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“Não há justiça se há sofrer, não há justiça se há temor,

e se a gente sempre se curvar. Kaô Cabecielle Xangô Obá-Iná ”

Obá Iná in Metá Metá – 2011 Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França.

 

Muitos amigos e amigas estão perplexos, revoltados e tristes, simplesmente não podem acreditar que Bolsonaro – ícone da misoginia, do racismo, do autoritarismo, da LGBTfobia, e outras ideologias fascistas – foi conduzido ao segundo turno das eleições com 46,03% dos votos.

Como? É o que se perguntam. Como alguém com ideias que representam o ódio e o belicismo aberto contra tudo aquilo que constitui o que chamamos povo, pôde ser tão bem votado por este próprio povo? A pergunta faz sentido, embora não seja efetiva em permitir uma reflexão que pede para que nos desloquemos a perceber o mundo desde outros olhos, diferentes dos nossos, para compreender em meio a quê estamos e, compreendendo, angariar ferramentas para definir a melhor forma de agir e de posicionar-se ante a catástrofe em curso.

Sim, a catástrofe está em curso; mas isso não é de hoje e estas eleições – embora sejam um capítulo sinistro da tragédia – são a exacerbação do que vivemos já há muitos anos. Ganhando Bolsonaro ou não, o fato é que houveram milhões de pessoas que entregaram a ele sua intenção de voto, demonstração de que as ideias conservadoras e preconceituosas do candidato ganharam espaço na sociedade brasileira.  Será mesmo? Será que agora estas ideias ganharam espaço? Ou será que estas ideias sempre foram bastante vivas na indiferença, por exemplo, ao genocídio permanente do povo negro e periférico? Um fenômeno como este não nasce dias ou meses antes das eleições, ele é fomentado paulatinamente, inclusive em nós, até que exploda em eventos que se apresentam como inesperados até mesmo àqueles que buscam pensar a realidade.

Em resumo, minha opinião é que o fato político de estar Bolsonaro no segundo turno das eleições expressa, de forma distorcida – como de modo geral as eleições expressam – o desgaste da confiança das pessoas na democracia representativa como solução dos problemas sociais que assolam o país.

 

Números

O candidato do PSL obteve 46,03% dos votos válidos, o que representou um total de 49 milhões de eleitores. Ele obteve a maior votação por estado na maioria dos estados do Brasil, com exceção dos estados da região Nordeste, onde Haddad obteve maior número de votos. Com sua votação expressiva, o militar conseguiu ampliar a bancada deste partido de aluguel, saltando de 1 para 52 congressistas.

No entanto, em que pese o enorme crescimento de seu número de parlamentares, o PT também elegeu uma grande bancada e conta com 56 parlamentares eleitos, constituindo a maior representação de um partido no congresso. Se encarada numericamente em seu conjunto, conquistou-se uma bancada numericamente significativa por parte da esquerda institucional. A fragmentação de candidatos no primeiro turno, com as figuras de Ciro Gomes, Marina Silva, Geraldo Alckmin, Amoedo e Daciolo, também puxaram votos que elegeram bancadas menores. A composição do congresso será correspondente ao que estes partidos conseguiram emplacar eleitoralmente.

Antes; o segundo turno das eleições se apresentará agora como uma grande coalizão com vários destes setores integrando uma frente eleitoral ampla contra Jair Bolsonaro.

O Brasil possui mais de 208 milhões de pessoas e dentre elas, 147 milhões são eleitores que estavam aptos a votar no primeiro turno destas eleições presidenciais. A quantidade de votos de cada candidato noticiada através de percentuais não deixa ver que, diferente do que parece ser à primeira vista, não foram quase metade dos brasileiros que votaram no radical de ultra-direita. Dos 147 milhões habilitados a votar, 20,3% não foram às urnas, contabilizando um total de quase 30 milhões de pessoas. Dentre os votos válidos, 6,14% da população votou nulo (9 milhões de pessoas) e 2,65% votaram em branco (3 milhões e meio de pessoas). No total, dos 147 milhões convocados a participar da festa da democracia, mais de 29 milhões de pessoas deixaram o convite guardado por não reconhecerem-se nos convidados.

O número de abstenções em eleições vem aumentando no Brasil. O voto obrigatório é uma infeliz amarra que ainda não deixa ver, de fato, a quantidade de pessoas que acreditam e se movem de forma voluntária para fazer acontecer o processo representativo eleitoral periodicamente. Só em 1998 (depois de um processo de desgaste duro com a democracia, passando pelo impeachment de Collor, pela assunção de Itamar Franco e depois pela eleição do liberal Fernando Henrique Cardoso) o número de abstenções foi tão elevado.

Um quinto das pessoas convidadas abdicou de dançar na festa democrática.

Democracia desacreditada em que o militar ultra-conservador angaria 19 milhões de votos a mais que o jovem liberal de narrativa progressista.

O desgaste da democracia representativa tal como conhecemos como via alternativa às mazelas da vida cotidiana tem suas origens em processos que ocorreram, no entanto, bem antes das eleições e só assim se pode compreender muitos destes números.

 

Das Jornadas de Junho de 2013 para cá

O primeiro turno das eleições presidenciais foi envolvido por um clima absolutamente tenso em que sentimos medo e vontade de brigar, ao mesmo tempo. Nossos violentos impulsos de sobrevivência aflorados (e bastante confusos sob a pressão do bombardeio midiático oficial e/ou alternativo) esteve posto nas ruas, nas discussões de bar ou nos almoços de família.

Desde 2013 estamos abertamente inseridos em uma crise política que não termina.

A desconfiança em relação às instituições do regime é muito grande e a democracia representativa vem sendo desacreditada sob as balas da polícia militar exterminando paulatinamente um número de negros e negras, indígenas e pobres periféricos, maior que a ditadura civil-militar.

A expressão da crise econômica mundial chegou ao Brasil gerando desgaste na popularidade de um governo que se assentou na pacificação política (construída sobre a perspectiva de conciliação entre classes), popularidade que os governos do PT puderam sustentar – apesar de governar para o capital – através da inclusão de segmentos de trabalhadores pobres no mercado como novos consumidores, ampliando o endividamento e o acesso a bens que foram cada vez mais privatizados, como educação, moradia e saúde, ou transferidos à esfera individual, como no caso dos transportes associado a política de acesso à compra de veículos.

Os setores sociais recém inseridos nesse lugar de novos-consumidores-endividados, assimilaram como real a ilusão com uma aparente emergência de desenvolvimento para todos, já que ela parecia encontrar corpo físico neles mesmos, materializada em sua própria trajetória individual ascendente, em direção à universidade, ao carro zero e ao emprego precário mas formal.

Tudo isso realmente aconteceu mas, embora tenham ampliado as margens do mercado consumidor, de tão pífias, as políticas dos governos do PT sequer atingiram o grosso da população que precisaria ser “incluída”.

A pobreza seguiu sendo exterminada em chacinas mensais espalhadas pelas periferias de todo o país, os camelôs e os ambulantes – aumentando em velocidade correspondente ao desemprego – são cada vez mais reprimidos e vigiados, a lei antiterror, a criminalização das drogas e do aborto, o avanço do agronegócio sobre a natureza e comunidades de povos da terra, o exército nas favelas, o encarceramento em massa e o fortalecimento do caráter punitivista do estado penal brasileiro aprofundaram-se durante os anos de governo do PT sem que os recém inseridos nas margens do consumo se solidarizassem com quem estava em condição ainda mais vulnerável às oscilações do capital.

O discurso de desenvolvimento e direitos para todos era propagado pelo governo como fórmula justa em que, tanto os mais pobres quanto o grande capital, sairiam sempre beneficiados. Os que puderam ser “incluídos” viam a si próprios e sua breve emergência como prova da justeza deste discurso, relegando aos não “incluídos” a responsabilidade por sua “não inclusão”, já tão bem expressa nos termos do machismo, do racismo, da xenofobia, da LGBTfobia e da meritocracia. Não surpreende, portanto, que ideias conservadoras não combatidas desde o aparato institucional de estado (cedendo sempre ao discurso religioso) tenham se fortalecido entre a população.

Os impactos da crise econômica encontraram uma grave perturbação política, certa descrença nos caminhos de solução por dentro da ordem e uma esquerda incapaz de realizar uma crítica radical ao modus-operandi da política institucional, desenvolvimentista e progressista, incapaz de articular um projeto que apresentasse a ruptura com a ordem, com a qual a própria esquerda se confundiu ao longo do período de três mandatos.

A agudização da crise acelerou a corrosão da influência do PT – que passou a ser traduzível unicamente na esfera econômica de consumo de bens – mas não gerou setores que lograssem organizar-se coletivamente para disputar a desilusão nas instituições no sentido de fomentar os elementos contraditoriamente mais rebeldes que essa desilusão agencía.

Essa desilusão, imóvel e silenciosa, não soava dissonante ao consenso social hegemônico até que as manifestações de junho de 2013 contra o aumento das tarifas de transporte coletivo fez explodir nas ruas a revolta que, efemeramente unificou os “não incluídos” (porque são estes os mais atingidos pela porca política de transportes, na medida em que concentram-se nas favelas e regiões mais inacessíveis das intransitáveis metrópoles) e alguns dos “recém-incluídos” que, com a crise, viram sua trajetória emergente encontrar o colapso, ladeira abaixo (como os jovens formados no ensino superior de universidades privadas consideradas como de segunda classe através de programas de governo – que transferiram dinheiro público aos barões da educação privada – mas que não puderam inserir-se no mercado de trabalho em suas áreas de estudo, encontrando, no máximo, postos de trabalho violentamente precarizados, admitindo uma contradição na lógica do “estude, trabalhe, se esforce, que você consegue”. Eles não estavam conseguindo muita coisa).

Houve eleições presidenciais depois de 2013 e em vários dos locais onde, no primeiro turno, quem ganhou foi a ultra-direita, o PT foi o mais bem votado, elegendo novamente Dilma Roussef que, no entanto, iniciou seu governo restringindo o acesso ao PIS, ao seguro desemprego e ao abono salarial, para falar de políticas de ajuste com grande impacto entre os já desassistidos pelo estado.

A pouca diferença entre gestões PTistas e gestões conservadoras no momento de crise e ajuste colaborava com a identificação de todos os partidos da ordem e foi contra tudo e contra todos que junho explodiu selvagem e confusamente nas mobilizações, sendo sequestrado posteriormente pela direita que foi às ruas disputar o sentido da revolta posta enquanto o PT condenava as manifestações como irresponsáveis, porque não organizadas segundo seus próprios critérios do que é estar organizado ou não.

Os mais vulneráveis à crise não encontravam em nenhum discurso de crítica ao PTismo os elementos de radicalidade que buscavam, empurrados por ódio, desemprego, bombardeio ideológico e descrença nas instituições.

Nem o PT e nem o PSDB pareceram encontrar grande eco nessa multidão revoltada em 2013, nas greves de garis, nas escolas ocupadas ou nos rolezinhos. Nem esquerda e nem direita, termos que pareciam não significar muita coisa.

A burguesia, então, não precisava do PT para mais nada. Se ele já não era capaz de acalmar, com reuniões e símbolos, a revolta das ruas, para quê eles serviriam? Se foram capazes de fazê-lo apenas quando a economia internacional permitia migalhas sociais e lucro recorde aos bancos, não eram mais úteis no árido cenário de ajuste duro e ataque aos direitos que o capital internacional impunha com sua agenda de “recuperação da crise”.

Com o sequestro da revolta para uma nova canalização por dentro da ordem, a corrupção tornou-se o vértice do debate político nacional e a ideia de que todos são corruptos se instalou tão rápido que o antigo chavão malufista do “rouba mas faz” se popularizou também entre ativistas de “esquerda” a defender seus candidatos.

A caça aos corruptos estava aberta mas, seguindo o padrão de democracia brasileiro, a caça a alguns corruptos estava aberta, a outros não, como sempre.

O povo mais pobre não saiu às ruas para derrubar Dilma Roussef.

No entanto, o povo mais pobre tampouco foi às ruas impedir sua queda ou lutar em sua defesa. O PT perdeu sua capacidade mais interessante ao capital: a de acalmar os movimentos insurgentes, integrando-os – imobilizados – ao estado. O outro lado da mesma moeda é que esta perda se deu exatamente porque o PT optou por ser o gestor do capital, contra os trabalhadores, embora não estivesse o tempo todo enfrentado com eles, já que houve momento em que as políticas assistenciais eram possíveis sem tocar nos lucros capitais.

Impeachment.

Michel Temer degradou ainda mais a confiança na possível saída democrática ao mesmo tempo em que imprimia golpes aos trabalhadores.

 

Violência, segurança, racismo, machismo

Desde então muitas lutas seguem ocorrendo.

Uma greve geral contra a aprovação da proposta de reforma da previdência – que precarizaria muito mais os já vulneráveis – foi construída e teve força de paralisação impressionante nas grandes capitais brasileiras.

Os indígenas guaranis do pico do Jaraguá tomaram as torres de comunicação e deixaram sem sinal de TV a mais de 600 mil pessoas, fazendo com que o governo de Geraldo Alckmin recuasse da privatização do parque estadual do Jaraguá.

As mobilizações das mulheres seguiram ocorrendo: em defesa da legalização do aborto, mobilizadas em repúdio a episódios de machismo (como o que se tornou notório do sujeito que ejaculou uma jovem mulher dentro de um ônibus e foi liberado pelo juiz que considerou sua violência como “ação sem constrangimento”) e com manifestações e greves radicais nos meses de março.

O avanço da luta das mulheres – uma das discussões que se enraizaram em nossa sociedade há poucas décadas mas que parece não arrefecer, tomando fôlego novo à partir de debates que postulam a situação de negras e indígenas, a relação da dominação das mulheres com a dominação dos territórios, a quebra dos padrões de conduta e estética e a descolonização – parece ter fragilizado a representação do que é masculinidade em nossa sociedade e, diante desse abalo, um candidato homem, branco, conservador, religioso, machista e misógino parece plasmar a tentativa irascível de repôr as “coisas em seu lugar”.

O machismo, como parte da lógica de funcionamento social a que estamos expostos e submetidos, foi alimentado como fórmula racionalizada da justificação de injustiças por tanto tempo que, agora, mesmo quando em questão, mesmo quando abalado pela maré feminista que ronda vários países e contextos associando-se a momentos de ascenso e explosão de lutas nas ruas, ainda se utiliza de seu modus operandi tradicional para tentar reestruturar-se como ideologia organizadora do caos, da “ausência de valores, ausência de deus, ausência da família e das tradições”.

A conivência terrificante com a misoginia de Bolsonaro talvez se explique se pensarmos que o Brasil é um dos países que mais mata mulheres, que os recursos necessários para uma digna implantação da lei Maria da Penha nunca chegaram, que o estado nunca postulou seriamente a legalização do aborto e que as mulheres assassinadas todos os dias são em sua maioria pobres e não brancas, invisíveis até mesmo para a social democracia operando desde o estado ou como oposição eleitoral ao grupo no estado. Assim, a conivência com a misoginia – que Bolsonaro exacerba em seu discurso – não é, também, de agora. Bolsonaro é uma exacerbação da doença que vivemos democracia adentro.

As mulheres negras têm sido protagonistas de duríssimas lutas contra políticas que atravessaram governos muito diferentes entre si. A exemplo disso, poderia-se falar do enfrentamento à política de privatização do direito à moradia, tornando-o mercadoria consumível por setores “incluídos” mas só acessada pelas “não incluídas” pela via de ocupações de terra onde as mulheres não brancas são maioria (pesado aqui o fato de que, via de regra, são representadas por homens, brancos, oriundos dos setores médios) e onde questionam a propriedade privada em ato.

Ainda observando os processos de resistência onde estão inseridas, pode-se perceber que questões centrais sobre a violência de estado, como o encarceramento e o extermínio da população negra, têm sido tomadas nas mãos exatamente por mulheres negras e pobres. São as Mães de Maio, são mulheres organizadas em associações de amigos e familiares de pessoas privadas de liberdade. Elas, as mulheres negras por quem os progressistas nunca temeram ou lamentaram, foram as únicas a recuperar do ponto de vista radical a discussão sobre o tema da segurança pública.

Inevitável falar de segurança pública quando tocamos o tema do racismo que, no Brasil, é alimentado desde há 500 anos. A escravidão é uma chaga na carne da população negra sangrando até hoje entre becos e vielas, trabalhando mais e recebendo menos, alvo de ataques que sequer podem ser denunciados porque não são considerados crimes ou ainda apodrecendo nas prisões.

 Nossa população sequer se reconhece como negra, indígena ou afro-indígena e as anêmicas políticas de cotas nas universidades públicas ou concursos não alteraram o extermínio e encarceramento estruturais, fazendo com que alguns setores de “negros incluídos” se distanciassem ou moderassem suas propostas de país em relação ao conjunto dos negros “não incluídos”.

Aqui, outra vez, podemos perceber a continuidade da postura conivente com o racismo. Quem não combate o racismo, colabora com ele e a esquerda tradicional distanciada das pressões sofridas pelos mais pobres, se aproximou dos debates de raça e gênero com a ótica oportunista da criação de nichos eleitorais que pudessem catapultar seus candidatos ao parlamento, engrossando suas bancadas. A conivência com o racismo tampouco é de agora e muitos de nós temos ouvido, há pelo menos dois anos, que a culpa é do povo, “burro, ignorante e que não sabe votar”. A culpabilização da vítima é uma lógica que foi observada no machismo, no racismo e parece estender seus tentáculos ao pensamento que se arvora progressista.

 

Dos limites da democracia burguesa em um país colonizado

A democracia burguesa, no Brasil, não pode ser pensada sem acolher o fato histórico da escravidão de negros e indígenas. O mito da democracia racial afirmava que brancos e negros seriam iguais, afirmava que os negros e negras seriam livres e a abolição aconteceu depois de muitas revoltas afogadas em sangue negro. A violência é sempre uma marca dos países que foram atravessados pela diáspora negra forçada.

Libertos de sua condição de mercadorias vendáveis à vista, os negros e negras foram incorporados como explorados de segunda classe, ainda mais subalternizados que o conjunto dos trabalhadores em geral. O mito da democracia racial seguramente informou a concepção de democracia a que estamos submetidos: a fórmula democrática é a melhor aparência do engano: ela faz com que os explorados legitimem a sua exploração, faz com que participem do arranjo em que são subalternizados colocando-nos – tal como no mercado a vender nossa força de trabalho – em posição aparentemente igual à de nosso explorador, dono, senhor, algoz ou presidente.

Aquilo que se convencionou denominar “esquerda” deixou de articular sua atuação cotidiana com a perspectiva de ruptura com o estado burguês. É em busca de chegar a ele que operam e se posicionam, é tentando salvá-lo do descrédito que recuam em suas proposições a cada vez que o povo pobre quebra tudo nas ruas em revolta e violência.

Essa ideia de democracia como caminho e arranjo superiores de organização social – que boa parte das esquerdas busca e afirma em seus programas – é espelhada num breve momento de exceção, que ocorreu durante algumas décadas, em uma parte do mundo, mais precisamente na Europa (e depois um pouco nos Estados Unidos) e que mesmo lá tardou, por exemplo, em abarcar até as mulheres brancas.

A democracia que se afirma no rumo do desenvolvimento-econômico-integração-pelo- estado, que se postula como saída geral para os problemas da humanidade, é uma formulação ocidental que nunca se generalizou porque só existiu às custas do sangue de continentes inteiros.

Esse sangue que jorra em nossas vielas foi banalizado pelo Estado e tratado sem qualquer elaboração especial por parte das esquerdas por muito tempo. O fenômeno do fascismo é sim muito perigoso, na verdade, o fenômeno do fascismo está presente como elemento constitutivo das democracias burguesas (sobretudo em países colonizados) e se apresenta como o narcisismo que pretende destruir e eliminar tudo aquilo com o qual o ego não se identifica.

A manutenção do encarceramento, do racismo institucional, das polícias militares, do monopólio da violência nas mãos do estado capitalista ou de seus co-gestores pára-estatais deixou de ser ponto de elaboração essencial dos progressistas e, em meio ao caos da vida em colapso com as políticas de ajuste, tema que ficou, ao menos publicamente, apenas nas propostas fascistas da ultra-direita. Nenhuma das “esquerdas” pleiteantes no circo eleitoral teve a ousadia de postular o debate da segurança e do armamento, do fim da polícia militar e do direito à autodefesa 1)O Atlas da Violência 2017 traz alguns dados: 318 mil jovens entre 15 e 29 anos foram assassinados entre 2005 e 2015; de cada 100 vítimas, 71 são negras; entre 2005 e 2015 aumentou o número de mulheres negras vítimas de assassinato, saltando de 54% em 2005 para 63% em 2015.

Na realidade, uma conversa de surdos se encadeou entre duas claques: prisão ou não prisão para os corruptos. E todos deram sua módica colaboração para uma ainda maior judicialização e militarização da elaboração política.

Estamos diante da democracia em sua face mais visceral, aquela que acolhe o fascista como candidato a ser democraticamente eleito. Que tipo de loucura é essa? Pois me parece, ao final, que é esta a essência de nossa democracia e nos assusta perceber que ela produziu esta excrescência que é, na realidade, a imagem incômoda daquilo com o que temos compactuado.

 

Kaô Cabecielle – Preparar a batalha

Tenho muitas dúvidas sobre a possibilidade de inversão do quadro eleitoral. O que mais me surpreendeu foi a rejeição ao PT. Devo confessar que o discurso de Bolsonaro sempre preocupou a todos nós mas eu, particularmente, subestimei este anti-PTismo. Contra ele também há que lutar, posto que encarnar em um partido da ordem a origem de nossos problemas nos joga outra vez nas raias democrático-burguesas.

Há elementos importantes que devem ser considerados como, por exemplo, o posicionamento dos setores mais reacionários do PSDB (Alckmin) explicando ao empresariado paulista que eleger o militar lançaria o país em um cenário menos rentável à acumulação.

Não é impossível que uma inversão ocorra mas o risco de eleição de Bolsonaro é agora efetivo.

No entanto, independente do resultado das eleições, o que nos espera é uma situação terrível e ainda mais violenta justamente para nós, negras e pobres, onde a polarização social entre as classes, transbordando o período eleitoral, se generalize com enfrentamentos corpo a corpo.

É preciso mover-se e tomar as ruas, aqueles que as abandonaram durantes os últimos quinze anos precisam voltar a elas, mas tenho dúvidas também acerca de como reagirão ao deparar-se com a realidade complexa e inincaixável em suas categorias analíticas puras. Também tenho dúvidas da popularidade que conseguirá angariar o seu anêmico projeto de mundo onde os negros e favelados figuram outra vez sendo assassinados enquanto compram carros através de financiamento.

O que foi aberto com a ascensão rápida do apoio ao fascista não pode ser combatido nas urnas, é nas ruas que precisa ser combatido, é com articulação, com solidariedade entre trabalhadores, pretos, pobres, favelados. É preciso organizar a autodefesa de nossa gente, é preciso preparar-se para um combate em que nos postamos como não dispostos a perder mais nenhum de nossos mestres, seja através de 12 facadas, seja através de 12 anos de engodo e apaziguamento. Nós, mulheres precisamos organizar nossa autodefesa, não podemos deixar que nenhuma outra marca a ferro e fogo seja impressa em nossas carnes, marcadas há 500 anos pelo capital.

Essa prática de resistência-enfrentamento é imediata. Dentro dela haverá a unidade de setores do ativismo muito diferentes entre si. A mim parece que mais sucesso em organizar e lutar para além das eleições terão aqueles que não tiverem receio de posicionarem-se abertamente contra a ideia de que esta democracia é o melhor lugar a que podemos chegar. Acredito que relações de confiança serão mais facilmente fomentadas pelos que ousarem falar sobre o direito do povo preto de se defender, do direito das mulheres de se defender, do direito dos trabalhadores se defenderem. O pacifismo oculta, em sua grita pela paz, os nossos corpos varados por balas e cobertos por lençóis nas vielas de nossas quebradas.

Neste momento difícil, me recordo da experiência dos Panteras Negras (sobre a qual tenho fundas críticas) e penso que se algo pode em longo prazo nos fazer sair do lodaçal em que nos metemos democraticamente, esse algo precisa ser radicalmente contra a ordem estabelecida e o status quo, esse algo precisa denunciar todas as formas de fascismo e denunciar, inclusive, os elementos fascistas que subsistem na forma democrático burguesa quando esta é elaborada como única forma de organização social que sintetiza com neutralidade todas as necessidades de todos os povos – ideia de universal englobante de todas as distinções e, portanto, também narcisista.

Há muito medo espalhado pelo ar. Ele toma nossos pulmões e quase não conseguimos respirar envoltos na névoa bélica que atravessa as discussões sobre nosso futuro próximo. É preciso se organizar e combater construindo greves e ocupações. É preciso sair às ruas e respirar. É preciso tomar as ruas e resistir. É preciso confrontar e combater, é pela vida, pelas nossas vidas.

 

 

ELECCIONES 2018: ¿CUÁL ES EL FUTURO DE ESTE VIEJO PRESENTE?

 

“No hay justicia si hay sufrimiento, no hay justicia si hay temor,

y si nosotros siempre nos doblamos. Kaô Cabecielle Xangô Obá-Iná”

Oba Ina en Meta – 2011 Kiko Dinucci, Juçara Marcal y Thiago França.

 

Muchos amigos y amigas están perplejos, indignados y tristes, simplemente no pueden creer que Bolsonaro – icono de la misoginia, del racismo, del autoritarismo, de la LGBTfobia, y otras ideologías fascistas – fue conducido a la segunda vuelta de las elecciones con el 46,03% de los votos .

¿Cómo? Es lo que se preguntan. ¿Cómo alguien con ideas que representan el odio y el belicismo abierto contra todo lo que constituye lo que llamamos pueblo, puede ser tan bien votado por este pueblo? La pregunta tiene sentido, aunque no es efectiva en permitir una reflexión que pide que nos desplazamos a percibir el mundo desde otros ojos, diferentes de los nuestros, para comprender en medio a qué estamos y, comprendiendo, recoger herramientas para definir la mejor forma de actuar y posicionarse ante la catástrofe en curso.

Sí, la catástrofe está en curso; pero eso no es de hoy y estas elecciones -aún que sean un capítulo siniestro de la tragedia- son la exacerbación de lo que hemos vivido desde hace muchos años. Ganando Bolsonaro o no, el hecho es que hubo millones de personas que le entregaron su intención de voto, demostración de que las ideas conservadoras y prejuiciosas del candidato ganaron espacio en la sociedad brasileña. ¿De verdad? ¿Será que ahora estas ideas ganaron espacio? ¿O es que estas ideas siempre han sido bastante vivas en la indiferencia, por ejemplo, al genocidio permanente del pueblo negro y periférico? Un fenómeno como este no nace días o meses antes de las elecciones, es fomentado permanentemente, incluso en nosotros, hasta que explota en eventos que se presentan como inesperados incluso a aquellos que buscan pensar la realidad.

En resumen, mi opinión es que el hecho político de estar Bolsonaro en la segunda vuelta de las elecciones expresa, de forma distorsionada – como en general las elecciones expresan – el desgaste de la confianza de las personas en la democracia representativa como solución de los problemas sociales que asolan el país.

 

Números

El candidato Bolsonaro obtuvo el 46,03% de los votos válidos, lo que representó un total de 49 millones de electores. Obtuvo la mayor votación por provincias en la mayoría de las provincias de Brasil, con excepción de las provincias de la región Nordeste, donde Haddad obtuvo mayor número de votos. Con su votación expresiva, el militar logró ampliar la bancada de este partido de alquiler, saltando de 1 a 52 congresistas.

Sin embargo, pese al enorme crecimiento de su número de parlamentarios, el PT también eligió una gran bancada y cuenta con 56 parlamentarios electos, constituyendo la mayor representación de un partido en el congreso. Si se mira numéricamente en su conjunto, se conquistó una bancada numéricamente significativa por parte de la “izquierda institucional”. La fragmentación de candidatos en la primera vuelta, con las figuras de Ciro Gomes, Marina Silva, Geraldo Alckmin, Amoedo y Daciolo, también sacaron votos que eligieron bancadas menores. La composición del congreso será correspondiente a lo que estos partidos lograron electoralmente.

Antes; la segunda vuelta de las elecciones se presentará ahora como una gran coalición con varios de estos sectores integrando un frente electoral amplio contra Jair Bolsonaro.

Brasil tiene más de 208 millones de personas y entre ellas, 147 millones son electores que estaban aptos para votar en la primera vuelta de estas elecciones presidenciales. La cantidad de votos de cada candidato noticiada a través de porcentajes no deja ver que, a diferencia de lo que parece ser a primera vista, no fueron casi la mitad de los brasileños que votaron en el radical de ultra-derecha. De los 147 millones habilitados para votar, el 20,3% no fue a las urnas, contabilizando un total de casi 30 millones de personas. Entre los votos válidos, el 6,14% de la población votó nulo (9 millones de personas) y el 2,65% votaron en blanco (3 millones y medio de personas). En total, de los 147 millones convocados a participar en la fiesta de la democracia, más de 29 millones de personas dejaron la invitación guardada por no reconocerse en los invitados.

El número de abstenciones en las elecciones viene aumentando en Brasil. El voto obligatorio es una infeliz cadena que aún no deja ver, de hecho, la cantidad de personas que creen y se mueven de forma voluntaria para hacer ocurrir el proceso representativo electoral periódicamente. Sólo en 1998 (después de un proceso de desgaste duro con la democracia, pasando por el impeachment de Collor, por la asunción de Itamar Franco y después por la elección del liberal Fernando Henrique Cardoso) el número de abstenciones fue tan elevado.

Un quinto de las personas invitadas abdicó de bailar en la fiesta democrática.

Democracia desacreditada en que el militar ultra-conservador recaudó 19 millones de votos más que el joven liberal de narrativa progresista.

El desgaste de la democracia representativa tal como conocemos como vía alternativa a las molestias de la vida cotidiana tiene sus orígenes en procesos que ocurrieron, sin embargo, bien antes de las elecciones y sólo así se pueden comprender muchos de estos números.

 

De las Jornadas de lucha por el transporte en junio de 2013 hasta ahora

La primera vuelta de las elecciones presidenciales estuvo envuelta por un clima absolutamente tenso en el que sentimos miedo y voluntad de pelear al mismo tiempo. Nuestros violentos impulsos de supervivencia aflorados (y bastante confusos bajo la presión del bombardeo mediático oficial y / o alternativo) se pusieron en las calles, en las discusiones en los boliches ó en los almuerzos de familia.

Desde 2013 estamos abiertamente insertados en una crisis política que no termina.

La desconfianza respecto a las instituciones del régimen es muy grande y la democracia representativa viene siendo desacreditada bajo las balas de la policía militar exterminando paulatinamente a un número de negros y negras, indígenas y pobres periféricos, mayor que la dictadura civil-militar brasileña.

La expresión de la crisis económica mundial llegó a Brasil generando desgaste en la popularidad de un gobierno que se asentó en la pacificación política (construida sobre la perspectiva de conciliación entre clases), popularidad que los gobiernos del PT pudieron sostener -a pesar de gobernar para el capital- a través de la inclusión de segmentos de trabajadores pobres en el mercado como nuevos consumidores, ampliando el endeudamiento y el acceso a bienes que han sido cada vez más privatizados, como educación, vivienda y salud, o transferidos a la esfera individual, como en el caso del transporte asociado a la política de acceso a la compra de vehículos.

Los sectores sociales recién insertos en ese lugar de nuevos consumidores-endeudados, asimilaron como real la ilusión con una aparente emergencia de desarrollo para todos, ya que ella parecía encontrar cuerpo físico en ellos mismos, materializada en su propia trayectoria individual ascendente, hacia la universidad , al coche nuevo y al empleo precario pero formal.

Todo esto realmente sucedió, pero, a pesar de haber ampliado los márgenes del mercado consumidor, de tan insuficientes, las políticas de los gobiernos del PT ni siquiera alcanzaron el grueso de la población que necesitaría ser “incluida” (mismo en esta anémica política social).

La pobreza siguió siendo exterminada en matanzas mensuales esparcidas por las periferias de todo el país, los informales y los ambulantes – aumentando en velocidad correspondiente al desempleo – son cada vez más reprimidos y vigilados, la ley antiterror, la criminalización de las drogas y el aborto, el avance del agronegocio sobre la naturaleza y comunidades de pueblos de la tierra, el ejército en las favelas, el encarcelamiento masivo y el fortalecimiento del carácter punitivO del estado penal brasileño se profundizaron durante los años de gobierno del PT sin que los recién insertos en los márgenes del consumo se solidaricen con quienes estaban en condición aún más vulnerable a las oscilaciones del capital. El engodo de cambio de clase.

El discurso de desarrollo y derechos para todos era propagado por el gobierno como fórmula justa en que, tanto los más pobres como el gran capital, saldría siempre beneficiado. Los que pudieron ser “incluidos” se veían a sí mismos y su breve emergencia como prueba de la justicia de este discurso, relegando a los no “incluidos” la responsabilidad por su “no inclusión”, ya tan bien expresada en los términos del machismo, del racismo, la xenofobia, la LGBTfobia y la meritocracia. No sorprende, por tanto, que ideas conservadoras no combatidas desde el aparato institucional de estado (cediendo siempre al discurso religioso) se hayan fortalecido entre la población.

Los impactos de la crisis económica han encontrado una grave perturbación política, cierta incredulidad en los caminos de solución por dentro del orden y una izquierda incapaz de realizar una crítica radical al modus operandi de la política institucional, desarrollista y progresista, incapaz de articular un proyecto que presentara ruptura con el orden, con la cual la propia izquierda se confundió a lo largo del período de tres mandatos.

La agudización de la crisis aceleró la corrosión de la influencia del PT -que pasó a ser traducible únicamente en la esfera económica de consumo de bienes-, pero no generó sectores que lograran organizarse colectivamente para disputar la desilusión en las instituciones en el sentido de fomentar los elementos contradictoriamente más rebeldes que esa desilusión actúa.

Esta desilusión, inmóvil y silenciosa, no sonaba disonante al consenso social hegemónico hasta que las manifestaciones de junio de 2013 contra el aumento de las tarifas de transporte colectivo hicieron estallar en las calles la revuelta que, efectivamente, unificó los “no incluidos” (porque son éstos los más afectados por la tuerca política de transportes, en la medida en que se concentran en las favelas y regiones más inaccesibles de las intransitables metrópolis) y algunos de los “recién incluidos” que, con la crisis, vieron su trayectoria emergente encontrar el colapso (como los jóvenes formados en la enseñanza superior de universidades privadas consideradas como de segunda clase a través de programas de gobierno- que transfirieron dinero público a los barones de la educación privada – pero que no pudieron insertarse en el mercado de trabajo en sus áreas de estudio, como máximo, puestos de trabajo violentamente precarizados, admitiendo una contradicción en la lógica del “Estudie, trabaje, se esfuerce, que usted consigue”. Ellos no estaban consiguiendo mucho).

Hubo elecciones depues de 2013 y, en varias regiones donde ahora a la primera vuelta quien ganó fue la ultraderecha, el PT fue cuatro años atrás el mejor votado, eligiendo nuevamente a Rousseff que, sin embargo, inició su gobierno restringiendo el acceso al PIS 2)PIS, seguro desempleo y asignación salarial son planes de seguridad dirigidos mayormente a trabajadores muy pobres el seguro de desempleo y la asignación salarial para hablar de políticas de ajuste con gran impacto entre los ya desasistidos por el estado.

La poca diferencia entre las gestiones de los PTistas y las gestiones conservadoras en el momento de la crisis y el ajuste colaboraba con la identificación de todos los partidos del orden y fue contra todo y contra todos los que junio explotó salvaje y confusamente en las movilizaciones, siendo secuestrado posteriormente por la derecha que fue a las calles disputar el sentido de la revuelta puesta mientras el PT condenaba las manifestaciones como irresponsables, porque no organizadas según sus propios criterios de lo que es estar organizado o no.

Los más vulnerables a la crisis no encontraban en ningún discurso de crítica al PTismo los elementos de radicalidad que buscaban, empujados por el odio, el desempleo, el bombardeo ideológico y la incredulidad en las instituciones.

Ni el PT ni el PSDB parecían encontrar gran eco en esa multitud revuelta en 2013, en las huelgas de basureros, en las escuelas secundarias tomadas por estudiantes o en los “rolezinhos” 3) Luchas que explotaran por fuera de los sindicatos, movimientos y partidos, a veces encuentra de ellos.. Ni izquierda ni derecha, términos que parecían no significar mucho.

La burguesía, entonces, no necesitaba del PT para nada más. Si él ya no era capaz de calmar, con reuniones y símbolos, la revuelta de las calles, para qué ellos servirían? Si fueron capaces de hacerlo sólo cuando la economía internacional permitía migajas sociales y ganancia récord a los bancos, no eran más útiles en el árido escenario de ajuste duro y ataque a los derechos que el capital internacional imponía con su agenda de “recuperación de la crisis”.

Con el secuestro de la revuelta hacia una nueva canalización por dentro del orden, la corrupción se convirtió en el vértice del debate político nacional y la idea de que todos son corruptos se instaló tan rápido que el antiguo dicho de la derecha malufista, lo “roba pero hace” se popularizó también entre activistas de izquierda a defender sus candidatos.

La caza a los corruptos estaba abierta pero, siguiendo el padrón de democracia brasileña, la caza a algunos corruptos estaba abierta, a otros no, como siempre.

El pueblo más pobre no salió a las calles para derribar a Dilma Roussef.

Sin embargo, el pueblo más pobre tampoco fue a las calles impedir su caída o luchar en su defensa. El PT perdió su capacidad más interesante al capital: la de calmar los movimientos insurgentes, integrándolos – inmovilizados – al estado. El otro lado de la misma moneda es que esta pérdida se dio exactamente porque el PT optó por ser el gestor del capital, contra los trabajadores, aunque no estaba todo el tiempo enfrentado con ellos, ya que hubo momento en que las políticas asistenciales eran posibles sin tocar las ganancias capitales.

Impeachment.

Michel Temer degradó aún más la confianza en la posible salida democrática al mismo tiempo que imprimía golpes a los trabajadores.

 

Violencia, seguridad, racismo, machismo

Desde entonces muchas luchas siguen ocurriendo.

Una huelga general contra la aprobación de la propuesta de reforma previsional – que precarizaba mucho más los ya vulnerables – fue construida y tuvo fuerza de paralización impresionante en las grandes capitales brasileñas.

Los indígenas guaraníes del pico del Jaraguá tomaron las torres de comunicación y dejaron sin señal de TV a más de 600 mil personas, haciendo que el gobierno provincial de São Paulo (de Geraldo Alckmin) retrocediera de la privatización del parque estatal del Jaraguá.

Las movilizaciones de las mujeres siguieron ocurriendo: en defensa de la legalización del aborto, movilizadas en repudio a episodios de machismo (como lo que se hizo notorio del sujeto que eyaculó a una joven mujer dentro de un autobús y fue liberado por el juez que consideró su violencia como ” acción sin constreñimiento”) y con manifestaciones y huelgas radicales en los meses de marzo.

El avance de la lucha de las mujeres -una de las discusiones que se arraigaron en nuestra sociedad hace pocas décadas pero que parece no enfriarse, tomando un aliento nuevo a partir de debates que postulan la situación de negras e indígenas, la relación de la dominación de las mujeres con la dominación de los territorios, la quiebra de los patrones de conducta y estética y la descolonización – parece haber fragilizado la representación de lo que es masculinidad en nuestra sociedad y, ante ese sacudido, un candidato hombre, blanco, conservador, religioso, machista y misógino parece plasmar el intento irascible de repostar las “cosas en su lugar”.

El machismo, como parte de la lógica de funcionamiento social a la que estamos expuestos y sometidos, fue alimentado como fórmula racionalizada de la justificación de injusticias por tanto tiempo que, ahora, aun cuando en cuestión, aun cuando es sacudido por la marea feminista que ronda varios países y contextos que se asocian a momentos de ascenso y explosión de luchas en las calles, todavía se utiliza de su modus operandi tradicional para intentar reestructurarse como ideología organizadora del caos, de la “ausencia de valores, ausencia de dios, ausencia de la familia y de las tradiciones” .

La convivencia terrificante con la misoginia de Bolsonaro tal vez se explique si pensamos que Brasil es uno de los países que más mata a mujeres, que los recursos necesarios para una digna implantación de la ley Maria da Penha nunca llegaron, que el estado nunca postuló seriamente la legalización del aborto y que las mujeres asesinadas todos los días son en su mayoría pobres y no blancas, invisibles incluso para la social democracia operando desde el estado o como oposición electoral al grupo en el estado. Así, la connivencia con la misoginia -que Bolsonaro exacerba en su discurso- no es, también, de ahora. Bolsonaro es una exacerbación de la enfermedad que vivimos democracia adentro.

Las mujeres negras han sido protagonistas de durísimos luchas contra políticas que atravesaron gobiernos muy diferentes entre sí. A ejemplo de ello, se podría hablar del enfrentamiento a la política de privatización del derecho a la vivienda, haciéndolo mercancía consumible por sectores “incluidos” pero sólo accesada por las “no incluidas” por la vía de ocupaciones de tierra donde las mujeres no blancas son mayoría (pesado aquí el hecho de que, por regla general, son representadas por hombres, blancos, oriundos de los sectores medios) y donde cuestionan la propiedad privada en acto.

Aún observando los procesos de resistencia donde están insertas, se puede percibir que cuestiones centrales sobre la violencia de estado, como el encarcelamiento y el exterminio de la población negra, han sido tomadas en las manos precisamente por mujeres negras y pobres. Son las madres de mayo, son mujeres organizadas en asociaciones de amigos y familiares de personas privadas de libertad. Ellas, las mujeres negras por quienes los progresistas nunca temieron o lamentaron, fueron las únicas a recuperar desde el punto de vista radical la discusión sobre el tema de la seguridad pública.

Inevitable hablar de seguridad pública cuando tocamos el tema del racismo que, en Brasil, es alimentado desde hace 500 años. La esclavitud es una llaga en la carne de la población negra sangrando hasta hoy entre callejones en favelas, trabajando más y recibiendo menos, golpeados por ataques que ni siquiera pueden ser denunciados porque no son considerados crímenes, o aún pudriendo en las cárceles.

 Nuestra población ni siquiera se reconoce como negra, indígena o afro-indígena y las anémicas políticas de cuotas en las universidades públicas ó entre los trabajadores de estado no alteraron el exterminio y encarcelamiento estructural, haciendo que algunos sectores de “negros incluidos” se distanciaran o moderaran sus propuestas de país en relación al conjunto de los negros “no incluidos”.

Aquí, otra vez, podemos percibir la continuidad de la postura connivente con el racismo. El que no combate el racismo, colabora con él y la izquierda tradicional distanciada de las presiones sufridas por los más pobres, se acercó a los debates de raza y género con la óptica oportunista de creación de nichos electorales que pudieran catapultar a sus candidatos al parlamento, engrosando sus bancadas. La connivencia con el racismo tampoco es de ahora y muchos de nosotros hemos escuchado, al menos por los últimos dos años, que la culpa es del pueblo, “burro, ignorante y que no sabe votar”. La culpabilización de la víctima es una lógica que se observó en el machismo, en el racismo y parece extender sus tentáculos al pensamiento que se dice progresista.

 

De los límites de la democracia burguesa en un país colonizado

La democracia burguesa, en Brasil, no puede ser pensada sin acoger el hecho histórico de la esclavitud de negros e indígenas. El mito de la democracia racial afirmaba que blancos y negros serían iguales, afirmaba que los negros y negras serían libres y la abolición se produjo después de muchas revueltas ahogadas en sangre negra. La violencia es siempre una marca de los países que fueron atravesados ​​por la diáspora negra forzada.

Liberados de su condición de mercancías vendibles a la vista, los negros y negras fueron incorporados como explotados de segunda clase, aún más subalternizados que el conjunto de los trabajadores en general. El mito de la democracia racial seguramente informó la concepción de democracia a la que estamos sometidos: la fórmula democrática es la mejor apariencia del engaño, ella hace que los explotados legitimen su explotación, hacen que participen del arreglo en que son subalternizados colocándonos – como en el mercado a vender nuestra fuerza de trabajo – en posición aparentemente igual a la de nuestro explotador, dueño, señor o presidente.

Lo que se acordó denominar “izquierda” dejó de articular su actuación cotidiana con la perspectiva de ruptura con el estado burgués. És buscando llegar a él que operan y se posicionan, es tratando de salvarlo del descrédito que retroceden en sus proposiciones cada vez que el pueblo pobre rompe todo en las calles, en revuelta y violencia.

Esta idea de democracia como camino y arreglo superior de organización social -que buena parte de las izquierdas buscan y afirman en sus programas- es reflejada en un breve momento de excepción, que ocurrió durante algunas décadas, en una parte del mundo, más precisamente en Europa (y luego un poco en los Estados Unidos) y que incluso tardó, por ejemplo, en abarcar hasta las mujeres blancas.

La democracia que se afirma en el rumbo del desarrollo-económico-integración-por-estado, que se postula como salida general a los problemas de la humanidad, es una formulación occidental que nunca se generalizó porque sólo existió a costa de la sangre de continentes enteros.

Esa sangre que brota en nuestras calles ha sido banalizada por el Estado y tratada sin ninguna elaboración especial por parte de las izquierdas (mayormente blancas) por mucho tiempo. El fenómeno del fascismo es sí muy peligroso, es verdad, el fenómeno del fascismo está presente como elemento constitutivo de las democracias burguesas (sobre todo en países colonizados) y se presenta como el narcisismo que pretende destruir y eliminar todo aquello con lo que el ego no se identifica.

El mantenimiento del encarcelamiento, del racismo institucional, de las policías militares, del monopolio de la violencia en manos del estado capitalista o de sus co-gestores para-estatales, ha dejado de ser punto de elaboración esencial de los progresistas y, en medio del caos de la vida colapsada con las políticas de ajuste, es el tema que quedó, al menos públicamente, sólo en las propuestas fascistas de la ultraderecha. Ninguna de las “izquierdas” que pleiteaban en el circo electoral tuvo la osadía de postular el debate de la seguridad y del armamento, del fin de la policía militar y del derecho a la autodefensa del pueblo4)El Atlas da Violencia 2017 trae algunos datos: 318 mil jóvenes entre 15 y 29 años fueron asesinados entre 2005 y 2015; de cada 100 víctimas, 71 son negras; entre 2005 y 2015 aumentó el número de mujeres negras víctimas de asesinato, saltando del 54% en 2005 al 63% en 2015.

En realidad, una conversación de sordos se encadenó entre dos claques: prisión o no prisión para los corruptos. Y todos dieron su módica colaboración para una aún mayor judicialización y militarización de la elaboración política.

Estamos ante la democracia en su cara más visceral, aquella que acoge al fascista como candidato a ser elegido democráticamente. ¿Qué tipo de locura es esa? Pues me parece, al final, que es ésta la esencia de nuestra democracia y nos asusta percibir que fué, desde adentro de ella misma, que se ha producido esta excrecencia que es, en realidad, la imagen incómoda de aquello con lo que hemos silenciosamente tolerado.

Kaô Cabecielle – Preparar la batalla 5)Saludo al Orixá Xangô, Orixá que en las religiones de matriz afro representa la justicia

Tengo muchas dudas sobre la posibilidad de invertir el cuadro electoral. Lo que más me sorprendió fue el rechazo al PT. Debo confesar que el discurso de Bolsonaro siempre ha preocupado a todos, pero yo, en particular, subestime este anti-PTismo. Contra él también hay que luchar, puesto que encarnar en un partido del orden el origen de nuestros problemas nos juega otra vez en los caminos democrático-burgueses.

Hay elementos importantes que deben ser considerados como, por ejemplo, el posicionamiento de los sectores más reaccionarios del PSDB (Alckmin) explicando al empresariado paulista que elegir al militar va lanzar al país en un escenario menos rentable a la acumulación.

No es imposible que una inversión ocurra pero el riesgo de elección de Bolsonaro es ahora efectivo.

Sin embargo, independientemente del resultado de las elecciones, lo que nos espera es una situación terrible y aún más violenta justamente para nosotros, negro, negras, trabajadores y pobres, donde la polarización social entre las clases, desbordando el período electoral, se generalice con enfrentamientos cuerpo a cuerpo.

Es necesario moverse y tomar las calles, aquellos que las abandonaron durante los últimos quince años tienen que volver a ellas, pero tengo dudas sobre cómo reaccionan al encontrarse con la realidad compleja e intraducible en sus categorías analíticas puras. También tengo dudas de la popularidad que conseguirá recoger su anémico proyecto de mundo donde los negros y favelados figuran otra vez siendo asesinados mientras compran coches a través de financiamiento.

Lo que fue abierto con la ascensión rápida del apoyo al fascista no puede ser combatido en las urnas, es en las calles que necesita ser combatido, es con articulación, con solidaridad entre trabajadores, negros, pobres, favelados. Es necesario organizar la autodefensa de nuestra gente, hay que prepararse para un combate en que nos ponemos como no dispuestos a perder a ninguno de nuestros maestros, ya sea a través de 12 puñaladas 6)Un maestro de capoeira en Bahía, reconocido en todo Brasil, fue violentamente asesinado por un elector de Bolsonaro con 12 puñaladas, ya sea a través de 12 años de engaño y apaciguamiento. Nosotros, las mujeres necesitamos organizar nuestra autodefensa, no podemos dejar que ninguna otra marca de hierro y fuego sea impresa en nuestras carnes, marcadas hace 500 años por el capital.

Esta práctica de resistencia-enfrentamiento es inmediata. Dentro de ella habrá la unidad de sectores del activismo muy diferentes entre sí. A mí me parece que más éxito en organizar y luchar más allá de las elecciones tendrán aquellos que no tengan miedo de posicionarse abiertamente contra la idea de que esta democracia es el mejor lugar al que podemos llegar. Creo que las relaciones de confianza serán más fácilmente fomentadas por los que se atrevan a hablar sobre el derecho del pueblo negro de defenderse, del derecho de las mujeres a defenderse, del derecho de los trabajadores a defenderse. El pacifismo oculta, en su grito por la paz, nuestros cuerpos perforados por balas y cubiertos por sábanas en las callejuelas de nuestras favelas.

En este momento difícil, recuerdo la experiencia de los Panteras Negras (sobre la que tengo fundas críticas) y pienso que si algo puede a largo plazo hacernos salir del lamentable situación en que nos metemos democráticamente, ese algo necesita ser radicalmente contra el orden establecido y el el status quo, ese algo necesita denunciar todas las formas de fascismo y denunciar, incluso, los elementos fascistas que subsisten en la forma democrática burguesa cuando ésta es elaborada como única forma de organización social que sintetiza con neutralidad todas las necesidades de todos los pueblos – idea de universal englobante de todas las distinciones y, por lo tanto, también narcisista.

Hay mucho miedo dispersado por el aire. Él toma nuestros pulmones y casi no conseguimos respirar envueltos en la niebla bélica que atraviesa las discusiones sobre nuestro futuro próximo. Es necesario organizarse y combatir construyendo huelgas y ocupaciones. Hay que salir a las calles y respirar. Es necesario tomar las calles y resistir. Es necesario confrontar y combatir, es por la vida, por nuestras vidas.

 

 

Militante de las luchas por el territorio en las periferias de Brasil, y sobre todo, São Paulo. Escribe, canta, toca, baila y habla más de lo que debería. Comunista libertaria, feminista afro-indígena y favelada.

Militante das lutas do território nas periferias do Brasil e mais que tudo em São Paulo. Escreve, canta, toca, dança e fala mais do que deveria. Comunista libertária, feminista afro-indígena e favelada.

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Notas   [ + ]

1. O Atlas da Violência 2017 traz alguns dados: 318 mil jovens entre 15 e 29 anos foram assassinados entre 2005 e 2015; de cada 100 vítimas, 71 são negras; entre 2005 e 2015 aumentou o número de mulheres negras vítimas de assassinato, saltando de 54% em 2005 para 63% em 2015
2. PIS, seguro desempleo y asignación salarial son planes de seguridad dirigidos mayormente a trabajadores muy pobres
3. Luchas que explotaran por fuera de los sindicatos, movimientos y partidos, a veces encuentra de ellos.
4. El Atlas da Violencia 2017 trae algunos datos: 318 mil jóvenes entre 15 y 29 años fueron asesinados entre 2005 y 2015; de cada 100 víctimas, 71 son negras; entre 2005 y 2015 aumentó el número de mujeres negras víctimas de asesinato, saltando del 54% en 2005 al 63% en 2015
5. Saludo al Orixá Xangô, Orixá que en las religiones de matriz afro representa la justicia
6. Un maestro de capoeira en Bahía, reconocido en todo Brasil, fue violentamente asesinado por un elector de Bolsonaro con 12 puñaladas

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