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A Mulher Na Lista Dos Dez Terroristas Mais Procurados Pelos E.U.A.

Por Helena Silvestre

 

Com a tradução e difusão dos escritos de Angela Davis para o português, nos demos conta de nossa ignorância acerca das mulheres negras que estão elaborando sobre muitos temas mas que lamentavelmente demoramos muitíssimo a conhecer; talvez porque suas contribuições tenham sido secundarizadas até mesmo pelas pessoas que se afirmavam como revolucionárias.

No Brasil, uma país majoritariamente negro, essa ignorância a que somos submetidas fortalece a dominação que pesa sobre nossas vidas e a exploração que nos arranca o sangue.

Dia desses me deparei com um texto muito interessante, na verdade um trecho extraído da autobiografia de uma mulher de quem eu sabia – e ainda sei – muito pouco. O texto imediatamente me fez apaixonar (Tranquilizem-se, vou compartilhar o link com vocês ao final).

Me encantou porque era fluido, porque a experiência que descrevia, contando sua própria história, era a imagem de uma experiência com a qual eu conseguia me identificar, constituída de sentimentos e olhares que uma mulher negra e pobre, comum como eu, poderia ter.

Ela procurava, como uma busca que conheço na pele, pontos em sua história que lhe dessem elementos para formular a história de uma classe, a classe trabalhadora, de um povo, o povo negro, de uma parte da humanidade, a parte explorada e oprimida.

O nome dessa mulher é Assata Shakur.

A Família Shakur é uma família da Costa Oeste dos Estados Unidos, que teve como seu mentor El Hajj Sallahudin Shakur, membro da Organização da União Afro-americana e próximo de Malcom X. Ele era pai biológico de dois dos líderes do Partido dos Panteras Negras mas era uma referência muito forte para vários dos jovens negros que começavam nesse momento sua militância. Muitos que gravitavam em torno de Sallahudin Shakur e eram membros não só dos Panteras Negras, mas de outras organizações revolucionárias Negras, consideravam-no como um pai e passavam a utilizar o sobrenome Shakur.

 

Assata Shakur se tornou parte da Família Shakur ao ser simbolicamente adotada por Sallahudin, ela era militante do Partido Panteras Negras. e adotou esse nome em 1971. Como decorrência da morte de policiais num tiroteio em Nova Jersey – que resultou na sua prisão – foi levada a julgamento por um júri totalmente constituído de pessoas brancas, condenada. Assata fugiu da prisão em 1979 contando com a ajuda de Mutulu Shakur e de membros de outras organizações, ficando foragida por anos até ir para Cuba em 1984, onde obteve asilo político. Mutulu foi preso  e condenado em 1986.

Como militante negra, Assata partilhava da ideia de que no sistema capitalista não haverá liberdade e igualdade ao povo negro, sabia que a luta contra o racismo é a luta contra todo este sistema e sua lógica. Como mulher lutou para que o movimento negro compreendesse que o machismo, assim como o racismo, não podia ser reproduzido pelos que lutam por um mundo justo, em palavras suas “O povo negro nunca será livre, a menos que a mulher negra participe de todos os níveis de nossa luta”.

Desde 2 de maio de 2005, o FBI classificou-a como uma terrorista doméstica e ofereceu uma recompensa de US $ 1 milhão por informações que levassem a sua captura. Em 2 de maio de 2013, o FBI adicionou-a à Lista de terroristas mais procurados; A primeira mulher a ser listada.

Nos anos 70, a imagem de Assata Shakur foi escancarada em cartazes oficiais de procurada do FBI e na imprensa, como evidência visual das motivações terroristas do movimento pela libertação negra. Militantes negros eram considerados inimigos do estado e eram associados aos desafios comunistas que democracia capitalista precisava vencer (eliminar). A longa busca por Assata, durante a qual ela foi demonizada de maneiras que hoje são inimagináveis, serviu depois para justificar o aprisionamento de um grande número de ativistas políticos, muito dos quais continuam presos até hoje.

Angela Davis escreveu um importante prefácio ao livro Assata: Uma autobiografia, que vale a pena ler e que se encontra, junto com vários outros interessantes materiais, no site /assatashakurpor.wordpress.com que mantém um pequeno acervo remontando a trajetória de Assata.

Também se encontra no site um texto que chamou muito minha atenção, do rapper Mos Def (conhecido desde 2011 por Yasiin Bey), de 2005, em que ele declara que aquela mulher negra, que o governo americano transformara numa espécie de supervilã inimiga é, para ele e para boa parte da comunidade negra americana, uma mulher perseguida por seus ideais.

O trecho que mencionei no início, e que foi a minha porta para conhecer um pequeno pedaço dessa história, é exatamente sua autobiografia. Me emocionei quando li suas palavras dizendo de maneira simples e como eu sinto, que não demora muito a uma mulher preta e pobre perceber que a opressão e exploração brutal que sobre ela pesa esta diretamente ligada à sua condição de classe; e que é triste quando alguém diz que um negro assumiu o topo do sucesso porque se há topo, há fundo do poço e nele sempre vão estar negros e não brancos.

Algumas passagens expressam contradições e desafios que perduram até hoje:

“Um membro de um grupo me disse que se eu realmente estava preocupada sobre a libertação do povo Preto, eu deveria largar a escola e arranjar um emprego numa fábrica, que se eu queria me livrar do sistema, eu deveria trabalhar numa fábrica e organizar os trabalhadores.

Quando eu perguntei por que ele não estava trabalhando numa fábrica e organizando os trabalhadores, ele me disse que estava ficando na escola para organizar os estudantes.

Eu disse que eu estava tentando mobilizar os estudantes também e que eu sentia perfeitamente que os trabalhadores poderiam se organizar por eles próprios sem nenhum universitário fazer isso por eles”.1

Gostaria de ter conhecido antes esse livro e essa história. Percebi que precisava eu também escrever sobre as coisas que atravesso pois que elas podem fazer sentido a outras mulheres, em outros lugares e outros tempos.

Percebi que posso ter diferenças políticas e teóricas também com mulheres negras, desenvolvendo ferramentas de olhar a vida e nela intervir.

Importante que o povo negro possa conhecer aqueles e aquelas que, aos trancos e barrancos, resistindo às balas, à fome e à cooptação, transformaram-se em elaboradores da nossa trajetória de resistência nessa enorme diáspora por toda a terra.

Da forma como eu vejo, são enormes os motivos para lê-la.

 

Assata – Uma Autobiografia disponivel em https://assatashakurpor.wordpress.com

 

 

Una mujer en la lista de los diez terroristas más buscados por los EE. UU.

Por Helena Silvestre

 

Con la traducción y difusión de los escritos de Angela Davis al portugués, nos dimos cuenta de nuestra ignorancia acerca de las mujeres negras que están desarrollando muchos temas, pero que lamentablemente tardamos muchísimo en conocer; tal vez porque sus contribuciones han sido secundarizadas incluso por las personas que se afirmaban como revolucionarias.

En Brasil, un país mayormente negro, esa ignorancia a que somos sometidas fortalece la dominación que pesa sobre nuestras vidas y la explotación que nos arranca la sangre.

En estos días me encontré con un texto muy interesante; en realidad, un extracto de la autobiografía de una mujer de quien yo sabía – y todavía sé – muy poco. El texto inmediatamente me enamoró (tranquilícense, voy a compartir el link con vosotras al final).

Me encantó porque era fluido, porque la experiencia que describía, contando su propia historia, era la imagen de una experiencia con la cual yo conseguía identificarme, constituida de sentimientos y miradas que una mujer negra y pobre, común como yo, podría tener.

Ella exploraba, como una búsqueda que conozco en la piel, puntos en su historia que le dieran elementos para formular la historia de una clase – la clase trabajadora, de un pueblo – el pueblo negro, de una parte de la humanidad – la parte explotada y oprimida.

El nombre de esa mujer es Assata Shakur.

La Familia Shakur es una familia de la Costa Oeste de Estados Unidos, que tuvo como su mentor El Hajj Sallahudin Shakur, miembro de la Organización de la Unión Afro-americana y próximo a Malcom X. Él era padre de dos de los líderes del Partido de los Panteras Negras pero era una referencia muy fuerte para varios de los jóvenes negros que comenzaban en ese momento su militância. Muchos que gravitaban en torno a Sallahudin Shakur y eran miembros no sólo de los Panteras Negras, sino también de otras organizaciones revolucionarias Negras, lo consideraban como un padre y pasaban a utilizar el sobrenome Shakur.

Assata Shakur se hizo parte de la Familia Shakur al ser simbólicamente adoptada por Sallahudin, ella era militante del Partido Panteras Negras. y adoptó ese nombre en 1971. Como decorrência de la muerte de policías en un tiroteo en Nueva Jersey – que resultó en su prisión – fue llevada a juicio por un jurado totalmente constituido de personas blancas, condenada y presa. Assata huyó de la prisión en 1979 contando con la ayuda de Mutulu Shakur y de miembros de otras organizaciones, quedando fugitiva por años hasta ir a Cuba en 1984, donde obtuvo asilo político. Mutulu fue prendido  y condenado en 1986.

Como militante negra, Assata compartía la idea de que en el sistema capitalista no habrá libertad e igualdad del pueblo negro, sabía que la lucha contra el racismo es la lucha contra todo este sistema y su lógica. Como mujer luchó para que el movimiento negro comprendiera que el machismo, así como el racismo, no podía ser reproducido por los que luchan por un mundo justo. En palabras suyas: “El pueblo negro nunca será libre sin que la mujer negra participe de todos los niveles de nuestra lucha”.

Desde 2 de mayo de 2005, el FBI la clasificó como una terrorista doméstica y ofreció una recompensa de US $ 1 millón por informaciones que llevaran su captura. El 2 de mayo de 2013, el FBI la añadió a la Lista de terroristas más buscados; La primera mujer a ser listada.

En los años 70, la imagen de Assata Shakur fue escancarada en carteles oficiales de procurada del FBI y en la prensa, como evidencia visual de las motivaciones terroristas del movimiento por la liberación negra. Militantes negros eran considerados enemigos del estado y eran asociados a los desafíos comunistas que la democracia capitalista necesitaba vencer (eliminar). La larga búsqueda por Assata, durante la cual ella fue demonizada de maneras que hoy son impensables, sirvió después para justificar el aprisionamiento de un grande número de activistas políticos, muchos de los cuales continúan prendidos hasta hoy.

Angela Davis escribió un importante prefacio al libro Assata: Una autobiografia, que vale la pena leer y que se encuentra, junto con varios otros interesantes materiales, en la pagina /assatashakurpor.wordpress.com, que mantiene un pequeño acervo remontando la trayectoria de Assata.

También se encuentra en la web un texto que llamó mucho mi atención, del rapper Mos Def (conocido desde 2011 por Yasiin Bey), de 2005, en que él declara que aquella mujer negra, que el gobierno americano hube transformado en una especie de supervilana enemiga es, para él y para buena parte de la comunidad negra americana, una mujer perseguida por sus ideales.

El extracto que mencioné en el inicio, y que fue mi puerta para conocer un pequeño pedazo de esa historia, es exactamente de su autobiografia. Me emocioné cuando leí sus palabras diciendo de manera simple y como yo siento, que no tarda mucho a una mujer negra y pobre percibir que la opresión y explotación brutal que sobre ella pesa está directamente conectada a su condición de clase; y que es triste cuando alguien dice que un negro asumió el tope del éxito porque se hay tope, hay fondo del pozo y en él siempre van a estar negros y no blancos.

Algunos pasajes expresan contradicciones y desafíos que persisten hasta hoy:

“Un miembro de un grupo me dijo que se yo realmente estaba preocupada sobre la liberación del pueblo Negro, yo debería largar la escuela y arreglar un empleo en una fábrica, que se yo quería librarme del sistema, yo debería trabajar en una fábrica y organizar los trabajadores.

Cuando pregunté por qué él no estaba trabajando en una fábrica y organizando los trabajadores, él me dijo que se estaba quedando en la escuela para organizar los estudiantes.

Yo dije que estaba intentando movilizar los estudiantes también y que sentía perfectamente que los trabajadores podrían organizarse por ellos propios sin ningún universitario hacer eso por ellos”. 1

Me gustaría haber conocido antes ese libro y esa historia. Percibí que necesitaba también escribir sobre las cosas que me atraviesan y que atravieso, ya que pueden tener sentido la otras mujeres, en otros lugares y otros tiempos.

Percibí que puedo tener diferencias políticas y teóricas también con mujeres negras, desarrollando herramientas para mirar la vida y en ella intervenir.

Es importante que el pueblo negro pueda conocer aquellos y aquellas que, a trancas y barrancas, resistiendo a las balas, al hambre y a la cooptación, se transformaron en elaboradores de nuestra trayectoria de resistencia en esa enorme diáspora por toda la tierra.

Del modo en que yo lo veo, son enormes los motivos para leerla.

Assata – Uma Autobiografia disponivel em https://assatashakurpor.wordpress.com

Militante de las luchas por el territorio en las periferias de Brasil, y sobre todo, São Paulo. Escribe, canta, toca, baila y habla más de lo que debería. Comunista libertaria, feminista afro-indígena y favelada.

Militante das lutas do território nas periferias do Brasil e mais que tudo em São Paulo. Escreve, canta, toca, dança e fala mais do que deveria. Comunista libertária, feminista afro-indígena e favelada.

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