas entre luchadores.

Yo leí sus cartas de amor, a los amantes y a los amigos amados, antes de conocer la ferocidad de su elaboración sobre la acumulación del capital, que aún ahora es un suelo firme en el que podemos pisar – revolucionarias feministas y pueblos colonizados – para comprender el engranaje que destroza nuestra vida y que domina nuestros cuerpos y territorios.

Yo sabía que Rosa bailaba antes de haber tenido contacto con la manera impresionante huelga general con la que elaboró ​ una articulación potente que podría ir mucho más allá del economicismo corporativista que aún ahora asola muchas «izquierdas».

Yo conocí su pasión por la vida antes de entender que su inflexible posición anti-guerra era, objetivamente, una postura que salvaguardaba esencias revolucionarias, postura que se colocaba radicalmente en oposición a la idea de que cualquier mejora económica de la vida de un pueblo puede darse, al costo del genocidio de otros pueblos.

Todo esto porque la manera de ser y de vivir de Rosa Luxemburgo hicieron de ella una revolucionaria que achicaba  las distancias existentes entre intención y gesto. Todo esto porque ella caminó, por revoluciones y cárceles, por amores y rebeliones, por frustraciones y alegrías sin dejar de sentir lo que pensaba y sin dejar de vivir la revolución que deseaba construir, sin dejar de ser el mundo que también quería dar.

Quisiera que fuera posible viajar en el tiempo, que Rosa pudiera visitarnos y pasar un día de esos de verano en una rueda de conversación allá en la ocupación, junto a mujeres tan fuertes como ella y mirando la forma loca que este capitalismo fue transformando nuestra clase sin que ella perdiese ese lugar esencial de sujeto (y no objeto guiado) de cualquier revolución. Yo la invitaría a subir con nosotres al Pico de Jaraguá, donde viven nuestras compas indígenas y le contaría que el interés de ella por los pueblos originarios del Perú y su manera de vivir sólo aumentaría conociendo indígenas de estas tierras, que tanto nos han enseñado. Le contaría de la catástrofe que el capitalismo repone todos los días -con el engranaje de acumulación que ella supo ver, aunque faltara en Marx- encarcelando la vida humana y no humana en la maldita prisión del progreso.

 

Me gustaría pasear con Rosa en las marchas que las mujeres construiremos en el mes de marzo y contarle cuán débil sería nuestra elaboración si no pudiéramos contar con tantas contraseñas que nos dejó de regalo.

Hablar de la desgracia de los gobiernos progresistas, socialdemócrata-anacrónicos que usan el nombre socialismo pero mantienen tropas en Haití, que reivindican el color rojo mientras dan las manos a nuestros asesinos y que hablan en democracia al tiempo que corroen nuestra identidad de clase, afirmando que sólo aliados a nuestros verdugos podemos caminar (sin mostrar que caminamos hacia el abismo aún más distópico que ahora). Diría, que aquellos que la delataron siguen hoy delatando y entregando revolucionarios en las manos de la derecha y de la contrarrevolución que profesan falsamente combatir.

Creo que después de contar estas cosas yo callaría por mucho tiempo pidiendo consejos y escuchando atentamente su sabiduría que siempre pudo encontrar-incluso en celdas de prisión- los caminos de la esperanza, de la lucha, de la mañana que construimos ahora, de cuerpo presente en las luchas por la libertad y la emancipación de la humanidad y de la naturaleza.

Como tales viajes no son todavía posibles, brindaré en su memoria una taza de té mientras leo sus palabras, inscritas en teorías y luchas, impresas en la memoria y en el pecho de quien se atreve, siempre, a pensar diferente. Comenzaré con esta carta, que ella envió a Sonia Liebkbnecht, un tesoro que comparto con todas las mujeres que en este mundo luchan y viven la revolución que deseamos ver florecer en todas partes.

Breslau, antes de 24 de dezembro de 1917.

Sonitchka, meu passarinho, fiquei tão contente com a sua carta! Queria responder imediatamente mas tinha muito o que fazer, e precisava de grande concentração, por isso não pude dar-me a esse luxo. Então preferi esperar uma oportunidade, pois é muito melhor poder tagarelar com você à vontade.

Pensei em você todos os dias ao ler as notícias da Rússia, e preocupei-me imaginando a sua enorme aflição a cada telegrama estúpido. O que de lá chega neste momento são, na maioria, informações de tártaros, e isso é duplamente verdadeiro no que se refere ao sul. O que importa às agências telegráficas (aqui e lá) é exagerar o mais possível o caos, e elas aumentam de maneira tendenciosa todo boato não confirmado. Até as coisas se esclarecerem, não tem sentido, não há razão para inquietar-se à toa, por antecipação. De modo geral, parece que as coisas se passam sem nenhum derramamento de sangue; em todo caso, os boatos sobre “combates” não foram confirmados. Trata-se simplesmente de uma áspera luta partidária a qual parece sempre, pela explicação dos correspondentes dos jornais burgueses, uma loucura desenfreada e um inferno. No que se refere aos pogroms contra judeus, todos os boatos nesse sentido são completamente falsos. Na Rússia, a época dos pogroms acabou de uma vez por todas. O poder dos trabalhadores e do socialismo é muito forte para isso. A revolução purificou de tal maneira a atmosfera dos miasmas e do ar sufocante da reação que Kichinev é para sempre passé. Tenho menos dificuldade em imaginar pogroms contra judeus na Alemanha… Aí reina sem dúvida a atmosfera de baixeza, covardia, reação e estupidez propícia para isso. Nesse ponto, você pode ficar totalmente tranqüila no que se refere ao sul da Rússia. Como as coisas desembocaram ali num conflito muito agudo entre o governo de São Petersburgo e a Rada, logo elas devem se resolver e esclarecer, o que permitirá ter um panorama da situação. De todos os pontos de vista não faz nenhum sentido, não há nenhum motivo para que você, na incerteza, se aflija, cheia de medo e inquietação. Tenha coragem, minha menina, mantenha a cabeça erguida, fique firme e tranqüila. Tudo vai melhorar, é só não ficar sempre à espera do pior!…

Eu tinha uma grande esperança de vê-la por aqui em breve, em janeiro. Agora soube que Mat[thilde]W[urm] quer vir em janeiro. Seria difícil para mim desistir da sua visita em janeiro, mas como é natural não posso decidir. Se você disser que só pode vir em janeiro, então talvez fique como estava; talvez Mat[thilde] W [urn] possa vir em fevereiro? Em todo caso, gostaria de saber logo quando a verei.

Faz agora um ano que Karl [Liebknecht] está na prisão em Luckau, neste mês pensei nisso com freqüência; faz exatamente um ano você esteve comigo em Wronke e me ofereceu a linda árvore de Natal… Este ano pedi que me comprassem uma, mas a que me trouxeram era muito reles, com galhos faltando – não tem comparação com a do ano passado. Não sei como vou pôr as oito velas que comprei. É o meu terceiro Natal no xadrez, mas não considere isso tragicamente. Estou calma e alegre como sempre.

Ontem fiquei muito tempo acordada – agora não consigo dormir antes da uma, mas preciso ir para cama às 10 porque a luz é apagada –, e então no escuro sonho com diversas coisas. Ontem então pensava: como é estranho eu viver permanentemente numa alegre embriaguês, sem nenhuma razão particular. Assim, por exemplo, estou aqui deitada nesta cela escura, num colchão duro como pedra, enquanto à minha volta, no edifício, reina a habitual paz de cemitério; parece que está no túmulo. Através da janela desenha-se no teto o reflexo do bico de gás ardendo a noite inteira em frente da prisão. De tempo em tempos ouve-se o ruído surdo de um trem que passa ao longe, ou então, bem perto, debaixo das minhas janelas, o pigarro da sentinela que, com suas botas pesadas, dá alguns passos lentos para desentorpecer as pernas. A areia estala tão desesperadamente sob esses passos que todo vazio e a falta de perspectivas da existência ressoam na noite úmida e sombria. E aqui estou deitada, quieta, sozinha, enrolada nos véus negros das trevas, do tédio, da falta de liberdade, do inverno – e, apesar disso, meu coração bate com uma alegria interior desconhecida, incompreensível, como se debaixo de um sol radiante estivesse atravessando um prado em flor. No escuro, sorrio à vida, como seu eu conhecesse algum segredo mágico que pune todo mal e as tristes mentiras, transformando-as em luz intensa e felicidade. E, ao mesmo tempo, procuro uma razão para essa alegria, não encontro nada, e tenho que sorrir novamente – de mim mesma. Creio que o segredo não é outro senão a própria vida; a profunda escuridão noturna é bela e suave como veludo, basta saber olhar. No estalar da areia úmida sob os passos lentos e pesados da sentinela canta também uma bela, uma pequena canção da vida – basta apenas saber ouvir. Nesses momentos penso em você. Gostaria tanto de passar-lhe essa chave mágica para que você percebesse sempre, em todas as situações, o que há de belo e alegre na vida, para que também você viva na embriaguês, como que caminhando por um prado cheio de cores. Longe de mim a idéia de contentá-la com ascetismo, com alegrias imaginárias. Concedo-lhe todas as verdadeiras alegrias dos sentidos. Só gostaria de dar-lhe também a minha inesgotável serenidade interior, para não me preocupar mais com você, para que andasse na vida com um manto de estrelas protegendo-a de tudo que é mesquinho, banal e angustiante.

Você colheu no parque de Steglitz um lindo buquê de bagos negros e rosa-violeta. Os bagos negros podem ser de sabugueiro – seus bagos pendem em cachos pesados e densos entre grandes feixes de folhas pinuladas, você certamente conhece – ou, mais provavelmente, de alfena: panícula de bagos, elegantes, graciosas, eretas, e folhinhas verdes, compridas e finas. Os bagos rosa-violeta, escondidos sob folhas bem pequeninas, podem ser de nespereira anã; na realidade, eles são vermelhos, mas neste período da estação, já demasiado maduros e começando a apodrecer, têm freqüentemente uma aparência violeta avermelhada; as folhinhas parecem-se com as do mirto, pequenas, afiladas na ponta, o lado de cima verde escuro, semelhante ao couro, o de baixo rugoso.

Soniucha, você conhece o poema de Platen, “Verhängnisvolle Gabel” [Garfo fatal]? Você poderia enviá-lo ou trazê-lo? Karl mencionou uma vez que tinha lido em casa. Os poemas de George são bonitos; agora sei de onde vem o verso “e sob o murmúrio do trigo erubescente”. [Umd unterm Rauschen rötlichen Getreides…] que você sempre recitava quando íamos passear no campo. Você poderia copiar para mim, quando for possível, o novo “Amadis”? Gosto tanto desse poema – naturalmente graças ao lied de Hugo Wolf –, mas não o tenho aqui. Você continua lendo a Lenda de Lessing? Retomei a História do materialismo, de Lange, que sempre me estimula e restaura. Gostaria tanto que você a lesse um dia desses.

Ah! Sonitchka, passei aqui por uma dor violenta. No pátio onde passeio chegam muitas vezes carroças do exército, abarrotadas de sacos ou túnicas velhas e camisas de soldados, muitas vezes manchadas de sangue…; são descarregadas, distribuídas pelas celas, consertadas, novamente postas nas carroças para serem entregues ao exército. Outro dia, chegou uma dessas carroças, puxada não por cavalos, mas por búfalos. Era a primeira vez que via esses animais de perto. São mais fortes e maiores que os nossos bois, têm a cabeça chata, chifres curvos e baixos, e uma cabeça totalmente negra, de grandes olhos meigos, que lembra a dos nossos carneiros. Vêm da Romênia, são um troféu de guerra… os soldados que conduziam a carroça diziam ser muito difícil capturar esses animais selvagens, e ainda mais difícil utilizá-los para carregar fardos, pois estavam acostumados à liberdade. Foram terrivelmente maltratados até compreenderem que perderam a guerra e que também para eles vale a expressão “vae victis” [ai dos vencidos]… Só em Breslau deve haver uma centena desses animais; acostumados que estavam às ricas pastagens da Romênia recebem ali uma ração parca, miserável. Trabalham sem descanso puxando todo tipo de carga e com isso não demoram a morrer. Há alguns dias então uma dessas carroças cheia de sacos entrou no pátio. A carga era tão alta que os búfalos não conseguiam transpor a soleira do portão. O soldado que os acompanhava, um tipo brutal, pôs-se a bater-lhes de tal maneira com o grosso cabo do chicote que a vigia da prisão, indignada, perguntou-lhe se não tinha pena dos animais. “Ninguém tem pena de nós, homens”, respondeu com um sorriso mau e pôs-se a bater ainda com mais força… Os animais deram finalmente um puxão e conseguiram transpor o obstáculo, mas um deles sangrava… Sonitchka, a pele do búfalo é proverbialmente espessa e resistente, e ela foi dilacerada. Durante o descarregamento, os animais permaneciam imóveis, esgotados, e um deles, o que sangrava, olhava em frente e tinha, na cara escura e nos olhos negros e meigos, uma expressão de uma criança em prantos. Era exatamente a expressão de uma criança que foi severamente punida e que não sabe por qual motivo, por que, não sabe como escapar ao sofrimento e a essa força brutal… eu estava diante dele, o animal me olhava, as lágrimas saltaram-me dos olhos – eram as suas lágrimas. Ninguém pode sofrer mais por um irmão querido do que eu sofri na minha impotência com essa dor silenciosa. Como estavam longe, perdidas, inacessíveis, as pastagens da Romênia, essas pastagens verdes suculentas e livres! Como tudo lá era diferente, o brilho do Sol, o sopro do vento, como eram diferentes os belos cantos dos pássaros ou o melodioso chamado do pastor. E aqui – esta cidade estrangeira, horrível, o estábulo sombrio, o feno mofado, repugnante, misturado com a palha apodrecida, os homens desconhecidos, assustadores, e – as pancadas, o sangue que corre da ferida aberta… Oh! meu pobre búfalo, meu pobre irmão querido, aqui estamos os dois tão impotentes e mudos, mas somos só um na dor, na impotência, na saudade. Entretanto os prisioneiros agitavam-se em volta do carro, descarregavam os pesados sacos e arrastavam-nos para dentro; já o soldado enfiara as mãos nos bolsos das calças e percorrendo o pátio com grandes passos, ria e assobiava baixinho uma canção da moda. Diante de mim a guerra desfilava em todo o seu esplendor.

Escreva logo.

 

Abraços,Sonitchka,

Sua R

 

Sonitchka, querida, fique calma e alegre apesar de tudo. Assim é a vida. É preciso tomá-la corajosamente, sem medo, sorrindo – apesar de tudo. Feliz Natal!

 

Traducido por Helena Silvestre.

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